Quem
faz injúria vil e sem razão,
Com
forças e poder em que está posto,
Não
vence, que a vitória verdadeira
É
saber ter justiça nua e inteira.
(Luiz
de Camões. Os Lusíadas, canto X, estrofe LVIII)*
Na
linguagem política, segundo o Dicionário
de Política organizado por Noberto Bobbio, Nicola Matteucci e Gianfranco
Pasquino, a legitimidade é “um atributo do Estado, que consiste na presença, em
uma parcela significativa da população, de um grau de consenso capaz de
assegurar a obediência sem a necessidade de recorrer ao uso da força, a não ser
em casos esporádicos. É por isso que todo poder busca consenso, de maneira que
seja reconhecido como legítimo, transformando a obediência em adesão”.
Para
exemplificar tal conceito, resumido como “aprovação, pelos governados, daqueles
que detêm o poder”, Fabio Konder Comparato usa uma passagem de Confúcio:
Zigong:
Em que consiste governar?
O
Mestre: em cuidar para que o povo tenha víveres suficientes, armar bastantes e
para que ele confie nos governantes
Zigong:
E se fosse necessário dispensar uma dessas três coisas, qual seria ela?
O
Mestre: as armas.
Zigong:
E das duas outras, qual seria dispensável?
O
Mestre: os víveres. Desde sempre, os homens são sujeitos à morte. Mas sem a
confiança do povo,não há ordem política que subsista.**
Voltando
ao Dicionário de Política, ele
adverte que é possível, quando as instituições políticas se encontram em crise,
à pessoa ao vértice da hierarquia de poder congregar qualidades pessoais, capaz
de legitimar seu governo. Porém, “Este tipo de Legitimidade, pela sua ligação
com a pessoa do chefe, tem existência efêmera, por não resolver o problema
fundamental para a continuidade das instituições políticas, isto é, o problema
da transmissão do poder”.
Com
relação à legitimidade, então, nós temos um problema. Nossas instituições estão
em crise, temos um Congresso chafurdado na corrupção, que para manter tudo como
está, promoveu uma farsa bizarra. Nosso judiciário, seletivo em dar andamento a
denuncias de corrupção, moroso em respeito a Eduardo Cunha, célere em ações
contra o governo, evidencia inclinação política e fraqueza jurídica. E o que
até ontem, enquanto conspirava sorrateiramente, queixava-se de seu papel
secundário, figurativo, nas decisões do governo, desponta, agora, à cena
política como o gerenciador mor. O caso é que, tal sujeito surge como aproveitador
traiçoeiro, em um processo de deposição do governo em posto, internacionalmente
condenado e ridicularizado. É uma figura
triste e sem a menor confiabilidade.
Tal
figuração, para ficar nos termos do Dicionário
de Política, exige uma atitude revolucionária em defesa do superamento da
crise, pelo amadurecimento de nossa democracia e combate ao reacionarismo que
desponta da outra ponta de questionamento da autoridade e legitimidade do
governo presente e do que está por se instalar.
* In COMPARATO, Fabio Konder. Ética: Direito, Moral
e Religião no Mundo Moderno. São Paulo: Companhia das Letras. 2006. Pag. 596-7
** Idem, 594
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