quarta-feira, janeiro 08, 2020
quarta-feira, novembro 20, 2019
RACISMO COVARDE
A ideia que entende a humanidade constituída por raças diferentes se difundiu com a formação dos Estados nacionais europeus no século XVI e raça significava pertencer a uma linhagem. Até o século XIX, não havia uma classificação entre raças superiores e inferiores. A definição de raça como um sistema de classificação humana se dá na França, no século XVIII com a criação da Frenologia. A Frenologia pretendeu estabelecer as características de cada raça com base nas medidas e no tamanho do cérebro. Ela influenciou as teorias eugênicas sobre raças superiores nos séculos XIX e XX. Um de seus mais destacados adeptos foi o italiano Cesare Lombroso, criador da Antropologia Criminal, defendia que a criminalidade era uma questão biológica e hereditária. No século XIX, com o chamado darwinismo social, se afirmará não só a diferença de raças humanas, mas a superioridade de umas sobre as outras e a eugenia, que propõe uma seleção artificial das raças, eliminando as raças inferiores. O racismo é a aplicação prática dessas teorias. Sua expressão ocidental mais trágica deu-se com o nazismo e os campos de concentração, sobremodo Auschwitz.
No Brasil o racismo sofre influência de Arthur de Gobineau, um conde francês, partidário de um determinismo racial absoluto. Gobineau escreveu o Ensaio “Sobre a desigualdade das raças humanas” (1855), que apresenta os primeiros fundamentos para a eugenia e o racismo no século XiX. Ele serviu como diplomata no Brasil durante o segundo império e teve grande influência na corte. Gobineau considerava o Brasil, devido a miscigenação de seu povo, uma nação dada ao fracasso, à degeneração. A única saída seria o incentivo à imigração de "raças" europeias, consideradas superiores. Nossa sociedade escravista absorveu com deleite as teses de Gobineau e delas se alimentam ainda hoje.
É preciso pontuar que o racismo não é universal, não são todos os homens e mulheres que são racistas. O racismo tornou-se uma ideologia de classe, justifica o poder e os privilégios econômicos de uns poucos. Como toda ideologia, atinge indivíduos fora das classes privilegiadas, mas é uma ideologia de classe.
Condenado moral e criminalmente, é combatido no mundo todo. No entanto, como uma doença incurável, alimenta entre nós a visão de mundo de uma elite presa ao escravismo.
E em sua expressão mais bárbara e irracional tem se manifestado como pratica covarde. Falta a seus adeptos argumentos, são homens e mulheres ignorantes que alimentam uma fantasia de superioridade. Como não há mais ciência que justifique tal fantasia, fazem uso da arrogância, da força, da injuria e da brutalidade para imporem-se como se fossem senhores de engenho. A atitude do deputado Marcio Tadeu, do PSL, é uma ilustração cabal de tamanha covardia.
terça-feira, novembro 19, 2019
CONSCIÊNCIA HUMANA E CONSCIÊNCIA NEGRA
“A consciência humana é um
atributo de um psiquismo complexo e a complexidade desse psiquismo é produzida
em condições objetivas de vida e de educação” Profª. Drª. Lígia Márcia Martins
Se é preciso falar de
consciência humana, vamos falar de consciência humana.
A consciência é a percepção
imediata daquilo que se passa em nós e fora de nós, é a impressão primeira que
temos de nossos atos de nosso estado psíquico e da realidade. É também a
capacidade que tem o espírito humano de imitir juízos espontâneos. Das
operações imediatas nós distinguimos, diferenciamos, relacionamos, tiramos
conclusões. Ela se prende à mera aparência da realidade sem se dar conta das
contradições que movem a realidade e presa à espontaneidade da percepção
imediata produz equívocos, distorções, mistificações, falsas concepções de si e
da realidade.
A realidade é movida por
contradições e conhecer e compreender estas contradições é fundamental para
entendermos como criamos um conceito universal de humanidade em que homens e
mulheres são iguais, merecem ser tratados com a mesma dignidade e respeito e,
ao mesmo tempo, alijamos e impedimos populações inteiras e grupos humanos
específicos de desfrutarem do mínimo de nossa riqueza material e cultural,
condenando-os a condições sub humanas de existência.
