sábado, outubro 22, 2016

ÁGABO E AGATÃO


      Uma das versões do infortúnio do jovem Tirésias informa que o mesmo pastoreava próximo Uma das versões do infortúnio do jovem Tirésias informa que o mesmo pastoreava próximo às fontes de Hélicon, e sentindo sede Tirésias procurou deter-se a tomar água, para sua surpresa a deusa Atenas ali se banhava em companhia de Cáriclo, ninguém mais que a mãe de nosso jovem pastor. Tirésias, segundo o cronista da época, “sem querer, viu o que não é lícito ver”. Por tal motivo, o jovem pastor, de imediato, foi punido à perda da visão. Abaixo de rogos da mãe, Atenas, que nada podia fazer, pois não podia revogar a lei de Cronos: “quem observar um dos imortais sem que o próprio deus concorde, paga alto por tê-lo visto”, bem observou: “o ato, quando se cumpre, não é mais revogável”. Mas diante do sofrimento materno, para consolar sua bela companheira, Atenas concedeu ao jovem Tirésias um dom inimaginável. “Ó companheira!”, disse, complacente, a divina Atenas, “não te lamentes por isso; a ele, por teu favor, muitos outros prêmios estão, por mim, reservados: farei dele um adivinho digno de ser cantado pelas gerações futuras, de certo, ele será muito mais notável do que qualquer outro”. Tirésias habitou em Tebas e chegou a viver oito ou nove gerações, sendo o mais respeitado clarividente de toda mitologia grega.
Menos afortunado que Tirésias foi, na mitologia latina, a sorte de Acteon. Conta a lenda que o jovem caçador, criado pelo centauro Quíron, perdeu-se de seus companheiros de caça e se deparou próximo à fonte onde Diana e suas ninfas banhavam-se. As ninfas percebendo sua presença, “gritaram e correram para junto da deusa, tentando escondê-la”. E Diana, enfurecida, longe de suas flechas, pegou um pouco de água e jogou na cara de Acteon e disse: “Agora vai e conta, se puderes, que viste Diana desnuda”. O jovem caçador transformou-se em cervo e foi perseguido e sacrificado pelos cães de caça da deusa, que o consumiram enfurecidos... Dizem serem tais cães caçadores inadvertidos, também apanhados a contemplar Diana em suas abluções...
Tia tinha sua versão para Ágabo e Agatão.
Nós ainda não sabíamos o que era realejo. Vimos um acompanhando tia à cidade. Um senhor coxo e cego manipulava uma maquina emitindo uma alegre canção. Sobre tal máquina, uma gaiola com um periquito e uma gaveta com vários papeizinhos. Um grupo de curiosos rodeava o velho com sua curiosa engenhoca. Tia também se deteve, aproximou-se, tirou uma moeda do bolso e a depositou na máquina: “Vamos lá Agatão”, falando com o periquito, “minha fortuna”. O periquito retirou um dos papeizinhos da caixa e o depositou na mão estendida de tia. Tia tomou o papelzinho e o guardou seguro dentro do sutiã para que, em casa, a prima o lesse. A tarde não passava tal nossa curiosidade para saber o que dizia o papelzinho. As horas se estendiam intermináveis e a noite não caia.
Finalmente veio o momento esperado, vó cerzia umas camisas de tio, quando tia, engomando, começou: “Em remoto tempo, lá pelas bandas de Santa Luzia, contam, vivia certa Diana, benzedeira e parteira respeitada e temida, acreditavam ser feiticeira. Tal Diana, contam, tinha vistosa filha de nome estranho, não me recordo bem, mas me parece, Algama se chamava a filha de Diana. Contam que tal moçoila era costumada a buscar água finzinho de tarde no ribeirinho próximo. E que a tal costumava aproveitar para banha-se... Tinha pelas bandas de Santa Luzia dois irmãos muito abusados, dados a traquinagens e invencionices. Combinaram expiar a bela moça no ribeirinho e esconder-lhe as roupas, esperando ela voltar nua para casa. Então, Agatão e o irmão Ágabo, que puxava uma das pernas, procuraram atuar o planejado. Não sabiam os malandros o que os esperavam. E foi Ágabo quem assim a história me contou: “Descemos ao ribeirinho, eu e Agatão, para pregarmos uma peça na bela filha de Diana. Nós nos escondemos atrás de umas pedras e a esperamos desnudar-se. Mas, nada! Vimos foi a jovem tornar-se uma bela cotiara. Estupefatos com o que víamos, não demos conta da enorme coruja que nos alcançava. Desfaleci. Acordei já em casa, cego. Agatão ficou um tempo sumido. Um dia posou em meu ombro, neste periquito. De Diana e da filha nada mais soubemos. Lembro-me apenas de uns olhos enormes de coruja sobre nós e da bela cotiara serpenteando as águas do riachinho... ”
Tia tomou prima de lado para ler-lhe a sorte. Curiosos aguardávamos. Tia pôs-nos a dormir com severa reprimenda: “no desejo e na fortuna de outrem, quem o olhar lança a vista perde”. E vaticinou contra prima: “e tu, mocinha, se contares, rã serás.” Até hoje prima se faz de muda, quando tocamos no assunto...
“Ei Agatão! Minha fortuna.” Estendo ao velho Ágabo uma nota de cinco reais...        

