sexta-feira, fevereiro 26, 2021

O ORGULHOSO DELGADO E O PANGARÉ

Todos diziam que o Pégasus era na verdade um pangaré. Comprá-lo era mau negócio. “Gadin”, dizia a mulher de Desvaindo Delgado, “esse bicho num guenta puxar carroça não. O negócio dele é pastar à sombra, lá pelos laranjal.” Mas Desvaindo era encantado pelo bicho: “É nada, boba! É maledicência das pessoas.  Pégasus tem histórico militar, tem um bom coice, relincha forte, com sinceridade ”. “E agora você entende de relincho de cavalo, homem?” “Pégasus é um mito, mulher, um mito!” A contra gosto da esposa, Delgado apostou tudo no pangaré e o atrelou à carroça. “Gadin”, desespera a mulher, “esse bicho nos leva à ruína, coiçando assim, ele destrói a carroça. “Ele tá pegando jeito, mulher, ele tá pegando jeito. Pensa firme mulher, pensa firme!” De quando em quando, para agradar o pangaré, Delgado lhe descascava umas laranjas. “Ce viu, mulher? Ce viu, como Pégasus gosta de laranjas?” “E de sombra Gadin, e de sombra!” No boteco, o negócio de Delgado é comentário. “Do jeito que as coisas vão, o “mito” do Delgado o leva ao precipício”, diz um. “E quem o convence do contrário?”, questiona outro. “Gadin, é turrão, não quebra orgulho fácil!”, diz um terceiro. A risada corre solta. “Nóis sofre, mais  nóis ri!”, diz um escancarando a boca careca. Delgado já mandou informar lá no boteco: “Se falarem do meu Pégasus, eu meto processo, meto processo.”  

domingo, fevereiro 21, 2021

DEUS

 

Então veio um vento fortíssimo que separou os montes e esmigalhou as rochas diante do Senhor, mas o Senhor não estava no vento. Depois do vento houve um terremoto, mas o Senhor não estava no terremoto. Depois do terremoto houve um fogo, mas o Senhor não estava nele. 1 Reis 19:11,12

 

Deus, se existe,

E nisto eu creio,

Não está onde o procuras

O verbo encarnado

Não é nas alturas

Não se encontra,

Embora lá se O indica,

Nas escrituras

Não esperes Deus

No extraordinário

Deus é nos necessitados

Deus, se existe,

E nisto creio,

É num sorriso que ele

Nos vem.

Ele não é palavra morta

É um abraço que acolhe

Uma mão que se estende

Uma palavra que conforta

Não procures deus onde Ele não se encontra

Se tens amigos,

Independente de suas crenças,

Tens Deus contigo.

Há Deus onde há amor

Deus habita o perdão

Deus não mora no castigo.

quinta-feira, fevereiro 18, 2021

AO DEUS DOS IMPIEDOSOS E CRUÉIS

 

Iracundo e Impiedoso Deus

Deus da vingança e do ódio

Não és o Deus de minhas preces

És o Deus em que não acredito

O meu Deus é o Deus do incompreensível

Do perdão incondicionado

Da acolhida,

Da ternura

Da palavra viva

Que anima e vivifica

O Deus impotente

Porque Amor

Mas é a ti

Deus dos impiedosos

Dos cruéis

Dos sedentos de vingança

Dos que não aceitam a diversidade

E tripudiam da dor

Dos que sofrem

E reivindicam tua Ira

A ti eu peço,

Deus Iracundo

Deus perverso

Descarregai em mim

As dores e desgraças

Que os que te solicitam

E adoram

Tanto desejam ver cair

Sobre os pobres, os pretos

Os homens e mulheres que não se conformam

À sexualidade que lhes querem impor

À religião que não querem sua

Descarrega em mim

Tua ira,

Deus vingança

Eu que em ti não creio

Eu que te abomino

E nego

E que ao mundo

A tua imagem e semelhança,

Me alieno,

Eu vos peço

Poupai os frágeis, os fracos, os já humilhados

Explorados, expropriados

Poupai as crianças, os doentes, os idosos

Seja eu,

para tua ira e o desejo dos que de adoram

E invocam,

O viático de teu holocausto

Deus dos impiedosos

Em tua ira

Consuma a minha existência

Em um mundo regido por ti

Não ser é benção.

