quarta-feira, setembro 11, 2019

SOBRE O BEIJO


O mal não é uma entidade ou um personagem. O mal é fruto das ações humanas. Apresenta-se nos efeitos indesejados de uma escolha ou nos resultados de uma escolha. O mal verdadeiro é o resultado de uma escolha: quando, de antemão, sabemos que ao fim de uma ação alguém sairá prejudicado e este é o nosso intento. Este tipo de mal se alimenta da inveja, do ciúme, da vontade egoística de possuir tudo pra si, do ódio. Ele provoca divisões, desentendimentos, separações, inimizades, sofrimento, doenças. Ele descaracteriza as pessoas, as mutilam, as humilham, tira-lhes a dignidade humana. E, em sua realização mais radical: a morte, apresenta-se soberbo.  As histórias infantis narram sempre as peripécias de um personagem perseguido por um vilão, geralmente ambicioso, invejoso, orgulhoso, reclamando uma posição que não é sua. O herói, enredado nas tramas e tramoias e trapaças do vilão, perde a confiança dos amigos, perde o direito à pátria, o direito a caminhar livremente, a viver plenamente: sem enfeitiçados, envenenados, mortos. Ao fim das narrativas, os vilões sempre vencem. Não, a história não termina com a vitória do vilão que reduz o herói a um algo inerte, adormecido e, por vezes morto. Sempre aparece um príncipe – que tem sua raiz em principium, fundamento, o que sustenta o inicio ou o iniciar de uma ação – que sela o personagem com um beijo e resgata-lhe o direito de ser, de ocupar o seu lugar, de viver. O beijo é o ultimo recurso humano contra as ações maléficas de homens e mulheres investidos de excessos, cegados pela inveja, a cobiça o ódio. O beijo rompe a cadeia de eventos que aprisiona o herói no feitiço, no veneno, na morte. O beijo inaugura a possibilidade do novo, o milagre do inesperado, quando tudo parece ser desespero. Nas histórias infantis o beijo encerra a história, ele não é apresentado como uma conquista, ou o ato de uma sedução, mas como uma doação. O beijo vence as ações más, porque, também ação humana, o beijo, nas histórias infantis é princípio vital, é força restauradora, é milagre que nos convida a uma nova história. Vivemos sob o signo do ódio, e os que odeiam, odeiam a manifestação da vida, a potencialidade do encontro, a emergência do novo. Os que odeiam se apegam ao gasto, ao carcomido, ao esgotado, ao pútrido de nossa história. O que eles chamam tradicional é o embotado, o corrompido, o que nega o tempo novo. Por isso vetam o beijo homoafetivo. Beijar é vida, e os que odeiam, odeiam a vida, mesmo que digam seguir um Deus que beijou-nos com um hálito de vida...

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