sexta-feira, abril 30, 2021

 

TAL EVA

Todas as manhãs o sol passeia seus raios sob as copas das mangueiras, abacateiros, jabuticabeiras. As roseiras ao seu toque se desabrocham, e as hortências vivificam suas cores. Pássaros saltitantes gorjeiam e arrulham, celebrando-o. Borboletas, abelhas, marimbondos disputam as delicadas melissas. O gato e os cães se espicham pelo quintal, banhando-se em sua luz. Mas não duvido! O sol não desperta por outro motivo: é a ti que ele busca. E não te fazes resistente. Todas as manhãs o mesmo espetáculo se repete. O sol, maroto, passeia o sitio para te encontrar, assim Eva, prazerosa, estendida à beira do lago. E toda oferecida, dele te deleitas e provocas ciúmes. Outro dia, caiu sob ti um abacate, doutra vez, uma rosa espetou-te o dedo, recordas-te a arranhada que o gato te deu? Não, eu não ciumo o sol. Se durante o dia ele te aquece, à noite em teu calor eu adormeço. Todas as manhãs, então, eu agradeço o beijo de teus lábios que me desperta, e ao sol que a tudo vivifica, também sou grato. Sem ele o espetáculo que se repete todo dia não havia de ter sentido. E nada significaria o aquecer-me em teu corpo ao fim do dia. O amor não se estanca de repetir-se noite e dia.

 

 

terça-feira, abril 20, 2021

TEUS OLHOS ASSIM

 

Teus olhos assim

Mirados no distante

Correndo infantis

Entre sonhos

Teus olhos assim

Vivazes e

Brilhantes

Teus olhos assim

Lançados em mim

E eu neles me

Perdendo

Entre sonhos

Teus olhos assim

Meu encanto.

VELA EM PROCISSÃO

 


“Nós não somos flagelados que vieram buscar refúgio em algum lugar na América do sul. Nós somos povos originários, precisamos ser tratados com este respeito" (Ailton Krenak)

Segundo o Ailton Krenak, os totalitarismos não suportam muitos, não suportam muitos gêneros, muitas espécies, muitas classes, múltiplas culturas. Para os totalitaristas, segundo o Krenak, há uma só espécie: a humana, e um só mundo e um só sistema mundo: o Capitalismo. E o Capitalismo parece mágico: ele faz aparecer a água na torneira, o leite na caixa, o produto na gôndola, destituído das vidas implicadas em sua produção. Os totalitarismos não suportam a ideia de múltiplos sistemas e de pluralidade. Na concepção mágica do subalterno do capitalismo há a crença de que o capitalismo após consumir o mundo é capaz de produzir outro mundo e desenvolve, então, uma Antologia Fast Food: “Come o mundo, come o mundo, come o mundo, come o mundo”, é uma obsessão em que o lucro é o único interesse. As vidas, as vivencias ou são mercadorias ou são combustíveis da engrenagem de comer mundo. Neste clima, a única coisa que nos resta parece ser o de detonar o outro. Mas Krenak é um tipo otimista. Ele acredita que é possível recuperar o espaço do comum, sustentar a pluralidade de vidas e vivências, na coexistência de cosmovisões que tratam a terra e suas espécies, como Mãe e como irmandades (nós somos irmanados aos outros seres e elementos da natureza) e não latifúndio, produtos, mercadorias. Um mundo habitável, um mundo comum, um mundo que não seja produto a ser consumido, mas co-vivenciado, passa por respeitar os povos originários. Ailton Krenak é dessas chamas de vela em procissão: trepidante mas sustentada por mãos confiantes de uma fé no misterioso sagrado, que permeia a natureza e o humano, e nos conduz a uma dança cósmica futura. Está ultima parte, quem sabe, seja apenas uma minha interpretação.

segunda-feira, abril 19, 2021

UM CIDADÃO DE BEM

 