Amém.

 

 

 

 

quarta-feira, fevereiro 17, 2021

MEU VICIO

Abro a janela e anseio encontrar um teu vestígio entre as flores do jardim

Mas o que tem é ausência do pássaro que canta-me noticias de ti

É tudo cinza-silêncio-ansiedade

O café que saboreio, sem a tua prosa a acompanhá-lo, é amargo

E as paginas que folheio nada esclarecem: entediam-me

Horas e dias se arrastam e me afastam de um teu sorriso

De um fugaz instante contigo: eu preciso

Encontrar-te, mesmo que seja num email, é meu vicio...

segunda-feira, fevereiro 15, 2021

UM CONVITE À SABEDORIA

  

Viva com aqueles que possam te tornar melhor e que você possa torná-los melhor. É uma vantagem recíproca, porque os homens, enquanto ensinam, aprendem. (Sêneca)

A verdadeira sabedoria é estar certo de não saber e aberto a aprender. (Rodner Lúcio)

 

Anteriormente vimos que a Filosofia é uma palavra composta do termo amor e do termo sabedoria. Radicada no amor, a Filosofia convoca a pessoa humana a realizar-se conjugando o sair de si na coexistência com outros e outras e o recolher-se em si, numa perspectiva de transcender-se. Vimos que o amor, em sentido filosófico, exige determinadas atitudes: cuidado, respeito, responsabilidade e conhecimento. Cabe agora tratar então da sabedoria.

A esfera da sabedoria nos dirige à exploração dos valores que qualificam a existência humana. Inclinada à sabedoria, a pessoa visa a produzir conhecimentos, atitudes e ações que a aperfeiçoe e a vincule à comunidade humana numa coexistência pacifica e solidária.

No sair de si e perceber-se coexistindo, a pessoa toma consciência de suas limitações e imperfeições. Na covivência com outros, produzindo um mundo comum, manipulando a natureza e seus recursos, a pessoa desenvolve instrumentos e técnicas que potencializam suas capacidades e facilitam sua vida. Por meio desses instrumentos e técnicas a pessoa organiza a comunidade humana e produz conhecimentos que a aprimoram. No entanto, os instrumentos e técnicas que a pessoa e a comunidade humana criam para facilitar o co-viver e o auto-aperfeiçoar-se podem, também, segundo seu uso, voltarem-se contra ela e a comunidade humana, colocando-as em risco.

A sabedoria, sem impor-se à pessoa, procura ilumina-la, apontando tais riscos, questionando intenções e desejos que permeiam o fazer humano, reclamando uma prevalência a valores: respeito, responsabilidade, cuidado, voltados à plena humanização.

Se da plena Humanidade a pessoa se aproxima ou se afasta segundo os valores e meios de que faz uso, orienta-la, colocando questionamentos e convocando à reflexão, ao ponderar das ações é tarefa que a sabedoria se dá. Assim, sem ser impositiva, a sabedoria visa o mais alto fim da pessoa: o advento de sua humanidade plena.

Por isso, da sabedoria, faz-se companheira a esperança. Uma esperança que evoca uma pratica radicada em atitudes e compromissos que evoquem na pessoa a disposição para transformar a realidade exterior, aproximar as pessoas entre si, autodeterminar-se, em vista de sua realização mais plena e perfeita. O que a sabedoria espera não é louvação dos que dela se aproximam. Ela espera que o humano atinja sua plenitude de humanidade, sabendo fazer justo uso de meios e recursos à sua disposição. Então, é para o que é justo e digno de ser vivido que a sabedoria se acerca.

Enredada no binômio amor-sabedoria, a Filosofia assume um compromisso: manter vivo o convite às pessoas à convivência reflexiva e dialogada; à ação comprometida com o respeito, a responsabilidade e o cuidado com o mundo e as pessoas, comprometida com liberdade e a autonomia do pensar e a autodeterminação das pessoas.  

