domingo, dezembro 04, 2016

ANGHELINA


Em todo prazer há do sofrer de outrem (Eurípedes Santos)


Há algumas semanas não ejaculo. Para evitar a fadiga sem sucesso, enfurno-me em um novo texto e na leitura compulsiva. E quando acosto-me ao lado de seu corpo quente, ressonando, o dia está para clarear. Tomo o remédio... Ouvi quando despachou os meninos para a escola e anunciou estar saindo: “não vá se atrasar! Tenha um bom dia!!! Não chegue tarde!!!” Não dei resposta alguma...
Acordo sufocado de um sonho. Consulto o despertador, meio dia passado. Levanto-me. Tomo um banho, masturbo-me sem chegar a ejacular. Algo inquieta-me, um desejo de evasão, ansiedade sem objeto esperado.
Deixo o chuveiro. Tomo um conhaque observando o jardim. Rememoro o sonho. Nele, verifico os meninos que dormem sem amanhã: invejo-os. Desço à sala, ligo, desligo, repetidas vezes a televisão, pego um livro a esmo, tomo copos e copos de conhaque, folheio por folhear o livro.  Vejo-me no quarto, sento-me sufocado, o ar abafado. Abro a janela, acompanho o passeio solitário de um gato saltando de um telhado a outro na noite deserta. A brisa suaviza-me o animo: “Porque você não vem dormir?”, murmurou-me sonolenta. Deixo a janela entre aberta e deito-me a seu lado. Volto a levantar-me e me ocupar de um livro infantil dos meninos: “seria bom se a vida, ao fim, tivesse uma moral qualquer”...
Almoço verificando emails, correndo os olhos pelos sites de noticia: “o desumano desfila sua face em cores de nossa bandeira”... Acessei uma página “adulta”, procurando algo que me excitasse, masturbei-me: fadiga sem gozo! Tomei minhas coisas, saí para o trabalho. No trem acompanhava as mulheres falando de seus filhos e suas apreensões enquanto tentava ler Gênio Obsessivo, de Barbara Goldsmith... Veio-me a mistura de fragmentos de Camus (“No fundo de toda beleza jaz algo de desumano”) e Leopardi (“Na verdade esta vida é tristeza e infelicidade...”).  O que se deu já não era algo insólito, apenas incomodo. Peguei-me chorando sem motivo algum, sufocava-me os rumores das muitas vozes em torno a mim, os olhares me oprimindo, escorria-me suor frio...  Interrompi a viagem, descendo do trem na primeira oportunidade. Meu corpo comichava, sentia calor e sufocamento, pensei que perderia o sentido. Alguém puxou-me: “Ei, atenção! A linha amarela!” Agradeci desnorteado, procurei onde sentar-me, respirei, procurei por balas na bolsa, não achei! Tive a impressão de estar sendo vigiado... Recobrei-me. Conjecturei não ir trabalhar.  Voltar pra casa exigiria explicações e a paciência de ouvir todo um rosário de preocupações que eu deveria ter com minha saúde, que deveria “procurar um médico, retomar a medicação, etc.” Havia a opção de ficar perambulando pela cidade, pensei em tomar rumo da rodoviária, tomar um ônibus qualquer para uma cidade qualquer, não sentia disposição para aventuras. Retomei o caminho do trabalho: “estou tornando-me um homem cotidiano, resignado às contas e despesas...”
As horas arrastavam-se em intermináveis minutos grávidos de segundos agonizantes. Mau humor, impaciência, irritação, ansiedade, misturando-se, sufocando-me, nauseando-me. Nenhum assunto prendia-me, as conversas exasperam-me. A atendente, em especial, uma máquina de falar sem respirar, parecia ter dez pessoas falando nela em continuidade. Para não ser mais azedo que de costume, isolei-me no arquivo, organizando relatórios. Entre pilhas de papéis, Albert Camus me assolou novamente: “Um gesto desses se prepara no silêncio do coração, da mesma maneira que uma grande obra. O próprio homem o ignora. Uma noite, ele dá um tiro em si mesmo ou se joga pela janela...”.
Reviro, nauseado, relatórios e arquivos, o ar empesteado, o topor, a reminiscente fragrância de Anghelina...
 A vida era sonho. Uma tarde de veraneio, mãe corria seus dedos sob meus cabelos, tinha a brisa do mar e seu rumorejo acalantando o dia terminando. Eu era um sorriso só com o de mãe. “Olha mãe!”, aproximou-se Anghelina, desatando o biquíni para mostrar a marca de sol. A vulva rosada, os primeiros pentelhos despontando na mancha clara, destoando da pele dourada. Tive minha primeira ereção. “Meu menininho já é homenzinho!”, burlou mãe. “E safadinho”, emendou Anghelina, requebrando-se para mim. Escondi-me, encabulado, no colo de mãe. Tomava consciência do vexame.
Quando o sonho se perdeu, Anghelina já não irradiava felicidade. Ela andava tristonha, fora preterida por um certo Consentino. Pai a ameaçava de coça caso não se compusesse: “moça de família não fica de choramingo pela casa por causa de homem, quem lhes procura homem e as casa é o pai! Se você não recolhe estas lágrimas vos darei bom motivo para chorar!” E pai mostrava-lhe o reio. Mãe a socorria: “não seja bruto! É apenas uma criança enamorada! Logo passa!” e a acolhia em seus braços, a embalava em seu colo...
Eu devia ter visto a tristeza nos olhos de Anghelina, eu era preocupado com meu prazer. Eu a espiava em seus demorados banhos e meu grito alertou a família...
Como mãe, ela tomou da navalha de pai, correu-a com delicada tristeza (porque eu não percebi sua tristeza?) sob as pernas, a virilha, a púbis... Maquiou-se, tomou dos pelos pubianos e os envelopou junto com um bilhete, com seus lábios abatonados de vermelho selou o envelope. Usou do perfume de mãe, voltou a brincar com a navalha de pai, correndo-a por seu corpo, seu sexo... Havia vazio na pantomima toda. Era tudo tristeza e dor. Eu cego à sua dor, não sabia se ejaculava ou gritava denunciando-me, vendo o sangue escorrer-lhe o corpo...
Porque me prendi à navalha percorrendo seu sexo, e não a seu olhar esvaziando-se de sentido? Essa náusea que me sufoca comanda o meu sentido de ser.
Retornando para casa, caminho por ruas escuras, abandonadas aos ratos correndo entre as lixeiras. Retardando o passo, vou consumindo-me na certeza de que nosso gozo é desumano; é o sofrer de alguém. Um dia acordamos e percebemos: só o salto nos redime. Nossa angustia é não saber o momento do salto. A noite sem luar está carrega de uma fragrância que lembra uma tarde de veraneio em que vou me perdendo.


Nenhum comentário:

Postar um comentário