Um cidadão de bem, no afã de justificar a política de armamento do genocida, tomou um fragmento do livro do êxodo (22, 1). Mas esse fragmento isolado não oferece justificativa suficiente para um se armar, pois logo na sequencia o texto lembra que “se o sol brilha sobre ele (o ladrão), haverá vingança de sangue por causa dele.” O texto é claro: ‘o ladrão deve pagar indenização’: se não possui nada, ele mesmo será vendido em pagamento do seu roubo. (Êxodo 22, 2). Fica patente que a morte do ladrão não é desejável, pois, além de não poder indenizar a vítima, sua morte abre a possibilidade de vingança, ou seja, mais violência. Ao amigo cidadão de bem, sugiro o capítulo 5 de Mateus, em que Cristo reformula o livro do Êxodo e ensina: “ouvistes que foi dito: Olho por olho e dente por dente. Porém, vos digo: Não resistais ao mau. Pelo contrário, se alguém te esbofeteia na face direita, vira-lhe também a outra... Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem... (Mateus: 5, 39; 44). Mas, se ao ensinamento de Cristo, ele  preferir continuar encerrado no Antigo Testamento, antes de comprar uma arma, espero que ele considere viver de acordo com os preceitos do capítulo 23 do livro de Êxodo: “Não espalharás boatos sem fundamento (fake news). Não tomes o partido de um culpado, dando um testemunho falso. Não seguirás uma maioria que quer o mal, e não intervirás num processo inclinando-te em favor de uma maioria parcial. Não favorecerás com parcialidade um fraco no seu processo. Quando deres com o boi do teu inimigo ou o seu jumento perdidos, tu os reconduzirá a ele (minha avó dizia que qualquer coisa que a gente acha e não procura devolver ao dono , fosse uma moeda de cinco centavos, é roubo, e ela não leu Êxodo), ao vires caído, sob o peso da caga, o jumento de quem te odeia, longe de abandoná-lo, tu o ajudarás a ajeitar a carga ( o respeito aos animais já está presente aqui). Não falsificarás o direito do teu pobre no seu processo. Manterás distancia de uma causa mentirosa. Não mates um inocente nem um justo, pois eu não justifico um culpado. Não aceitarás propinas, pois a propina cega as pessoas lúcidas e compromete a causa dos justos. (Êxodo: 23, 1ss).  

domingo, abril 18, 2021

DEUS OMNIA VIDET

 

Meu compadre Marco Maida, em conversa com o escritor Ademiro Alves de Sousa (Sacolinha), contou-nos uma sua experiência num seminário premonstratense. Ele fora a este seminário para um retiro, e, diz o compadre, ao ir banheiro, sentiu-se incomodado com a figura do olho de Deus gravado na porta do banheiro. Junto à figura se lia: “Deus omnia videt”, Deus tudo vê. O incomodo do compadre foi tanto, que ele se resolveu entre moitas. Lembrei-me de que minha avó, quando fazíamos arte e tentávamos evitar a reprimenda, inventando histórias, nos alertava: “Ói menino, cê num mente pr’eu não, cê num mente não, que Deus tá vendo, Deus castiga!”. Não à toa meu compadre sentiu-se incomodado com os olhares de Deus no banheiro. Tal serve para ilustrar-nos que, não obstante professarmos que Deus é amor, e que ele está sempre disposto a perdoar (77 x7 vezes, como ensinou o Cristo), nós herdamos uma concepção assustadora de Deus. O Deus do Cristo, que acolhe, que perdoa, que cura, que doa-se, que, em resumo, ama incondicionadamente,  tornou-se um Deus impiedoso, ávido por nos impor castigos. Assim, o Deus que tudo vê é um Deus sempre a espreita para pegar-nos em erro. Na verdade, este Deus, embora tudo possa ver, só tem olhos para o pecado e é um Deus que goza de nossos receios, de nossos temores. O Deus que tudo vê, como o herdamos, é um Deus sádico. Mas “se pudéssemos surpreender Deus em seu voyerismo, observaríamos sua face ruborizada de criança curiosa, pega à fresta da porta.” Quem disse-me isto foi um monge camaldolense. “Deus não nos observa no afã de nos castigar. Deus contempla a criação e certifica que tudo é bom. Na narrativa da criação, o autor de Gênesis afirma cinco ou seis vezes que Deus vê o que faz e certifica que é bom. E que ao homem e a mulher, Ele abençoa. É este o nosso Deus, nosso Deus é um Deus que tem olhos para o que é bom, não é um Deus que castiga; é um Deus que abençoa.” À clássica figura do triângulo com um olho ao centro, o monge me apresentou um olho infantil incrustado numa fresta. “O olhar de Deus é o olhar de uma criança curiosa do outro e que se encanta com o que há de mistério e beleza no outro. Deus não está atrás de nossos pecados. Ele está sempre atrás de motivos para nos continuar abençoando. Nosso Deus, não é o Deus do castigo, é o Deus da benção!” O Sacolinha perguntou a meu compadre se ele era ateu. Meu compadre guardou silêncio. Deus ri-se. O silêncio de meu compadre é muito bom!