Nesta perspectiva, a Filosofia não impõem respostas, receitas ou vaticínios, cabe-lhe indagar as interpretações que se dão do mundo e do humano, e questionar os rumos que a humanidade se dá no afã de transcender-se...  

Se “sábio não é quem tem as respostas certas e sim quem tem as perguntas justas”, e se “a função do amor é levar o ser humano à perfeição”, a Filosofia, enquanto sede da sabedoria e morada do amor, colocando questionamentos ao ser humano, cuida para que a esperança da plena humanidade concretizando-se em cada ser humano não desfaleça...

NÃO PRETENDO ERRAR: CORRIJAM-ME, POR FAVOR!

 


Ser corrigidos é ter nossa autoimagem arranhada, é sentir-nos deslocados de nosso pedestal, de nossa orgulhosa autoestima. Quando somos corrigidos, nossa reação é de impaciência e contrariedade, parece que nos enfiam um espinho na carne. Mas ser corrigidos é necessário. Corrigir é ato de respeito, de interesse pelo outro, expressa carinho e cuidado. Quem nos corrige não nos quer mal, nos quer bem. Querer-nos mal é ser-nos indiferente e nos deixar atolar em nossos erros.  Então, embora, como primeira reação, eu suba nas tamancas e embirre, sou grato sempre a quem me corrige, mesmo nas pequenas coisas. Eu não sou adepto do “é errando que se aprende” ou “errar faz parte”. Não, tudo que faço, faço esperando estar certo. Há erros que não ensinam, apenas produzem sofrimento. Tentativa e erro não é comigo, porque há erros que não se corrigem. Perceber, por mim mesmo, meus erros, faz-me sentir solitário, uma indiferença no mundo. É chato ser corrigido, mas ser corrigido me diz que não estou só, que alguém se interessa por mim e pelo que eu faço.

sexta-feira, fevereiro 12, 2021

UM CONVITE AO AMOR

 

O amor não é, principalmente, uma relação para com uma pessoa específica; é uma atitude, uma orientação de caráter, que determina a relação de alguém com o mundo como um todo, e não para com um “objeto” de amor. (Erich Fromm, A Arte de Amar, 1966, p 56)

 

Em sua origem, a palavra filosofia (Φιλοσοφία) é composta de dois termos: Φιλο (philo), que significa Amor (ou amizade) e σοφία (sophia) que significa Sabedoria. De tal modo, à raiz da palavra filosofia encontramos o termo amor, que, em filosofia, não é entendido como um sentimento afetivo-emocional da experiência com um outro ou outra. Em Filosofia, o amor é uma atitude e assume um lugar central. Desta perspectiva, para se compreender o papel ou dimensão da filosofia, cabe explicitar o termo amor.

É preciso dizer que sem esta dimensão, o amor, no plano da existência humana nenhuma ação seria possível. O amor é, na pessoa humana, a solicitação à exteriorização de si e, ao mesmo tempo, ao recolhimento na própria intimidade.

A pessoa, para que se desenvolva e atinja o máximo de sua plenitude, precisa sair de si mesma, comunicando-se com o mundo, afrontando e acolhendo a presença dos outros e outras que compõem o mundo com ela. É na relação com outros e outras que a pessoa vai tomando significado pleno de si. Sem a presença do outro, as pessoas não chegariam a ser elas mesmas, é só na interelação que a pessoa tende a se autodeterminar. É inserido no mundo e em relação com outros e outras que a pessoa se concretiza. É neste sentido que o amor é solicitação à exteriorização, a sair de si.

No sair de si, no entanto, a pessoa arrisca a se dispersar e alienar-se e tornar-se coisa entre coisas. Por isso, o amor é também um apelo ao recolhimento e a intimidade. Este convite a estar consigo mesmo não é um convite à solidão ou ao isolamento, mas um convite a conhecer a si mesmo, colocar-se questões e procurar-se respostas que clareiem o que se deseja, para onde se quer ir ou o que se quer fazer da própria existência. O recolhimento é um processo de autodeterminação, desenvolvido aos poucos, contradizendo-se e auto-afirmando-se no ensejo de ter uma vida que faça sentido.