terça-feira, outubro 18, 2016

SOBRE EDUCAÇÃO

Eu acredito seriamente que apenas a EDUCAÇÃO nos fará uma nação autônoma. Mas não descuido em pensar que os que receberam as melhores oportunidades de ensino e que estudaram nas melhores escolas e universidades são os que mais   facilmente se tornam reacionários, defendem o Estado mínimo, mas se locupletam da corrupção e dos programas de governo que favorecem o sistema financeiro  e defendem com naturalidade o regime de exceção, o desmonte do Estado Brasileiro, o interrompimento das políticas de inclusão social, principalmente as de acesso à educação. Só a EDUCAÇÃO nos salva, mas quem as merece ter? Na acepção dos que ora usurpam o poder político, com o beneplácito apoio dos batedores de panela,  apenas os que podem pagar. A Educação que os "bem formados" pregam aos filhos dos trabalhadores é a eficiência. O trabalhador não precisa saber, não precisa pensar, refletir, se manifestar, questionar, precisa apenas desenvolver habilidades e competências que o torne eficiente e consumível. Para tanto, não é necessário se investir em educação, na valorização e formação de professorado... Na verdade, para os bem educados, que amam o verde-amarelo de nossa bandeira, investir em EDUCAÇÃO é gasto. Só a EDUCAÇÃO torna os homens autônomos, mas o que oferecem ao filho do trabalhador é a quimera de que ele também é consumidor... Os bem formados dessa nação, em geral, são fascistas. A EDUCAÇÃO também produz monstros, mas acredito que ela nos é a saída contra a egolatria de nossa tacanha elite diplomada...

