Vô tinha um pangaré de nome Olávio. E vô e Olávio eram, como dizia vó: “corda e caçamba”. “se eu morrer, este peste não há de dar conta. Mas Olávio que morra, Olávio que morra...”, murmurava vó enciumada. Distração de vô era conversar com Olávio à sombra do umbuzeiro. Tardezinha, vô tornava da roça, desaparelhava Olávio, soltava-o no pasto. E depois de se banhar e tomar café com broa de fubá, às vezes bolinho de chuva, principalmente quando vinham os primos da cidade, vô pegava palha, fumo de rolo, o canivete a banqueta e se ajeitava debaixo do umbuzeiro para pitar e prosear. Bastava um dois assovios e Olávio se juntava a vô. E vô falava da lida do dia, da terra arada, da semeadura, da expectativa por chuva, de colheita boa, farta; vô falava das coisas que tio ouvia e trazia da cidade: “Essa gente, Olávio, que estuda muito, como Zito, pra saber das coisas, acaba é por não saber nada. Aprendem de tudo, de tudo sabem, mas o necessário: ser justo, manter compromisso, responder pelo que faz. Isso, Olávio, isso, essa gente não aprende não, Olávio!” E Olávio parecia compreender vô, e vô parecia entender Olávio: “Ocê tem razão, Olávio! Ocê tem razão!”, dizia vô aos relinchos do pangaré. Era uma diversão contemplar vô e Olávio à sombra do umbuzeiro. Um dia vô me segredou: “Fio, é tudo encenação, minha e de Olávio, pras pessoas num achar que sou louco, que não funciono das cacholas. Num é com Olávio que converso não, são com minhas ideias, minhas inquietações, uns compadres e umas comadres que me falam aqui dentro desse couro velho.” Um dia veio de eu perguntar a vô o porquê o nome Olávio para o pangaré. “seu tio Zito”, respondeu. Depois explicou: “Seu tio Zito tem umas ideias que ele trás da cidade que é de chocar até mesmo o Olávio. E quando eu comprei esse Olávio aí, seu tio tava com ideias que ele trazia da cidade de um tal de Olavo que explicava e sabia e tal. Num pensei duas vezes, batizei Olávio, Olávio”. E vô me dizia: “Sabe, fio, eu não sei muita coisa do mundo não, nunca saí deste nosso chão, sempre na lida, num tive tempo de aprender as letras, não. Sua tia até fez esforço pra me ensinar, mas fio, sou casco duro, só sei lidar com a terra e com os bichos.” Eu me divertia com vô e seu Olávio: “Olávio, cê num sabe da nova, Zito tá com ideia de que a terra é plana”... “Ocê tem razão, Ocê tem razão!” Uma vez eu peguei vó conversando sozinha na cozinha: “é cada uma que a gente fica sabendo, vou-te contar...” “Voinha, tá falando sozinha é?” “Não, fio, falo com a porta. Seu vô fala com o Olávio, eu falo com o Carvaio!” Vó tinha dado nome pra porta. Quando a gente relembra estas coisas, tia, de tudo, acha graça. “A vida no sitio tinha sua graça. Lá no sitio, seu avô conversava com o Olávio, sua avó com o Carvaio, e a dureza daquela lida se aliviava. Mas na cidade, a coisa é trágica: as pessoas se encantam com uma mistura de burro e porta e leva a sério tudo o que ele fala”. E tia cai na risada: “hora desta, eu compro um burro pra chamar de Capitão...”.
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