quarta-feira, junho 29, 2016

SERVOS DO SENHOR


“Não estou criticando seu trabalho, realmente você é muito caprichosa. Mas, não posso aceitar esse tipo de gente em minha casa.” (de um fragmento no Estadão)



Ghermana Trancoso andava desconfianda do marido. Ela o percebia distante, muito atacado ao computador.
Ghermana Trancoso ia ao Shopping, comprava sapatos, se empanturrava de fondue de chocolate, reclamava a atenção do marido, que respondia burocraticamente.
Ghermana Trancoso não se aquietava, o marido era cada vez mais esquivo, falava-lhe pouco, quase não a notava, vivia trancado em seu escritório com estudos bíblicos a serem feitos, predicações a preparar: “era preciso pensar na Igreja”, dizia, deslizando aos queixumes e exigências de Ghermana Trancoso...
 Certa tarde, Ghermana Trancoso, ao sair de seu psicanalista, notou sua “colaboradora no lar” atravessando a rua com uma criança no colo. No dia seguinte, Ghermana Trancoso inquiriu a “colaboradora”, que informou-lhe ser mãe solteira. Ghermana Trancoso para preservar os filhos de uma moral perversa demitiu a “colaboradora”: “uma mãe solteira era uma influência negativa num lar dedicado a servir o Senhor. Gente dessa espécie dizia, fazendo os gestos do pastor, que por sinal era o marido, não tem moral alguma...”
Ghermana Trancoso passou a dormir mais segura, embora o marido continuasse atacado ao computador: “trabalhava tanto o pobrezinho, sempre preocupado com a Igreja...”
Quando Ghermana Trancoso descobriu que o marido andava monitorando os banhos da filha e os fazia circular numa rede de amigos virtuais, Ghermana Trancoso agradeceu ao Senhor Deus: “Graças vos dou Senhor, Bom Deus, pelo esposo dedicado e bom pai que me deste.” O marido havia explicado que estava administrando possíveis varões, para encaminhar a filha em um negócio, quer dizer casamento, “agradável ao Senhor”.

Lemos no Comarca que a Família Trancoso precisa de “colaboradora no lar” com sólidas tradições patriarcais.


Pau D’Alho é uma cidade incomum...




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