domingo, outubro 16, 2016

O INCRÍVEL HOMEM DE DOMINGO


Acorda no rotineiro horário de todos os dias, mas concede-se um tempo a mais na cama. Pode contemplar o sono confiante da companheira. Percebe com satisfação os sinais de uma longa vida juntos. Uma lembrança de tempos remotos invade-lhe e o apraz. “Estamos envelhecendo”, pensa. Levanta, lava o rosto, escova os dentes, ajusta os cabelos. Circula pela casa e percebe que apenas o mais moço dormiu em casa. Prepara o café, folheia o matinal, liga a televisão, abre a porta recepcionando o efusivo Banzé, um vira-latazinho amarelado. Fazem festa, prepara-lhe a ração: “Vamos tomar um banho, rapazinho!” O animal parece entender; murcha as orelhas, baixa o olhar. Troca o pijama por um conjunto de moletom surrado. Vai à feira, encontra antigos companheiros, cumprimenta-os com cordialidade, com um ou outro estende um pouco mais a conversa, faz as compras da semana, nota a variação dos preços, come pastel, toma caldo de cana. Já em casa, encontra a companheira no banho, saúda-a com um selinho, evitando se molhar. Por jogo a companheira lhe faz respigar água da ducha. “Comprou tomates para o molho?” “Sim!” Prepara o banho de Banzé que se esconde atrás da maquina de lavar. Não o poupa, e contra sua vontade o joga na banheira... Agora cuida do carro, ouvindo Tim Maia, Tom Zé, Maysa... A companheira lhe trás suco, biscoitos, comenta algo acerca do mais velho: a família deve crescer... Ajustado o carro, toma banho, socorre na cozinha, limpando a louça, picando alho, cebola, beliscando o bacon dourando... Almoçam, a futura nora anuncia a vinda de Gusthavo ou Lhaila, brindam... Agora tira uma soneca, acompanhado de Banzé... O mais moço anuncia estar indo ao Shopping com os amigos... Acompanha o futebol na televisão, discute com os comentaristas, “quanta asneira numa só frase!” A companheira ri, meneando a cabeça: “não te ouvem!”... O domingo vai minguando, prepara um lanche rápido para si e para a companheira, tomam vinho. Ele lê para ela versos de Hilda Hilst, assistem um documentário sobre a Revolução Cubana... O mais moço anuncia estar em casa. O mais velho chega logo em seguida. A companheira corre a casa verificando portas e janelas, apagando as luzes... Prepara as coisas para a semana... Ele já deitado, espera a razão de seu ser, folheando um livro. Acolhe-a junto a si. Abraça-a ternamente, desejando uma boa noite e: “sonhos comigo!”. A companheira repousa a cabeça sobre seu ombro: “vencemos mais um domingo!”       

sábado, outubro 15, 2016

DAS DING




As alucinações visuais são frequentes nas histéricas mas podem, de fato, aparecer em qualquer estrutura clinica (neurose, psicose e perversão). Elas são como o sonho: representações inconscientes que, de repente, se acendem de desejo e se imaginarizam no mundo sensível do sujeito. Elas brilham de libido. (Antonio Quinet)


