O
mal não é uma entidade ou um personagem. O mal é fruto das ações humanas.
Apresenta-se nos efeitos indesejados de uma escolha ou nos resultados de uma
escolha. O mal verdadeiro é o resultado de uma escolha: quando, de antemão,
sabemos que ao fim de uma ação alguém sairá prejudicado e este é o nosso
intento. Este tipo de mal se alimenta da inveja, do ciúme, da vontade egoística
de possuir tudo pra si, do ódio. Ele provoca divisões, desentendimentos,
separações, inimizades, sofrimento, doenças. Ele descaracteriza as pessoas, as
mutilam, as humilham, tira-lhes a dignidade humana. E, em sua realização mais
radical: a morte, apresenta-se soberbo. As
histórias infantis narram sempre as peripécias de um personagem perseguido por
um vilão, geralmente ambicioso, invejoso, orgulhoso, reclamando uma posição que
não é sua. O herói, enredado nas tramas e tramoias e trapaças do vilão, perde a
confiança dos amigos, perde o direito à pátria, o direito a caminhar
livremente, a viver plenamente: sem enfeitiçados, envenenados, mortos. Ao fim
das narrativas, os vilões sempre vencem. Não, a história não termina com a
vitória do vilão que reduz o herói a um algo inerte, adormecido e, por vezes
morto. Sempre aparece um príncipe – que tem sua raiz em principium, fundamento,
o que sustenta o inicio ou o iniciar de uma ação – que sela o personagem com um
beijo e resgata-lhe o direito de ser, de ocupar o seu lugar, de viver. O beijo
é o ultimo recurso humano contra as ações maléficas de homens e mulheres
investidos de excessos, cegados pela inveja, a cobiça o ódio. O beijo rompe a cadeia de
eventos que aprisiona o herói no feitiço, no veneno, na morte. O beijo inaugura a possibilidade do
novo, o milagre do inesperado, quando tudo parece ser desespero. Nas histórias
infantis o beijo encerra a história, ele não é apresentado como uma conquista,
ou o ato de uma sedução, mas como uma doação. O beijo vence as ações
más, porque, também ação humana, o beijo, nas histórias infantis é princípio
vital, é força restauradora, é milagre que nos convida a uma nova história. Vivemos
sob o signo do ódio, e os que odeiam, odeiam a manifestação da vida, a
potencialidade do encontro, a emergência do novo. Os que odeiam se apegam ao
gasto, ao carcomido, ao esgotado, ao pútrido de nossa história. O que eles
chamam tradicional é o embotado, o corrompido, o que nega o tempo novo. Por
isso vetam o beijo homoafetivo. Beijar é vida, e os que odeiam, odeiam a vida,
mesmo que digam seguir um Deus que beijou-nos com um hálito de vida...
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