Percebendo as contradições
que entremeiam a percepção imediata e procurando compreender tais contradições nós
percebemos que consciência imediata não é a fonte de todo conhecimento e de
toda ação, e pode converter-se em fonte de enganos e ilusões. Daí que a
consciência assume uma dimensão reflexiva, buscando amparo no conhecimento e na
critica ao conhecimento.
Sem conhecimento nós ficamos
presos à mera aparência da superficialidade do imediatismo, e limitamos nossa
capacidade de entender o mundo no qual vivemos e suas contradições. O
conhecimento amplia e aprofunda nossas concepções de mundo, nos auxilia a entender
como natureza, cultura e sociedade se relacionam e condicionam as formas de
nossa inserção no mundo. No entanto, as ciências, as artes, a religião, a
filosofia, fontes de nosso conhecimento também produzem enganos e alienações.
Daí que a consciência precisa ser critica. Para ampliarmos nossa compreensão
das contradições que nos marcam devemos nos ancorar no conhecimento, mas é
preciso um ponto crítico ao conhecimento.
A consciência crítica não
para no conceito de natureza como elemento orgânico necessário à nossa existência,
ela busca compreender as contradições que as ciências produziram e que nos
levam a aniquilar os recursos naturais, a devastar florestas, a produzir o caos
ambiental que ameaça a existência de novas gerações. Da consciência crítica nasce
a consciência ambiental que defende a necessidade de frear a ação
indiscriminada sobre a natureza.
Do mesmo modo a consciência
crítica não se firma no conceito de humanidade universal. Ela questiona a
formalidade dos princípios universais e aponta a distância entre estes princípios
e a realidade concreta. Ainda há homens e mulheres vivendo em condições
sub-humanas, ainda há homens e mulheres que vivem alijados de nossa riqueza
material e cultural, há ainda homens e mulheres que devido sua opção religiosa,
sexual, são perseguidos, destratados e mesmo mortos, há ainda homens e mulheres
que devido à pigmentação de sua pele, devido a seus traços físicos são
destratados, humilhados e mesmo mortos. A consciência critica desperta
movimentos que colocam em causa tais contradições e cobram o avanço em direção
aos princípios fundamentais que regem o conceito de humanidade. O dia de
Consciência Negra não se contrapõe a Consciência humana, ele faz um apelo para
que essa consciência não seja um apego ao espontaneísmo da consciência imediata
que diz: “somos todos iguais”, mas ignora o desrespeito, o destrato, a morte
continua de homens e mulheres, crianças, jovens, adultos, devido a pigmentação
de sua pele. Em seu nível mais elevado a consciência humana é consciência transformadora.
O dia de Consciência Negra aponta para as transformações que devemos enfrentar,
aponta para o nível mais elevado de consciência humana.
sábado, novembro 16, 2019
CONSCIÊNCIA NEGRA
“É verdade, as pessoas não
nascem racistas. Mas se se tornam é porque o racismo existe. E reconhecer sua
existência é o primeiro passo para combatê-lo.” (Ildes Comparato).
“O racismo é a pretensão de
ser superior a uma pessoa ou grupo humano, devido sua etnia. E tal pretensão te
leva ao ponto de submeter a pessoa ou grupo humano a seus caprichos e
descartá-los como se descarta um objeto inutilizado. É uma doença do ego.”
(Josias Capello)
A
expressão "consciência negra" foi cunhada pelo ator político
anti-colonialista Sul Africano Steve Biko. Steve Biko tinha 30 anos, quando foi
preso, torturado e assassinado pelo Apartheid em 12 de setembro de 1977. Ainda
estudante de medicina, ele criou a Organização dos Estudantes Sul-Africanos
(SASO, em língua inglesa).
Na
África do Sul, o movimento de Biko reclama o reconhecimento do racismo e da
condição subalterna do sujeito negro. Para ele tomar consciência do racismo,
fundado na desvalorização social de homens e mulheres, submetidos a um regime
de opressão é o primeiro passo no caminho da superação do racismo. Steve Biko
destacava a importância de modificar a imagem do negro contada pela cultura,
pela educação, pela religião e pela política, combatendo formas e manifestações
de racismo.
