Claudio
Domingos Fernandes
Às
vezes penso que Getulio, meu Basset, pensa. Já faz algum tempo que as folhas de
jornal que deixo em cantos da casa para ele fazer suas necessidades aparecem
estraçalhadas, o que me faz ralhar com ele. Ele murcha as orelhas e me olha com
aqueles olhos de dissimulada tristeza. Três
dias passados, eu troquei a forração de sua casa. Desde então, eu tenho notado
que ele tem dormido no capacho. Hoje percebi seu olhar triste, ora voltado para
mim, ora voltado para sua casa. Resolvi verificar a casa, se havia algo de
errado com ela. Não notei nada. Então Getulio deixou o capacho e entrou em sua
casa, retirando ele mesmo a forração que eu fizera. Descobri desalentado comigo
mesmo, que os olhares tristes de Getúlio era comigo (senti-me um obtuso), que
não percebera seu protesto. Eu, parecia dizer-me Getulio, o afrontava forrando-lhe
a casa com a última edição da Veja, esta que trás uma matéria com a esposa do
figurante que se pretende, de maneira abjeta, o papel principal. Pedi desculpa a
Getulio, que parece ter visão mais objetiva e posições mais radicais que eu.
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