quinta-feira, abril 08, 2021

quarta-feira, abril 07, 2021

OUSAR SABER E FALAR

 

Já Aristóteles dizia que o ser humano é o único entre os animais que tem o dom da fala. É de Aristóteles também a compreensão de que “todos os homens têm, por natureza, desejo de conhecer”. Assim, a pessoa humana não é apenas um ser falante, é um ser de conhecimento, um ser que busca conhecer.  É conhecendo que homens e mulheres encontram possibilidades de humanidade. “Quando não contente em ser apenas um animal que fala, a pessoa procura tornar-se um animal que sabe, ela avança em humanidade.” (Zózimo de Ítaca).  Ao procurar conhecer, homens e mulheres, nesta procura, encontram as trilhas do humanizar-se. Sua liberdade consiste em adentrar ou não por essas trilhas. A autonomia é uma aventura àqueles que não querem apenas falar, a autonomia é uma aventura àqueles que, a falar, preferem saber. Sem conhecimentos a fala descamba em vociferações, impropérios, xingamentos. “Quem procura saber pouco fala, quem só procura falar, fala muito e nada diz” (Rodner Lúcio). E estamos nestes tempos em que todos querem ter lugar de fala, sem ter conhecimento. “Ousa saber”, dizia Kant àqueles que desejavam se desprender das amarras de doutrinas e conhecimentos que apequenam nossa humanidade. Ousar saber é falar menos.

domingo, abril 04, 2021

RESSURREIÇÃO

 

Estávamos reunidos em um jardim, não era longe de casa. De repente cercou-nos a polícia, um que andava com a gente, uns canalhas. Queriam nosso irmão e mestre. Um ou outro de nós esboçou resistir, mas ele se ofereceu à prisão.  Uma barreira de policiais de formou entre nós e ele. O vimos, então, sumir arrastado sob regozijo dos canalhas que davam suporte à policia. Sobre nós abateu o desespero, o medo, o acorvardamento. Durante dias ficamos sem nos reunir, evitando tocar o nome de nosso companheiro. Por familiares, a mãe principalmente, ficamos sabendo que ele foi torturado e cruelmente assassinado. Seu corpo ficou irreconhecível... O medo de sermos também nós presos levou-nos a nos esconder. Aos poucos, e ainda receosos, fomos nos reorganizando. E mesmo abatidos com a morte de nosso irmão, já não deixávamos de falar dele. E então fomos lembrando seus atos e palavras. Um lembrava de como ele acolhia as pessoas, outro lembrava de como ele o convidou para o grupo, outro lembrava de sua dedicação aos doentes, aos órfãos, as viúvas. Outros lembravam suas falas sobre uma outra realidade possível, que ele chamava Reino. Os doentes seriam tratados, os camponeses teriam terra, o pobre seria assistido, não haveria injustiças. Suas convicções enchiam-nos de esperança. Aos poucos, de relato em relato íamos compreendendo o que ele nos dizia, sua morte já não nos abatia, já não tínhamos medo, e quando demos conta, falávamos dele em pleno dia. E fomos além. Tomados de coragem começamos a agir como ele agia, visitávamos os doentes, alimentávamos os famintos, socorríamos os perseguidos, acolhíamos o estrangeiro, partilhávamos o pão e o vinho. Em nossos atos, em nossas palavras, sentíamos sua presença. Foi quando compreendemos algo que ele nos dissera: “toda vez que fizestes isto aos pequeninos, aos aflitos, aos excluídos deste mundo, a mim o fazeis e eu, entre vocês, estarei”. Naquela tarde, um dos nossos, vencendo certa resistência, acolheu um cheio de feridas, tratando-o como fosse o corpo torturado de nosso companheiro.  “De fato, vive!”, disse-nos. Mas foi quando dividimos o pão e o vinho, e ninguém, por ser isto ou aquilo, por fazer esta ou aquela escolha, deixou de comer ou beber, naquela tarde, nós o vivemos. Do colo da mãe, uma criança anunciou: “O Cristo Ressuscitou! Aleluia! O Cristo vive! É em nós, em nossos gestos e palavras!”Foi então que entendemos: “Somos nós que damos vida ao Cristo e atuamos o seu Reino.”

TIMÓTEO

 


“Se você está pensando em deixar-me por favor eu quero lhe pedir: Deixe-me outro dia sim, porém hoje não.” Agnaldo Timóteo

 

Nas festas , Timóteo era presença certa. Tio comandava a vitrola e, a seu juízo, festa sem Timóteo não era festa. Lembro-me dele “aprumando-se”, como dizia, “pras madamas de dona Zita.” “Que coversa é esta com esses meninos ?”, ralhava vó, “vai arrumar serviço!”.  Tio ria e sai cantarolando: “Amor proibido/A minha maneira é autencidade/ Vou ficar contra o mundo/ Mas não posso fugir/ deste amor que é verdade...” Nos sábados, à tardinha, tio dependurava o espelhinho do lado do tanque, tomava da navalha, se barbeava. Depois, se enfiava numa camisa vermelha,vistosa, ornada por terno branco. Tio se metia um chapéu de abas curtas combinando com o terno, flor de cravo na lapela. “Onde vai o janota?”, perguntava vó . Cheirando a colônia de barbear, tio impostava a voz à Timóteo e parodiava: “Eu hoje vou sair e procurar uma nora para ti”. “Se encontrar, deixa por lá mesmo!”, retrucava vó, sorrindo-lhe. Tio beijava-lhe a testa, pedia-lhe benção, ganhava o mundo cantarolando: “se eu demoro mais aqui eu vou morrer...” Um dia tio trouxe nora e neto. Mas esta é uma outra história, que deixo para uma outra hora.   Tio e Timóteo agora estão em festa.

quinta-feira, abril 01, 2021

A MISSÃO DE JESUS É UM FRACASSO

 


 

Olá! Como vocês estão? Espero que bem e se cuidando, seguindo as orientações sanitárias, usando máscara, álcool em gel, saindo apenas se necessário, mantendo distanciamento social, evitando aglomerações.