Esta polaridade dinâmica e continua que caracteriza o amor é carregada de intencionalidade, de vontade, de decisões cruciais. Então, enquanto atitude que orienta o caráter, o amor, explica Erich Fromm, exige cuidado, responsabilidade, respeito, conhecimento.  Quem ama cuida do que ama, quem ama respeita o que ama, quem ama responde pelo o que ama, quem ama procura conhecer a quem ou ao o que ama. Então, a Filosofia, a princípio é esta atitude de amor: amor pelo mundo e no mundo pelo ser humano. Daí que a Filosofia faz do mundo e da pessoa humana seu objeto de conhecimento. A Filosofia busca saber, para melhor cuidar, para melhor responder, para melhor respeitar, o mundo humano e o humano em seu mundo. Então, quando dizemos, seguindo sua etimologia, que a Filosofia é um amor à sabedoria, é dizer que cuidar, respeitar, tornar-se responsável, requer saber, um saber que não nos é dado, mas conquistado. Conquistar conhecimento para melhor cuidar e respeitar e ser responsável por quem ou o que amamos, é em que consiste a Filosofia.

Assim, toda a finalidade da filosofia é chamar a pessoa  para esta experiência de amor, enquanto experiência vital para suas realizações em vista do máximo de plenitude.

EM UM FUTURO NÃO MUITO DISTANTE, NOSSAS MÍNIMAS CONQUISTAS PARECERÃO USURPAÇÃO.


Trato do que, talvez, não entendo para, quem sabe, ser esclarecido. Desde que ouvi a expressão “lugar de fala” a entendi, e talvez eu esteja errado, como uma expressão enviesada, caricatural. Nunca, porém, procurei me desfazer de minha primeira impressão. Eu sempre achei que não é o lugar de fala que tem relevância, e sim o que se fala do lugar em que se está. Ao lado, então, da conquista ao direito de falar, faz-se necessário que a fala não deturpe todo o movimento de luta que a permitiu. O “lugar de fala”, penso eu, é um lugar representativo, nele não falo de mim de minhas veleidades, falo dos meus e pelos meus. Falo para somar, mesmo que distinguindo características próprias, e não para ensimesmar e colocar-se a parte. Bom tudo isso pode ser um equivoco meu, de minha preguiça em dedicar-me mais apropriadamente do tema. Mas digo estas coisas porque mesmo não acompanhando o BBB, acompanho o debate em torno dos personagens da casa. Pelas reações e manifestações que percebo de comentários e memes que circulam por aqui, o que está ocorrendo na “casa” é um processo de desqualificação e deslegitimação de nossas lutas (Negros, mulheres, LGBTs, ritos afro-amerindios, etc), usando-se para isto supostos representantes das pautas de lutas identitárias. O mesmo processo obteve sucesso em programas que deslegitimavam e ou negavam a política, resultando no congresso (é minúsculo mesmo) que temos e em Bolsonaro. Não, Bolsonaro, e o congresso que temos, não é só fruto do fracasso das esquerdas. É resultado de uma engenharia de desmonte de nossas mínimas conquistas. Enquanto nos deleitamos ou nos desesperamos ante as sandices do mandatário em posto, conquistas alcançadas a duras batalhas vão sendo liquidadas e garantias da proteção social desmanteladas.  Voltando aos personagens da casa, caricatos, eles não foram selecionados ao acaso. E digo isso sem os conhecer, e sem saber o que faziam fora da casa. Pelo que ouço e vejo aqui, parece-me, eles estão a desconstruir conquista basilares dos movimentos identitários.  Como fazem hoje, tentando responsabilizar as esquerdas pela eleição de Bolsonaro, como se Bolsonaro não fosse fruto de um projeto político, ali na frente, e não muito distante assim, os organizadores do “entretenimento” e os grupos que sustentam tal “entretenimento”, irão nos responsabilizar por nosso genocídio. Na casa, nosso lugar de fala vai se caracterizando como lugar de murmurações e não de fala-AÇÃO. Logo será lugar de negacionismos e nossas mínimas conquistas parecerão usurpação... Mas, eu posso estar errado.

segunda-feira, fevereiro 08, 2021

SOBRE UMA CONSTRUÇÃO EM RUÍNAS.