Para
Biko a dominação não se dá apenas de forma política, e ou nas estruturas do
judiciário. Sua maior incidência se dá no campo das ideias, dos valores, das
ideologias. De tal modo, segundo ele "a arma mais potente do opressor é a
mente do oprimido.” Ele acreditava que para superar o racismo existente na
África do Sul era preciso desconstruir o discurso desprestigioso acerca do
homem e da mulher negra, criando uma ideia oposta, de força e orgulho negro.
Para Biko o confronto do racismo com a consciência negra produziria uma síntese
mais humana, construindo um país igual entre negros e brancos.
Assim
a consciência negra não propõe um confronto entre pessoas, mas entre
mentalidades, de um lado a racista e colonizadora e de outro a da valorização e
emancipação do oprimido, marcado pela pigmentação de sua pele.
O
movimento de Biko e suas ideias irão reverberar no Brasil já na década de 1970.
E em julho de 1978, com o surgimento do Movimento Negro Unificado (MNU), o dia
20 de novembro passa a ser um dia de combate ao racismo. 20 de novembro recorda
a morte de Zumbi de Palmares em 1695, Neste gesto, o movimento negro brasileiro
elege a luta do Quilombo dos Palmares como gancho para a reflexão acerca do
tratamento desprestigioso e desrespeitoso dispensado a homens e mulheres no
Brasil devido a pigmentação de sua pele.
Não
podemos ignorar que, ainda hoje, pessoas são destratadas, humilhadas e até
mortas devido a pigmentação de sua pele. O entendimento desse sistema de desvalorização
do ser humano segundo a pigmentação de sua pele e das consequências que ele
acarreta como exclusão social, marginalização e criminalização arbitraria de
sujeitos e de comunidades é um passo necessário para superarmos nossas
contradições.
Para Steve Biko “O princípio básico da
Consciência Negra é que o homem negro deve rejeitar todos os sistemas de
valores que buscam torná-lo um estrangeiro em seu país natal e reduzir sua
dignidade humana básica.” (https://www.nexojornal.com.br/expresso/2017/09/12/Quem-foi-Steve-Biko-e-como-ele-se-tornou-um-%C3%ADcone-contra-o-apartheid).
Nem todo homem branco, nem toda mulher branca
é racista e, por isso, os não racistas não deveriam se incomodar com o dia de
consciência negra. Pois, o dia de consciência negra não é um
combate ao homem branco ou à mulher branca, é um combate ao racismo nas
estruturas de poder, em instituições e entre aqueles e aquelas que destratam,
humilham, marginalizam, criminalizam e executam arbitrariamente pessoas, devido
sua etnia ou pigmentação de pele.
domingo, novembro 10, 2019
SOBRE A FAMÍLIA
Eu tenho observado uma coisa: o termo família, parece-me, pode ser aplicado a uma série de situações de amizade e camaradagem, menos para família. Eu tenho muitos conflitos com minha mãe, meu pai, meus irmãos e irmãs, considero alguns encontros entre amigos, encontros familiares. Com eles não há conflitos, há apenas bebericadas, comilanças, troças de ideias destoantes, a aceitação parcimoniosa de nossos desatinos. E é isso que procuramos: uma família em que não temos que dar explicações nem assumir responsabilidades... Mas família, família mesmo: é pai, mãe, irmãos, irmãs, com todas as rusgas que se possa produzir em seus encontros. Eu não dou minha confiança e minha lealdade a ninguém que maldiz seus irmãos e irmãs, que demonstra pouco respeito por seu pai, sua mãe. Família não é para ser um paraíso é para ser o berço onde forjamos nossa personalidade e nossa personalidade se forja no conflito, principalmente com nosso pai, com nossa mãe. Um dia percebemos, como diz a canção, que somos como eles e como nossos irmãos e irmãs. Eu brigo muito com minha família, não a troco, porém por minhas amizades, que podem até ser uma espécie de família, mas é uma espécie menor. Pai, mãe, irmãos, irmãs não se substituem.
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