Ela
chegou com flor de tecido no cabelo combinando com o vestido hippie colorido, a
sandália rasteira. Acenou-me assim que
me viu. Contemplei sua figura aproximando, um contentamento invadia-me.
Trocamos um selinho, nos abraçamos, perguntamos um do outro: “Como você está?
Tudo bem!”. Nos sorrimos e, então, nos beijamos mais demoradamente. Pude sentir
o perfume de seus cabelos, de sua pele. Procuramos um lugar discreto para nos
acomodar. “O bom daqui”, disse-me, “é a vista do mar”. Seu sorriso satisfeito, seus
olhos nem verde nem castanho sutilmente delineados a lápis, os lábios
abatonados de um bronze suave, a face corada realçando o jambo natural de sua
pele, tudo me absorvia... Ela pediu suco, pão com frios grelhado, eu café e
queijo branco, também grelhado... Por baixo do vestido se intuía os seios
livres que meus olhos buscavam, através do decote, como criança à fresta da
porta, abarcar os contornos. Ela percebeu, fiquei sem jeito. Ela apenas sorriu
um paraíso... Conversamos sobre coisas do passado, o compromisso que teríamos, música...
Falou-me de Cazuza, Renato Russo, um grupo americano. Falei-lhe de Tom Zé,
Belchior, Elza Soares... “Foi uma tarde de maio. Não junho...”, comentou.
Fiz-lhe um ponto de interrogação, questionando-a. “A primeira vez que nos
beijamos, foi numa tarde de maio, diz depois de teu aniversário. Você, em teu
texto, escreveu junho...”. “Eu não sou bom com datas, você sabe!”, redargui
como que me desculpando. Ela afagou-me os cabelos e selou meus lábios aos
seus... Descemos a orla em sentido ao
centro comercial, caminhávamos sem pressa, mãos dadas. Ela me falava de seu
novo romance e pedia-me opinião sobre um determinado personagem. Eu quase não
falava, soltava uma ou outra interjeição, apenas assentindo com seu
entusiasmo... Lamentou não estar preparada para um banho de mar. Comentei que
poderíamos parar em um negócio qualquer e comprar um biquíni que lhe agradasse;
ela poderia se utilizar do provador. “O editor nos aguarda!”, sorriu-me.
“Almoçamos com ele?”, perguntei. “Não, devo apenas aprovar a capa do livro e
fechar a programação de lançamento”. Reforcei-lhe a ideia do biquíni “podemos
almoçar próximo à praia e antes de retornarmos ao Hotel, se quiseres, ...” “Que
horas você tem?”, perguntou-me. “Estamos bem adiantados!” respondi. Ela, então,
puxando-me pelas mãos, assumiu a direção do mar. A certa altura, desfez-se do
vestido e da flor do cabelo e, de minúscula calcinha salmão, correu mar
adentro. “Foi em uma tarde de maio e não junho...”, pensava enquanto recolhia
seu diminuto vestuário, “foi em uma tarde de maio e não junho...” Foi numa
tarde de paraíso que eu a contemplei, como agora, envolta pelo mar em plena
travessura de criança. Naquela tarde presenteava-lhe uma flor de cabelo.
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