No
escritório o chamavam Parafuso Solto, porque não se envolvia nas conversas, que
giravam sempre entorno de uma ou outra pessoa. Parafuso Solto era alheio à vida
alheia. Estava sempre acompanhado de um livro, e falava de coisas elevadas,
para um ajudante de limpeza. Parafuso Solto conseguia associar textos do Borges
à teologia de Giordano Bruno, associava nossa época a contos de Kafka. Mas as
pessoas preocupadas com o carro novo da menina da copa, ou a nova amante de um certo
gerente, o achavam incompreensivo, fora dos eixos. Na quebrada o chamavam
Latinha, porque nos fins de semana, para aumentar a renda, vendia cerveja, água,
refrigerante no farol. Soubemos chamar
Joziel Pereira Pinto na ocasião de seu passamento. E a anedota que contamos se
deu de seu passamento. Diz que Parafuso Solto foi pro céu e entabulava
conversas com Agostinho, Tomás de Aquino o próprio Giordano Bruno. Veio-lhe de
pedir permissão a Pedro de comerciar cerveja entre os respeitados moradores da
morada celestial. Permissão concedida, Parafuso Solto logo fez fortuna.
Veio-lhe de pedir autorização ao bom Pedro, que tinha participação nos lucros,
de expandir os negócios até o inferno. Permissão concedida, Parafuso Solto
aventurou-se no inferno. Passado alguns meses, Pedro quis saber como andavam os
negócios: “Vai mal, caro sócio! Vai de mal a pior!” “Mas o que acontece?”,
indagou o sindico da celestial morada. “As vendas, meu caro sócio, as vendas no
inferno são um fracasso! Lá não se vende uma só latinha de cerveja.” “E como é
isso?” indagou o bom Pedro. “É que no inferno, santo homem, está cheio de
crentes!”, respondeu desanimado Parafuso Solto.
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