sábado, maio 28, 2016

O MUNDO DAS AVES


Ficamos algumas semanas sem comer carne. Os materiais de escola eram mais urgentes. Eu nem gostava de escola, tinha dona Marta e sua régua de alfaiate, e os meninos que me caçoavam o tempo todo por eu trocar o “r” pelo “l”.  Mãe dizia que eu tinha que obedecer dona Marta e fazer tudo direitinho e respeito e não dar bola pros meninos. A irmã aprendeu a ler rápido, então tia começou a trazer folhas de jornal e revistas da casa dos Vieras Couto. Foi de uma dessas paginas que a irmã nos leu A Velhinha Contrabandista, de Stanislaw Ponte Preta (Sergio Porto). Na verdade, só recentemente vim a saber do autor. Vasculhava o porão e encontrei uma mala com pertence de tia, entre eles estes recortes de jornal e revistas. Tia era analfabeta, fez gosto em nos incentivar a estudar, repetia com vó que também não conhecia as letras: “devemos desconfiar de tudo que vemos, das letras devemos desconfiar duas vezes, mas quem lê vê mais além. Depois, quem não duvida deve estar é morto”. Encontrei o primeiro texto que li. Era fim de junho, vó fez fogueira, comemos milho e batata doce na brasa, tia contou-nos história e sacou um papel do bolso, deu-me... “Deixei o leito as 5 horas. Os pardais estão iniciando a sua sinfonia matinal. As aves deve ser mais feliz que nós. Talvez entre elas reina amizade e igualdade. (...) O mundo das aves deve ser melhor do que dos favelados, deitam e não dormem porque deitam-se sem comer...”. Li tremulo, tropeçando nas palavras, engolindo-as. Vó aplaudiu! O texto é de Carolina Maria de Jesus, e está em sua obra Quarto de Despejo que encontro entre as coisas de tia. Quando voltei do exílio, voltei com planos de ensinar tia a ler, não foi mais possível... “Professor, professor, eu li direito?”, pergunta-me Dona Sebastiana, 66 anos...  

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