terça-feira, outubro 12, 2021

AOS PÉ DE MARIA

 

Era um doze de outubro, mãe, desesperada, se apegava à Nossa Senhora. O Bernardo pelava em febre. Pai fizera o turno da noite, já era para estar chegando. Mãe rezava e arrumava as coisas de Bernardo numa bolsa: documentos, fraldas, mamadeira. “Aguenta Bernardo, assim que seu pai entrar por aquele portão, eu corro contigo!” Mas pai não entrava pelo portão. “Rodrigo, presta a atenção”, disse-me mãe apressada, angustiada, “não dá mais para esperar teu pai chegar. Fica quetinho, não mexe em nada. Vou levar o Bernardo no médico. Vou passar na Quitéria, para ela vir te olhar. Só abre a porta para a Quitéria, entendeu? Fica deitadinho no teu canto. Só abre a porta para a Quitéria.” E mãe ganhou mundo com Bernardo nos braços. Não demorou, Quitéria apareceu.  Preparou-me café, me deixou assistir televisão. Pai só apareceu por volta das dez, já bêbado. Como chegou deitou, dormiu, sem dar atenção a que Quitéria lhe informava de mãe e Bernardo. No hospital não havia pediatra, o plantonista não fora, mãe precisava aguardar. E, aguardando mãe se apegava a Nossa Senhora.  Tardezinha, vieram avisar: “Bernardo partira, a mãe, a sedaram. Era preciso providenciar os documentos para o enterro!” Todos os anos mãe visita a Basílica, um dia lhe perguntei como conseguia manter a fé: “dando a Deus o que é de Deus, ao homem o que é do homem”. E me explicou: “Nós nascemos e nós morremos, não sabemos como, não sabemos quando. Mas, não ter hospitais, não ter médicos, perder nossos filhos não é problema de fé, é de política. No morrer não há querência de Deus, não se morre porque Deus quer, se morre porque é dos homens morrerem. É o morrer desassistido, quando não falta conhecimento e instrumentos que é um problema. Mas este não é um problema de Deus, é político. Na fé encontro razões para crer que meu filho é e eu serei, um dia novamente com ele.” Quando me tornei professor, minha mãe orgulhou-se: “não ensine teus alunos a duvidar de Deus, os ensinem a acreditar que podem, com conhecimento e com os instrumentos de sua criação, produzirem um mundo justo em que as pessoas vivam dignamente.” De mãe, de sua fortaleza, ainda aprendi: “Tem mais valor aos olhos de Deus quem nele não crê e produz justiça, que um devoto fervoroso, mas incapaz de caridade.” Mãe é hoje com Bernardo. Pai e eu mantemos o hábito de vir à Basílica. E aos teus pés , Maria, agradeço o que com ela vivi e aprendi: “Deus faz nascer o sol sobre justos e injustos, porque quem decide ser um ou outro é cada homem, é cada mulher.”

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