sábado, julho 30, 2016

SALUSTIÃO


 “Lacan dizia que as doenças mentais nem são doença nem são mentais: é sintoma.” Christian Dunker

 Ouvi, certa manhã, mãe ralhar com Murilo. Ele beirava os quinze dezesseis anos. Mãe soube, por Antuérpia, por inveja desta, que ele andava expiando o banho de sol da vizinha. “Eu te arrancos os olhos! Te arranco os olhos...”, dizia-lhe mãe, severa. Sempre tive medo de perder os olhos. Lembro-me a desagradável impressão que causou-me o Velho Salustião o dia que, para lavar o rosto tirou o inseparável óculos escuro. Os dois vazios em sua fronte agoniaram-me. Acordei no meio da noite, o colchão molhado... Era tremendo de receios, mas com uma incapacidade indescritível de resistir, que me arrastava à fresta do banheiro, quando mãe, ou Antuérpia, nele se ocupavam.

Eu cheguei aos 11 anos. Mãe fez festa. Vieram os tios e as tias, os primos todos. Pai matou capado e providenciou bebidas. Tio Ozório presenteou-me um binóculo. Tio Ozório era um homem sacado: “neste abandono de Deus deve ter alguma ‘periquita’ que mereça ser apreciada”, dizia zombeteiro.  Foi tio Ozório partir, mãe confiscou-me o instrumento: “Para que não te cegues, meu anjo!” Murilo partiu com Tia Fausta para continuar os estudos na cidade.

... Foi sonho ou delírio. Despertei no meio da noite, garganta seca, bexiga a ponto de romper. Corri ao urinol. Aliviado, ia ao filtro. Percebi gemidos. Vinham do quarto de pai... “Vem! Assim..., vem...!”  Não era sofrimento, não sabia o que era... “Isso... Assim... Vem... Vemmm... Me coma! Isso, Me coma... Me coma...” Arrastei os olhos à fechadura da porta... Odiei mãe, o brilho em seus olhos, seu sorriso. Desejei pai morto... Foi apenas um sonho. Talvez delírio

Tornei-me inquieto, agressivo, desrespeitoso. Passei a não enxergar.  Acordo sempre no meio da noite: mãe doando-me os olhos de pai. Eu, sob o regaço de mãe, saboreio-os. Vejo-me Salustião no olhar de mãe! Acordo premido, angustiado...

“É só um pesadelo meu anjo! Um pesadelo! Logo, o médico disse, você volta a enxergar!” O brilho nos olhos de mãe, seu sorriso, um delírio que não me abandona. Eu me condeno... 

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