As crianças hoje não sabem brincar, vivem conectadas a celulares. Eu não, eu tive uma infância rica, criativa. Brincava a valer. Eu subia em árvores, tomava banho em rio, nadava em lagoa, armava arapuca, corria descalço. Minha infância era divertida. Só dona Marta e sua régua de alfaiate macula a memória de minha infância. Dona Marta não perdoava eu não decolar a tabuada, não aceitava eu não saber conjugar o verbo vir na terceira pessoa do singular no pretérito. Dona Marta descia-me a régua por eu trocar o “r” por “l”. Ainda acordo com a profecia de dona Marta ressoando em minha cabeça: “Não serás ninguém! Não serás ninguém!” Não obstante dona Marta, brinquei a valer: esconde- esconde, pega- pega, mãe da mula, mãe da rua, pique, pião, carrinho de rolimã. Tornei-me cidadão de bem. Em minha infância eu não ficava enfurnado na escola em período integral, meus pais não inventavam ballet, judô, esgrima, grego, pintura a dedo, coisa e tal, para ocupar o meu tempo, tirar-me da rua. Feita a lição de casa: cópias e mais cópias de livros para folhas de almaço, minhas tardes eram livres e eu ganhava as ruas em estripulias. Minha infância era um paraíso. Brincando, não dava conta que o Pedro Henrique vivia com braços e pernas enfaixadas. Não, ele não tinha ossos frágeis, mas pai alcoólatra e violento. Minha infância era um paraíso, não percebia que as manchas no pescoço de Maria Rita não eram de alergia, mas chupões do tio abusivo. Eu me esbaldava de brincar, o Jorge Luiz não. Não que não quisesse, que não gostasse. Ele tinha que levar dinheiro para casa, empurrando carrinho de sorvete. E o esquizito do Tonzé, qual era mesmo o nome do Tonzé Lelé? Eu não dava conta que ele não era esquizito, era autista. Eu nadei muito em rio e lagoas, mas, na boa, não permito a meus filhos tal aventura, esfolei muitas vezes o dedão chutando pedra no lugar da bola, meus filhos nem dentro de casa ficam descalços. As crianças de hoje não sabem brincar! É sério isso? Tiramos-lhe as árvores, tiramos-lhes os rios, tiramos-lhes as ruas para congestioná-las de carros e enche-las de lombadas, tiramos-lhes o tempo, enfurnando-as em escolas sem atrativo algum e em cursos e mais cursos apenas para lhes ocupar o tempo. Crianças não nasceram com celulares, celulares não brotam nelas. Não obstante, elas brincam, brincam com o que tem, com aquilo que lhes oferecemos. É da criança brincar. Mas não lhes cobremos subir em árvores, construímos arranha-céus em seus lugares; não exijamos brincar de mãe da rua, as ruas não mais seguras são; não lhes permitamos das águas de nossos rios saírem outras, pois não ousamos nelas nos banhar. Minha infância foi um paraíso, mas eu não consigo olhar para minha infância no paraíso sem ser visitado pela sombra de dona Marta, sua régua de alfaiate, seu vaticínio me assombrando: “Não serás ninguém!” Eu não consigo olhar para minha infância no paraíso sem me recordar das fraturas do Pedro Henrique, dos chupões no pescoço de Maria Rita, da vida de labuta precoce do Jorge Luiz, do como maltratávamos o Tonzé. Eu brinquei a valer, mas muitos dos meus coetâneos viveram o inferno. E, hoje, parece-me, se o modo de brincar mudou, o inferno para muitas crianças ainda é o mesmo. No Brasil de hoje, a infância de muitas crianças é de abandono e fome, mesmo conectadas a celulares. E é isto o que me preocupa, não como elas brincam.
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