De coração GÉLIDO
e comportamento NOCIVO
a CIMÉRIA personalidade
DANA-NOS sob aplausos
De coração GÉLIDO
e comportamento NOCIVO
a CIMÉRIA personalidade
DANA-NOS sob aplausos
Já
Aristóteles dizia que o ser humano é o único entre os animais que tem o dom da
fala. É de Aristóteles também a compreensão de que “todos os homens têm, por
natureza, desejo de conhecer”. Assim, a pessoa humana não é apenas um ser
falante, é um ser de conhecimento, um ser que busca conhecer. É conhecendo que homens e mulheres encontram
possibilidades de humanidade. “Quando não contente em ser apenas um animal que
fala, a pessoa procura tornar-se um animal que sabe, ela avança em humanidade.”
(Zózimo de Ítaca). Ao procurar conhecer,
homens e mulheres, nesta procura, encontram as trilhas do humanizar-se. Sua liberdade
consiste em adentrar ou não por essas trilhas. A autonomia é uma aventura àqueles
que não querem apenas falar, a autonomia é uma aventura àqueles que, a falar,
preferem saber. Sem conhecimentos a fala descamba em vociferações, impropérios,
xingamentos. “Quem procura saber pouco fala, quem só procura falar, fala muito e
nada diz” (Rodner Lúcio). E estamos nestes tempos em que todos querem ter lugar
de fala, sem ter conhecimento. “Ousa saber”, dizia Kant àqueles que desejavam
se desprender das amarras de doutrinas e conhecimentos que apequenam nossa
humanidade. Ousar saber é falar menos.
Estávamos reunidos em um jardim, não era longe de casa. De repente cercou-nos a polícia, um que andava com a gente, uns canalhas. Queriam nosso irmão e mestre. Um ou outro de nós esboçou resistir, mas ele se ofereceu à prisão. Uma barreira de policiais de formou entre nós e ele. O vimos, então, sumir arrastado sob regozijo dos canalhas que davam suporte à policia. Sobre nós abateu o desespero, o medo, o acorvardamento. Durante dias ficamos sem nos reunir, evitando tocar o nome de nosso companheiro. Por familiares, a mãe principalmente, ficamos sabendo que ele foi torturado e cruelmente assassinado. Seu corpo ficou irreconhecível... O medo de sermos também nós presos levou-nos a nos esconder. Aos poucos, e ainda receosos, fomos nos reorganizando. E mesmo abatidos com a morte de nosso irmão, já não deixávamos de falar dele. E então fomos lembrando seus atos e palavras. Um lembrava de como ele acolhia as pessoas, outro lembrava de como ele o convidou para o grupo, outro lembrava de sua dedicação aos doentes, aos órfãos, as viúvas. Outros lembravam suas falas sobre uma outra realidade possível, que ele chamava Reino. Os doentes seriam tratados, os camponeses teriam terra, o pobre seria assistido, não haveria injustiças. Suas convicções enchiam-nos de esperança. Aos poucos, de relato em relato íamos compreendendo o que ele nos dizia, sua morte já não nos abatia, já não tínhamos medo, e quando demos conta, falávamos dele em pleno dia. E fomos além. Tomados de coragem começamos a agir como ele agia, visitávamos os doentes, alimentávamos os famintos, socorríamos os perseguidos, acolhíamos o estrangeiro, partilhávamos o pão e o vinho. Em nossos atos, em nossas palavras, sentíamos sua presença. Foi quando compreendemos algo que ele nos dissera: “toda vez que fizestes isto aos pequeninos, aos aflitos, aos excluídos deste mundo, a mim o fazeis e eu, entre vocês, estarei”. Naquela tarde, um dos nossos, vencendo certa resistência, acolheu um cheio de feridas, tratando-o como fosse o corpo torturado de nosso companheiro. “De fato, vive!”, disse-nos. Mas foi quando dividimos o pão e o vinho, e ninguém, por ser isto ou aquilo, por fazer esta ou aquela escolha, deixou de comer ou beber, naquela tarde, nós o vivemos. Do colo da mãe, uma criança anunciou: “O Cristo Ressuscitou! Aleluia! O Cristo vive! É em nós, em nossos gestos e palavras!”Foi então que entendemos: “Somos nós que damos vida ao Cristo e atuamos o seu Reino.”
“Se
você está pensando em deixar-me por favor eu quero lhe pedir: Deixe-me outro
dia sim, porém hoje não.” Agnaldo Timóteo
Nas
festas , Timóteo era presença certa. Tio comandava a vitrola e, a seu juízo,
festa sem Timóteo não era festa. Lembro-me dele “aprumando-se”, como dizia, “pras
madamas de dona Zita.” “Que coversa é esta com esses meninos ?”, ralhava vó, “vai
arrumar serviço!”. Tio ria e sai cantarolando:
“Amor proibido/A minha maneira é autencidade/ Vou ficar contra o mundo/ Mas não
posso fugir/ deste amor que é verdade...” Nos sábados, à tardinha, tio dependurava
o espelhinho do lado do tanque, tomava da navalha, se barbeava. Depois, se
enfiava numa camisa vermelha,vistosa, ornada por terno branco. Tio se metia um
chapéu de abas curtas combinando com o terno, flor de cravo na lapela. “Onde
vai o janota?”, perguntava vó . Cheirando a colônia de barbear, tio impostava a
voz à Timóteo e parodiava: “Eu hoje vou sair e procurar uma nora para ti”. “Se
encontrar, deixa por lá mesmo!”, retrucava vó, sorrindo-lhe. Tio beijava-lhe a
testa, pedia-lhe benção, ganhava o mundo cantarolando: “se eu demoro mais aqui
eu vou morrer...” Um dia tio trouxe nora e neto. Mas esta é uma outra história,
que deixo para uma outra hora. Tio e Timóteo agora estão em festa.