 

Não sei se vocês têm ou não uma crença, se vocês são ou não cristãos. Não sei, se vocês sendo cristãos, seguem ou não algum movimento ou Igreja. Independente disto tudo, crendo ou não, seguindo ou não esta ou aquela igreja, somos culturalmente cristãos. Até mesmo para negar a existência de Deus, negamos da perspectiva cristã.

Quero tratar aqui com vocês, respeitando a sensibilidade religiosa de cada um de vocês do evento da paixão de Jesus, o Nazareno, que culmina em sua morte na cruz. Lembro que há dois eventos da história do crucificado que requerem a dimensão da fé: sua concepção virginal; sua ressurreição. Mas a vida que Jesus viveu, as opções que orientaram sua ação existencial e que o levaram à prisão, à tortura, a um julgamento forjado, a uma condenação espúria, a uma morte ultrajante, dá se do arco das ações humanas, não há nesses eventos intervenção divina. Na cruz não ocorre um deicídio, há o assassinato de um homem, de um ser humano. O homem transfigurado na cruz revela a crueza a que nós homens, quando nos apegamos ao poder, à riqueza, à falsa honra, podemos chegar. “Jesus morreu por nossos pecados.” Este “por” não significa, de modo algum, em nosso favor. Morrendo na cruz, Jesus não nos alivia de nossos pecados. Não, este “por”, é imputativo. A morte vergonhosa de Jesus é responsabilidade nossa, Jesus morre por nossos atos, por nosso apego ao poder, à riqueza, à falsa honra.

A sua vida e o seu ensinamento foram um confronto continuo contra as autoridades religiosas, políticas e econômicas, que usam do saber e do prestígio para enganar, expropriar, explorar, perseguir, matar.  Jesus evidencia que todo poder, toda riqueza, todo mérito sustenta-se da dor, do sofrimento. Para Jesus não sentido uma pessoa, em nome de Deus, acumular terras que não produz, casas cheias de quartos que não habita, bens que não usufrui e as traças corroem, ante multidões famintas, doentes, desempregadas. Para Jesus não há preguiça, não há acomodação, não há desinteresse nos desfavorecidos, há exploração e expropriação. A pobreza é roubo. E usa-se o nome de Deus para justificar tal roubo.

“Jesus morre para cumprir a vontade de Deus”, do seu Deus. Mas não é vontade de seu Deus que ele morra. Ele morre, porque ao cumprir a vontade de seu Deus, ele vai contra nossa mesquinhez humana. Nós matamos Jesus porque a vontade de seu Deus: um mundo fraterno, um mundo em que as coisas sejam comuns, o pão chegue a todos, a terra seja de todos, em que as pessoas sejam respeitadas, acolhidas, tenham vida digna, assumam suas escolhas, não nos interessa.

Jesus para cumprir a vontade de seu Deus não pode abrir mão dos perseguidos, dos doentes, dos expropriados, dos explorados, dos encarcerados, que por perceberem as tramas religiosas, políticas, econômicas, se opõem e se insurgem contra elas. Não, Jesus cumpre até o fim a vontade de seu Deus, consequentemente é assassinado. O Deus dos templos, o Deus dos sacerdotes, o Deus dos cidadãos de bem, o Deus dos caridosos que dão esmolas com a moeda da viúva e do órfão, não é o Deus de Jesus. A morte de Jesus não é vontade de Deus, não do seu Deus, a morte de Jesus é fruto de nossas ações, é em nome de nossos interesses, é em nome do Deus do privilégio, do mérito. “Jesus morre por nossos pecados”, somos responsáveis por sua morte.

O cristianismo que se desenvolveu após a morte de Cristo é um retorno ao Deus dos templos, dos sacerdotes, dos senhores, dos cidadãos de bem, dos meritocratas, dos que fazem caridade com o que tiram dos pobres. No corpo pendendo na cruz vislumbramos o fracasso do Deus de Jesus. O Deus de Jesus, com o cristianismo perdeu espaço, em seu lugar assumiu o Deus doador de privilégios para alguns, “os agraciados”, e o deus terrível, o Deus Castigo dos empobrecidos, dos expropriados dos perseguidos.

O Cristo transfigurado na cruz ilustra do que somos capazes, por nossos pecados, para não abrir mãos deles, de fazer com um ser humano. Não é preciso ter fé, não é preciso crer em Deus, para ver no Cristo morto nossa capacidade de transfigurar a humanidade. Nós temos o poder de desumanizar o ser humano e usar Deus como escusa. A missão de Jesus é um fracasso.