Em
todo prazer há do sofrer de outrem (Eurípedes
Santos)
Há
algumas semanas não ejaculo. Para evitar a fadiga sem sucesso, enfurno-me em um
novo texto e na leitura compulsiva. E quando acosto-me ao lado de seu corpo
quente, ressonando, o dia está para clarear. Tomo o remédio... Ouvi quando
despachou os meninos para a escola e anunciou estar saindo: “não vá se atrasar!
Tenha um bom dia!!! Não chegue tarde!!!” Não dei resposta alguma...
Acordo
sufocado de um sonho. Consulto o despertador, meio dia passado. Levanto-me. Tomo
um banho, masturbo-me sem chegar a ejacular. Algo inquieta-me, um desejo de
evasão, ansiedade sem objeto esperado.
Deixo
o chuveiro. Tomo um conhaque observando o jardim. Rememoro o sonho. Nele, verifico
os meninos que dormem sem amanhã: invejo-os. Desço à sala, ligo, desligo, repetidas
vezes a televisão, pego um livro a esmo, tomo copos e copos de conhaque, folheio
por folhear o livro. Vejo-me no quarto,
sento-me sufocado, o ar abafado. Abro a janela, acompanho o passeio solitário
de um gato saltando de um telhado a outro na noite deserta. A brisa suaviza-me
o animo: “Porque você não vem dormir?”, murmurou-me sonolenta. Deixo a janela
entre aberta e deito-me a seu lado. Volto a levantar-me e me ocupar de um livro
infantil dos meninos: “seria bom se a vida, ao fim, tivesse uma moral
qualquer”...
Almoço
verificando emails, correndo os olhos pelos sites de noticia: “o desumano
desfila sua face em cores de nossa bandeira”... Acessei uma página “adulta”,
procurando algo que me excitasse, masturbei-me: fadiga sem gozo! Tomei minhas
coisas, saí para o trabalho. No trem acompanhava as mulheres falando de seus
filhos e suas apreensões enquanto tentava ler Gênio Obsessivo, de Barbara Goldsmith... Veio-me a mistura de
fragmentos de Camus (“No fundo de toda beleza jaz algo de desumano”) e Leopardi
(“Na verdade esta vida é tristeza e infelicidade...”). O que se deu já não era algo insólito, apenas
incomodo. Peguei-me chorando sem motivo algum, sufocava-me os rumores das
muitas vozes em torno a mim, os olhares me oprimindo, escorria-me suor frio... Interrompi a viagem, descendo do trem na
primeira oportunidade. Meu corpo comichava, sentia calor e sufocamento, pensei
que perderia o sentido. Alguém puxou-me: “Ei, atenção! A linha amarela!”
Agradeci desnorteado, procurei onde sentar-me, respirei, procurei por balas na
bolsa, não achei! Tive a impressão de estar sendo vigiado... Recobrei-me.
Conjecturei não ir trabalhar. Voltar pra
casa exigiria explicações e a paciência de ouvir todo um rosário de
preocupações que eu deveria ter com minha saúde, que deveria “procurar um
médico, retomar a medicação, etc.” Havia a opção de ficar perambulando pela
cidade, pensei em tomar rumo da rodoviária, tomar um ônibus qualquer para uma
cidade qualquer, não sentia disposição para aventuras. Retomei o caminho do
trabalho: “estou tornando-me um homem cotidiano, resignado às contas e despesas...”
As
horas arrastavam-se em intermináveis minutos grávidos de segundos agonizantes.
Mau humor, impaciência, irritação, ansiedade, misturando-se, sufocando-me,
nauseando-me. Nenhum assunto prendia-me, as conversas exasperam-me. A
atendente, em especial, uma máquina de falar sem respirar, parecia ter dez
pessoas falando nela em continuidade. Para não ser mais azedo que de costume,
isolei-me no arquivo, organizando relatórios. Entre pilhas de papéis, Albert
Camus me assolou novamente: “Um gesto desses se prepara no silêncio do coração,
da mesma maneira que uma grande obra. O próprio homem o ignora. Uma noite, ele
dá um tiro em si mesmo ou se joga pela janela...”.
Reviro,
nauseado, relatórios e arquivos, o ar empesteado, o topor, a reminiscente
fragrância de Anghelina...
A vida era sonho. Uma tarde de veraneio, mãe
corria seus dedos sob meus cabelos, tinha a brisa do mar e seu rumorejo acalantando
o dia terminando. Eu era um sorriso só com o de mãe. “Olha mãe!”, aproximou-se
Anghelina, desatando o biquíni para mostrar a marca de sol. A vulva rosada, os
primeiros pentelhos despontando na mancha clara, destoando da pele dourada.
Tive minha primeira ereção. “Meu menininho já é homenzinho!”, burlou mãe. “E
safadinho”, emendou Anghelina, requebrando-se para mim. Escondi-me, encabulado,
no colo de mãe. Tomava consciência do vexame.
Quando
o sonho se perdeu, Anghelina já não irradiava felicidade. Ela andava tristonha,
fora preterida por um certo Consentino. Pai a ameaçava de coça caso não se
compusesse: “moça de família não fica de choramingo pela casa por causa de
homem, quem lhes procura homem e as casa é o pai! Se você não recolhe estas
lágrimas vos darei bom motivo para chorar!” E pai mostrava-lhe o reio. Mãe a
socorria: “não seja bruto! É apenas uma criança enamorada! Logo passa!” e a
acolhia em seus braços, a embalava em seu colo...
Eu
devia ter visto a tristeza nos olhos de Anghelina, eu era preocupado com meu
prazer. Eu a espiava em seus demorados banhos e meu grito alertou a família...
Como
mãe, ela tomou da navalha de pai, correu-a com delicada tristeza (porque eu não
percebi sua tristeza?) sob as pernas, a virilha, a púbis... Maquiou-se, tomou
dos pelos pubianos e os envelopou junto com um bilhete, com seus lábios
abatonados de vermelho selou o envelope. Usou do perfume de mãe, voltou a brincar
com a navalha de pai, correndo-a por seu corpo, seu sexo... Havia vazio na
pantomima toda. Era tudo tristeza e dor. Eu cego à sua dor, não sabia se
ejaculava ou gritava denunciando-me, vendo o sangue escorrer-lhe o corpo...
Porque
me prendi à navalha percorrendo seu sexo, e não a seu olhar esvaziando-se de
sentido? Essa náusea que me sufoca comanda o meu sentido de ser.
Retornando
para casa, caminho por ruas escuras, abandonadas aos ratos correndo entre as
lixeiras. Retardando o passo, vou consumindo-me na certeza de que nosso gozo é
desumano; é o sofrer de alguém. Um dia acordamos e percebemos: só o salto nos
redime. Nossa angustia é não saber o momento do salto. A noite sem luar está
carrega de uma fragrância que lembra uma tarde de veraneio em que vou me
perdendo.
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