quinta-feira, abril 21, 2016

GETULIO


Claudio Domingos Fernandes

Às vezes penso que Getulio, meu Basset, pensa. Já faz algum tempo que as folhas de jornal que deixo em cantos da casa para ele fazer suas necessidades aparecem estraçalhadas, o que me faz ralhar com ele. Ele murcha as orelhas e me olha com aqueles olhos de dissimulada tristeza.  Três dias passados, eu troquei a forração de sua casa. Desde então, eu tenho notado que ele tem dormido no capacho. Hoje percebi seu olhar triste, ora voltado para mim, ora voltado para sua casa. Resolvi verificar a casa, se havia algo de errado com ela. Não notei nada. Então Getulio deixou o capacho e entrou em sua casa, retirando ele mesmo a forração que eu fizera. Descobri desalentado comigo mesmo, que os olhares tristes de Getúlio era comigo (senti-me um obtuso), que não percebera seu protesto. Eu, parecia dizer-me Getulio, o afrontava forrando-lhe a casa com a última edição da Veja, esta que trás uma matéria com a esposa do figurante que se pretende, de maneira abjeta, o papel principal. Pedi desculpa a Getulio, que parece ter visão mais objetiva e posições mais radicais que eu.    

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