O engenheiro de uma dada construção combinou com os operários usarem material de qualidade duvidosa a fim de obterem alguma economia. Dizia o engenheiro que não havia riscos e, uma vez terminada a obra, todos seriam elevados ao panteão das honrarias. De fato, à medida que a obra se erguia, louvores se teciam ao engenheiro e aos operários.  Mas aqui e ali se ouvia que a obra não estava no prumo, que seus alicerces eram frágeis.  Mas engenheiro e operários rebatiam: “é despeito da concorrência!” Terminada a obra, ela encheu a visão dos incautos. Pareceu-lhes um esplendor.  O engenheiro, por seu esmero, foi alçado à secretária de obras. Mas não durou muito a ilusão do homem eficiente e probo. Começaram a surgir, aqui e acolá, rachaduras, vazamentos, esfacelamentos. A portentosa obra desabou. “Nossa obra é de uma importância sem tamanho”, tentou escusar-se engenheiro e operários; “ruiu, mas atingimos o propósito: nada está em pé!”. Mas um sábio lhes explica: “quem constrói palácios sobre a areia, acorda sob monturos.” Outro mais sacado foi ao ponto: “fins nobres não se alcançam com meios escusos.” Esta é a lição que tiramos da Lava-Jato.  

sábado, fevereiro 06, 2021

A criação segundo um mineiro

 Então Deus deu ao homem o poder de nomear todas as coisas. O homem então saiu a nomear as coisas, apontava-as e dizia: "Trem, trem, trem, trem..."

quarta-feira, fevereiro 03, 2021

Gosto de ser visitado por meu passado

Gosto de ser visitado por meu passado, de tê-lo ao meu lado no ônibus ou a caminhar comigo pelas ruas e praças.

Gosto de sua companhia enquanto espero numa longa e interminável fila, entre as páginas de uma vaga leitura, numa boa conversa ao fim da tarde, numa flor seca entre os papéis.

Gosto quando, de um sorriso, um brinquedo, um encontro, uma paisagem, ele me conduz por remotas veredas, emoções longínquas.

Basta um nada. Sento-me à sacada e ei-lo a visitar-me num aceno que passa e segue o seu caminho.  Banho os pés longo o mar, olha-o na próxima onda: vem brincar com o menino a construir castelos. Caminho pela praça, e ele me sorri no sorriso da menina, vestígio de um adolescente amor.

Geralmente, de tudo rimos, numa risada boba... Outras vezes, restamos circunspectos, remoendo pequenos remorsos. São dias cinzas e tristes: de amizades desfeitas, partidas inesperadas, amores mal resolvidos.

 Gosto quando ele se acompanha das avós, dos avôs, dos tios, dos primos, irmãos ou amigos. Gosto quando ele me traz os almoços, os batismos, os casamentos, velórios, aniversários, os beijos ansiados, os abraços dados, os sorrisos arrancados, as lágrimas engolidas, escondidas, partilhadas num puro contentamento. Com meu passado passo horas, não as perco.

 Repentino e espontâneo, é companheiro, é mestre, é conselheiro. Às vezes faz-se de juiz, então é um tormento. Nada me decide, porém. Aponta-me erros e acertos, sucessos e fracassos, alegrias e tristezas; ilumina-me e deixa-me a escolha, o salto decisivo.

Gosto de ser visitado por meu passado. Nas incertezas do que virá, ele me ensina a confiar.

 

terça-feira, fevereiro 02, 2021

NAMASTÊ

 


Olhos serrados

Mergulho-me nessa concretude

Sangue, ossos, vísceras

pele, pelos...

Acompanho o desacelerar

de seu pulsar

Respiro: inspirar

Respiro: Expirar

Recebo a carícia de um vento matinal

E a ternura solar

Apaziguo o pensamento

Enredo-me por mim

Guiado por um fio de memória

Aquieto todo querer, todo desejar

Silencio a palavra sem a sufocar

Saboreio-a

Equilibro-me em uma imagem de

delicadas flores azuis

E um pássaro

 que me contempla

Encharco-me de vozes ancestrais,

Do som primordial...

Só Por Hoje