Olá!
Como vocês estão? Espero que bem e se cuidando, seguindo as orientações
sanitárias, usando máscara, álcool em gel, saindo apenas se necessário,
mantendo distanciamento social, evitando aglomerações.
Não
sei se vocês têm ou não uma crença, se vocês são ou não cristãos. Não sei, se
vocês sendo cristãos, seguem ou não algum movimento ou Igreja. Independente
disto tudo, crendo ou não, seguindo ou não esta ou aquela igreja, somos
culturalmente cristãos. Até mesmo para negar a existência de Deus, negamos da
perspectiva cristã.
Quero
tratar aqui com vocês, respeitando a sensibilidade religiosa de cada um de
vocês do evento da paixão de Jesus, o Nazareno, que culmina em sua morte na cruz.
Lembro que há dois eventos da história do crucificado que requerem a dimensão
da fé: sua concepção virginal; sua ressurreição. Mas a vida que Jesus viveu, as
opções que orientaram sua ação existencial e que o levaram à prisão, à tortura,
a um julgamento forjado, a uma condenação espúria, a uma morte ultrajante, dá
se do arco das ações humanas, não há nesses eventos intervenção divina. Na cruz
não ocorre um deicídio, há o assassinato de um homem, de um ser humano. O homem
transfigurado na cruz revela a crueza a que nós homens, quando nos apegamos ao
poder, à riqueza, à falsa honra, podemos chegar. “Jesus morreu por nossos
pecados.” Este “por” não significa, de modo algum, em nosso favor. Morrendo na
cruz, Jesus não nos alivia de nossos pecados. Não, este “por”, é imputativo. A
morte vergonhosa de Jesus é responsabilidade nossa, Jesus morre por nossos
atos, por nosso apego ao poder, à riqueza, à falsa honra.
A
sua vida e o seu ensinamento foram um confronto continuo contra as autoridades
religiosas, políticas e econômicas, que usam do saber e do prestígio para
enganar, expropriar, explorar, perseguir, matar. Jesus evidencia que todo poder, toda riqueza,
todo mérito sustenta-se da dor, do sofrimento. Para Jesus não sentido uma
pessoa, em nome de Deus, acumular terras que não produz, casas cheias de
quartos que não habita, bens que não usufrui e as traças corroem, ante
multidões famintas, doentes, desempregadas. Para Jesus não há preguiça, não há
acomodação, não há desinteresse nos desfavorecidos, há exploração e
expropriação. A pobreza é roubo. E usa-se o nome de Deus para justificar tal
roubo.
“Jesus
morre para cumprir a vontade de Deus”, do seu Deus. Mas não é vontade de seu
Deus que ele morra. Ele morre, porque ao cumprir a vontade de seu Deus, ele vai
contra nossa mesquinhez humana. Nós matamos Jesus porque a vontade de seu Deus:
um mundo fraterno, um mundo em que as coisas sejam comuns, o pão chegue a todos,
a terra seja de todos, em que as pessoas sejam respeitadas, acolhidas, tenham
vida digna, assumam suas escolhas, não nos interessa.
Jesus
para cumprir a vontade de seu Deus não pode abrir mão dos perseguidos, dos
doentes, dos expropriados, dos explorados, dos encarcerados, que por perceberem
as tramas religiosas, políticas, econômicas, se opõem e se insurgem contra elas.
Não, Jesus cumpre até o fim a vontade de seu Deus, consequentemente é
assassinado. O Deus dos templos, o Deus dos sacerdotes, o Deus dos cidadãos de
bem, o Deus dos caridosos que dão esmolas com a moeda da viúva e do órfão, não
é o Deus de Jesus. A morte de Jesus não é vontade de Deus, não do seu Deus, a
morte de Jesus é fruto de nossas ações, é em nome de nossos interesses, é em
nome do Deus do privilégio, do mérito. “Jesus morre por nossos pecados”, somos responsáveis
por sua morte.
O
cristianismo que se desenvolveu após a morte de Cristo é um retorno ao Deus dos
templos, dos sacerdotes, dos senhores, dos cidadãos de bem, dos meritocratas,
dos que fazem caridade com o que tiram dos pobres. No corpo pendendo na cruz
vislumbramos o fracasso do Deus de Jesus. O Deus de Jesus, com o cristianismo perdeu
espaço, em seu lugar assumiu o Deus doador de privilégios para alguns, “os agraciados”,
e o deus terrível, o Deus Castigo dos empobrecidos, dos expropriados dos
perseguidos.
O Cristo
transfigurado na cruz ilustra do que somos capazes, por nossos pecados, para
não abrir mãos deles, de fazer com um ser humano. Não é preciso ter fé, não é
preciso crer em Deus, para ver no Cristo morto nossa capacidade de transfigurar
a humanidade. Nós temos o poder de desumanizar o ser humano e usar Deus como
escusa. A missão de Jesus é um fracasso.