O dano não tem reparo. A ofensa não se apaga. A ferida não se fecha sem deixar cicatriz. O arrependimento não restitui o dano, não repara a ofensa, não alivia a dor do ferimento. O perdão não apaga tudo, não esquece; não é um desmemorizador. O perdão é uma aposta incerta de que, apesar do dano, apesar da ofensa, apesar da ferida, a relação pode ser restituída, e um novo começo possa se instaurar. O perdão se dá: é doação. De modo que: só o amor, ou quem muito ama, tem o poder de perdoar. Embora seja uma doação, o perdão não se oferece. Ele precisa ser requisitado. Aqui novamente entra a dimensão do amor. Só quem muito ama é capaz de se penitenciar e pedir perdão. O dano, a ofensa, a ferida que se abre, rompe o amor. E é o amor rompido que se restabelece no perdão. E o amor é oferecimento e procura. Por isso o perdão só pode ser oferecido a quem o procura. E, por isso o perdão exige contrição e sacrifício. À gratuidade no perdão espera-se o compromisso do perdoado, simplificado no ato de penitência. Entre aquele que perdoa e o que é perdoado não se opera uma amnésia, se opera um sacrifício, uma penitência, um ato de amor: um milagre. O perdoar humano tem a grandeza do ato divino da criação, o perdão inaugura um novo começo, uma nova aposta no amor que sustenta a razão de viver. Onde não há amor, não há perdão, não há vida: há apenas amargura, sofrimento, dissolução. O amor não repara danos, o amor não alivia dor, o amor não desfaz ofensas. O amor produz vida. Mas, só quem ama perdoa; só quem ama pede perdão. Só o amor produz vida. Perdoar é abrir-se a incerteza de uma vida nova.
quinta-feira, outubro 31, 2019
segunda-feira, outubro 28, 2019
DA AMIZADE
"Se queres ser rica, frequente ambientes onde os ricos circulam, entre franciscanos serás franciscana" Padre Leontino
Ontem, estive conversando com uma amiga de longa data. Dizia a ela que
não entrei na vida por ato de vontade, mas, por ato de vontade, penso, hora
dessas, dela me retirar... Mas a conversa descambou à amizade. Então disse à
minha amiga que as pessoas com quem tenho me relacionado desde o fatídico dia
de minha entrada na vida, nos mais variados graus de intimidade e cumplicidades,
eu, como entrar na vida, não as escolhi: as encontrei. Nossos relacionamentos
se dão devido a causalidade dos encontros a que estamos sujeitos. Estando na
vida, estamos fadados a nos afeiçoar ou não às pessoas que circulam entre nós.
E afeiçoar-se a alguém não é uma escolha, é um acontecimento. À medida do
tempo, as escolhas que tenho feito é a dos ambientes que frequento. Escolhendo
tais e tais ambientes, tenho, aproximativamente, tipos de personalidades que
posso encontrar. As pessoas com quem nos relacionamos e pelas quais vamos ou
não nos afeiçoando circulam, onde circulamos. Isto não é uma ciência, mas,
refazendo um antigo adágio: “digas-me onde andas, direi a ti com quem andas”.
Entrei na vida sem querer, entre pessoas que não escolhi. Há algumas me
afeiçoei mais, a outras menos, a outras nem um pouco, mas foi preciso que eu e
elas estivéssemos no mesmo espaço. Da vida, querendo, eu posso sair. Das
amizades não consigo me desfazer, na verdade os amigos não me abandonam, é isto
que atenua o meu desejo de não ser... Minha avó era uma mulher muito sacada,
médicos nunca deram respostas a meus desatinos, foi ela que me orientou:
"Fio, procure pessoas com gana de vida", eu não sabia o que era gana
de vida. A encontro nos amigos que tenho feito... Estou vivo!!!!
JOÃO PESCADOR
Foi
assim: João todos os dias ia ao mercado pedir peixes. Tinha sempre alguém que
lhe dava uma ou outra sardinha. Um dia alguém reclamou: "que este malandro
aprenda a pescar o próprio peixe!" João retrucou, "o senhor ensina-me
a pescar?" "Não tenho tempo, não tenho condições, não posso",
respondeu o reclamante. O fato é que João, ao invés de ir ao mercado pedir
peixe, passou a pedir: "alguém me ensina a pescar?" Certo dia
encontrou um velho pescador que se dispôs a ensiná-lo. Precisava, porém de um
barco, das varas, do anzol e, principalmente permissão da empresa que
administrava o pesqueiro. Foi uma luta,
vai num vereador e nada, vai em outro e nada também, procura-se o sindicato
e nada. Com sacrifício, João conseguiu o que precisava para pescar. Aprendeu
logo, pois o quanto antes aprendesse, antes dependeria menos da solidariedade
das pessoas, seria auto-suficiente. Uma vez que João aprendeu a pescar,
aprendeu também que tinha que pagar para usar o lago, que não podia ficar com o
peixe. Teria que compra-lo no mercado. Uma coisa João aprendeu: "abaixe o
liberalismo!", anda gritando pelo mercado. João não pede mais peixe, João
agora grita: "Abaixe a liberdade econômica que nos escraviza ao mercado e
nos mata a todos de fome!"
sábado, outubro 26, 2019
DAS KAPITAL
“Marx
escreveu, no “Das Kapital” se nós não destruirmos a família, nós não
conseguiremos mudar a sociedade. Tem que quebrar as referências de família...Isso
tá escrito, documentado”
Tiozinho do Guarda Chuva.
