A
poesia é um dom que não tenho. Na verdade, não tenho dons. Sou totalmente
despossuído. A realidade é a composição
de um conjunto de ilusões. E somos mais que a totalidade de nossas ilusões.
Homem algum pode dizer-se por si mesmo. O que de nós sabemos, de antemão, nos
foi dito. Eu sou é uma pretensão, uma arrogância. Em todo dizer o ser é o não
dito, o que escapa ao afirmado e ao negado. Antes de se formular uma hipótese e
passar a persegui-la, se conjectura... Somos conjecturais, um ser que é para o
outro, que em si não é totalmente. A totalidade nos escapa entre uma ilusão e
outra.
Eu
sempre acreditei que eu haveria de ser breve, não passaria dos trinta. Ensaiei
não chegar aos quarentas. Um salto mal dado custou-me fraturas da tíbia e do
fêmur, meses numa cadeira de rodas o andar apoiado por uma bengala. Uma dose
excessiva de remédios que resultou náuseas, vômitos, confusão mental e
preocupação nos familiares e amigos. Ensaios erráticos.
Não
escolhemos o dia de nossa partida. Se não for a hora, a corda entorno do
pescoço não sufoca, arrebenta, e do salto se arrebenta todo, mas o suspiro
permanece, dolorido, com sequelas, mas não expira. Cabe à morte decidir o
momento, a hora. É quando você menos espera, sem aviso. Tenho aguardo que ela
se me apresente. À janela vejo o sol nascer, acompanho o dia se por, me atarefo
em coisas sem a menor importância. Que importância há versos que amarfanho e
lanço ao lixo? Não há importância alguma. Nasci desimportante. Sou o Midas da
desimportância. Nem a morte se interessa por mim. Há dias que converso com a
faca, procuro provocá-la. A faca esboça um sorriso condescendente. E só!
Nasci
para ser breve, mas a brevidade é tão relativa quanto nossas certezas de nós
mesmos. Homens e mulheres mudam de um instante a outro, são seres instáveis,
perfectíveis, nunca os mesmos. A vida é
ilusão. É insano querer viver. Não há porque sentir-se em casa no mundo. O
mundo é lugar de passagem, não de permanência. O mundo é lugar de insatisfação.
Só
na morte reside o estar bem, ela nos livra de nossas ilusões. Ela é uma mudança
de perspectiva, uma passagem do conjunto de todas as nossas ilusões para a
certeza única. Mircea Eliade a define transcendência da condição humana;
retorno à fonte de vida universal.
Enquanto
não transcendemos, devemos arranja um motivo, um ideal, uma ilusão que nos
motive a permanecer. O noticiário me convida a novos ensaios. A faca faz-se de
sonsa.
Como
morrer, não podemos determinar quando e onde começamos a amar. Amar é um
acontecimento inesperado, imprevisível, simplesmente acontece. Hoje eu conheci
esta menina. Não pude não me apaixonar. Eu ia, ela vinha, ambos apressados, de
modo que, mal trocamos olhares. Seu sorriso discreto ascendeu-me desejos de
voar. Por um instante a existência, a minha existência lampejou um futuro
improvável. A poesia é um dom que não tenho. Há ilusões que precisam desta
língua. O que salva o amor é a poética. A estética perece, a poética
imortaliza. A menina seguiu seu caminho apressado. Eu a segui preenchido de um
desejo de não tempo, de firmamento. Ainda o seu perfume me inebria. A morte
deveria nos sobressaltar ao mesmo tempo que o amor, este amor ainda puro, sem
anseios de posse. Prendo-me a atividades banais de amarfanhar
versos e arremessá-los ao lixo. O inesperado apresentou-se a mim, escorro a
faca para a gaveta. Anseio ser duração...
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