Se
nós brasileiros fossemos sujeitos bem formados, com gosto pela boa leitura e
pelo estudo, algo que não precisa ser sistemático, nem rigoroso como se espera
dos especialistas, mas razoável, que esclarece-nos e torna-nos as coisas mais compreensíveis...
Bom, se nós brasileiros fossemos ao menos razoáveis de entendimento, nós riríamos
da gravidade de certas falas de certos boçais em casaca de ministro disto ou
daquilo, principalmente da Educação. Então quando o sujeito, empolado em títulos
que inventou para sentir-se alguém abrisse a boca para falar de Marx, marxismo,
comunismo e coisas do gênero, riríamos e lhe daríamos as costas. Um pouco de
conhecimento nos informa que Marx, marxismos, comunismos e coisas e tais
mudaram de lugar e pulsam no coração das antiguidades clássicas, aquelas coisas
que visitamos por erudição. Tornaram-se saberes desencantado no reino do
consumo de mercadorias e espetáculos. (Estamos esperando o próximo mega show
para ouvirmos gritos de “Ei, Bolsonaro! Vai tomar no cú!”). Marx, marxismo,
comunismo, fica bem num churrasco ou enquanto se espera o lanche no Mc Donald.
Durante o passeio à feira dominical, em que comemos pastel, ou numa fila para
assistir o último lançamento da Marvel num cinema no Shopping. Uma pessoa com
um conhecimento que não seja apenas para compreender informações de como ir e
vir e receber comandos diretos, saberia que Marx e temas correlatos se trata
sem muita gravidade. Com um pouco de estudo deixaríamos o tiozinho falando
sozinho... O fato, porém de Marx, o marxismo, o comunismo e coisas tais estarem
englobadas pelo mercado não anula a sensibilidade e a percepção de nossa
realidade: as divisões sociais se acentuaram, a renda concentra-se cada vez
mais com cada vez menos pessoas, bolsões de miséria voltam a nos rondar e
estamos no ponto de esgarçar o tecido social. A única coisa que não podemos
intuir, numa caminhada pela Nove de Julho, é o que virá com o rompimento, se
este vier: não será o comunismo ou o socialismo. Um pouco de inteligência nos
informa isto. Ademais, há tiozinhos que nasceram para o
ridículo, mesmo em casaca de ministro.
quinta-feira, outubro 24, 2019
DE CASULOS SAEM COLIBRIS
“De
casulo sai Jacaré. E de ovo de Jacaré, pode sair girafa?”
A
epigrafe é uma rememoração de um evento longínquo, que sempre esteve entre minhas
vontades de resposta.
I
As relações pedagógicas não se dão entre
sujeitos simples, as relações pedagógicas se dão entre sujeitos plurais-complexos.
O professor é um sujeito complexo, enredado numa teia de relações e situações
com as quais se envolve e se embate. Uma delas, o seu ser professor numa
sociedade de consumo e do espetáculo. O aluno é um sujeito complexo enredado
num universo de valores familiares, comunitários com os quais vai construindo
sua identidade...
II
Envolvendo-se com as ciências nos vamos dando
conta que há três expectativas para a educação. Duas delas deterministas e
pessimistas. A outra, desafiadora e incerta. As pessimistas se dividem entre
aquelas que culpam ou o professor, ou o aluno, ou a escola, pelo fracasso
educacional. “com este professor, com este aluno, com esta escola, não há
redenção, estamos condenados ao fracasso.” Na mesma perspectiva, algumas linhas
pedagógicas falam da família, da sociedade, do Estado... A terceira coloca professores,
escola (enquanto coletivo, e não unidade), alunos nas interdependências da
Educação mesma.
Nesta perspectiva, o centro da Educação não é
o aluno, não é o professor, não é a escola. O centro da Educação e a Educação
mesma. Professores, alunos, escolas, estão relacionados e circunstanciados, mas
não determinados (para lembrar Paulo Freire).
Não são as relações, nem as circunstâncias
que mudam, ou determinam seus destinos. São os sujeitos (professores e alunos)
que trazem em si as potencialidades, as capacidades de se autodeterminarem. Professores
e alunos são seres abertos que se encontram na mesma realidade: a Educação.
III
A abertura que caracteriza os sujeitos na
Educação é o inacabamento, o ser-sendo, a natalidade: capacidade de começar
algo que rompe com o fatídico, o determinado (Hannah Arendt).
Uma Educação centrada na Educação é
promessa-incerta, é esperança que pode espantar (no sentido de nos
surpreender), é milagre: o inesperado no vaticinado.
IV
Eu confesso, tive muitos alunos que julguei
pelo casulo: não chegariam a borboleta, ficariam no meio do caminho. Hoje, os
vejo trilhando os céus como colibris, em busca da flor mais desafiadora: o
saber.
A educação centrada na Educação acredita nos
sujeitos e conduz os sujeitos a acreditarem em si mesmos. Assim, de um casulo
pode sair um mundo e não apenas borboletas. O milagre produz girafas em ovos de
jacaré. Nesta perspectiva, a Educação não garante operários, médicos,
advogados, sacerdotes, políticos; garante sujeitos autônomos, livres, autodeterminando-se.
A
Educação é um processo que aguarda o inesperado, o inédito-viável, o novo que
se dá no ato e na palavra. Palavra que se diz ao dizer o mundo.
V
Eu nunca estive à altura de professorar numa
Educação centrada na Educação.
Assinar:
Postagens (Atom)