Meus fantasmas aparecem-me nas horas menos oportunas. Quando menos estou preparado, eis que de uma pagina de livro, salta-me Euripides dos Santos e sua melancólica sabedoria. Rodner Lúcio tinha o hábito de aparecer-me no meio da aula, reprovando-me, meneando a cabeça e levando as mãos à cabeça como se eu dissesse algum absurdo. Talvez dele eu tenha me livrado. Leopoldo gosta de atrapalhar-me em meus relacionamentos amorosos. Christine Ramos, uma flor em meu jardim, recita-me Adélia Prado, Hilda Hilst, Marguerite Yourcenar.
Desço à padaria, peço pão com manteiga na chapa, café puro, sem açúcar. E, enquanto aguardo, acompanho o noticiário na televisão afixada um pouco acima de minha cabeça. Espero por Mirandha, marcamos de ir à Capital, ela quer visitar uma exposição no MASP e convidou-me para acompanha-la.
O inconfundível aroma de loção de amêndoas anuncia sua chegada, atraindo meu olhar para a entrada da padaria. Das Ding a acompanha. Mirandha acena, sorri-me e vem a meu encontro, eu, indo a seu encontro, acolho-a em um abraço caloroso, beijo-a amigavelmente, atenho o olhar ao volume e ao regaço de seus seios acomodados em um top cavado azul turquesa, sob uma camisa transparente, desabotoada e amarrada na cintura. A calça legging preta, bem ajustada ao corpo, evidencia o “pacote”, como dizem os amigos. Desvio o olhar para seu sorriso. Digo-lhe amenidades, ofereço-lhe me acompanhar no matinal... Meus olhos voltam ao “pacote” e à fenda levemente anunciada. Dali, Das Ding sorri-me.
Das Ding não é, propriamente um fantasma, é um resquício, uma lembrança arcaica, uma silhueta terna, com halito de hortelã e um sorriso inibidor e provocativo ao mesmo tempo. Apresenta-se sempre sensual, atrai-me para o insinuado: o regaço, a fenda. Das Ding é desdobro do desejo (no) outro, inibe-me, retrai-me, desconcerta-me, instiga-me. Sorri-me.
Procuro desviar o olhar, correndo-o à televisão, mas ele escorrega ao olhar verde mar de Mirandha, à fenda. Mirandha parece perceber, move com sutileza a bolsa tiracolo cobrindo-se. Esboço um sorriso confuso. Tergiverso sob as expectativas do dia. Ela Sorri-me. Escorrego o olhar para o regaço dos seios.
Tomamos o café e tento acompanhar Mirandha explicando-me uma situação embaraçosa que se metera. Depois, fala-me de Michelangelo, motivo de nossa visita ao MASP, com entusiasmo e familiaridade.  Entre nós, Das Ding evoca memórias remotas, embebidas de fantasia.
Quando criança mãe costumava me levar com ela para o banho. Tinha medo que eu, só, me acidentasse. Eu brincava com seus óleos e shampoos enquanto ela massageava os seios, o clitóris; corria a navalha pela pele... Então, ela untava-se de uma loção de um aroma suave de rosas, tomava-me no colo e dava-me de mamar... Não sei se isso ocorria de fato, mas é assim que recordo... Das Ding cheira a rosa.
Eu e Mirandha deixamos a padaria e tomamos o trem. Animada, Miranda fala-me de seu curso de esteticismo, de técnicas de limpeza de pele, de depilação... Eu procuro acompanha-la, dissimulo mal, estou preso ao regaço de seus seios, ao “pacote”, à fenda, à Das Ding sorrindo-me brejeira.
O perfume de mãe invade o trem e convoca-me Martha, minha irmã. Eu tinha nove, dez anos, ela doze ou treze. Martha vestia-se com as peças de mãe e desfilava pela casa dando ordem como mãe. Desde que ela sangrou, mãe vetou-nos o banho juntos... Mãe pegou-me observando Martha pela fresta da porta... Martha tirava as peças como mãe e corria a navalha pelo corpo e se massageava parecendo saber observada... Pai castigou-me de cinta e proibiu-me sobremesa uma semana... Martha esperava tudo se aquietar, vinha deitar-se comigo, deixava-me sentir seus escassos pelos e massagea-la por baixo da coberta. Das Ding sorri-me e diz que “o desejo produz memória de coisas que nunca ocorreram, produz sombra de sombra, um episódico em cerca de gozo, sombra sem objeto”...
Durante o passeio, que muito agradou Mirandha, comemos pizza, pastel, sorvete, doces. Tomamos cerveja, café, licores. Andamos pela Paulista, fomos ao cinema.
Tudo memórias revestidas de sensualidade. Mirandha, suas formas, sua voz, seu sorriso, provocava-me, evocando-me cheiros, sabores, acalantos remotos e incertos... Produzia-me inquietação e desconforto. No fim da noite, despedi-me de Mirandha, tomando vinho, relembrando a jornada, comentando detalhes do filme, da exposição, de uma ou outra cena que capturamos na Paulista.
Das Ding evanesceu sem que eu a apreendesse. Mirandha sorria-me, eu era melancolia: o olhar preso à fenda de sua vulva e ao inconfundível aroma de hortelã misturado a óleo de coco, que as mulheres de minha família costumavam usar após o banho...
De meus fantasmas, Das Ding é lembrança de coisas que não vivi...  


quinta-feira, outubro 13, 2016

BRIGITTE BARDOT



Fora apenas uma alucinação... Olhos verdes claros, pele rosada, cabelos castanhos, lisos, escorridos, lábios finos, sorriso tímido, seios pequenos... Fora apenas alucinação, um sonho talvez.
Era uma manhã fria de terça-feira. Acordei nauseado. Levantei-me. Tomei um banho rápido. Vesti-me sem pressa. Liguei o radio. No lugar do café, tomei dois copos seguidos de conhaque. Abri a janela, a brisa úmida e fria bafejou-me o rosto. Não se via a cidade coberta pela névoa...
Brigitte era um sonho, a aluna exemplar. Tímida, sentava na primeira fileira, terceira carteira. Aplicada nos estudos, falava apenas o necessário... Brigitte era um sonho realizando-se...
Eu, de fato, não me sentia acordado. O banho, o conhaque no lugar do café, a manhã fria tomada de nevoeiro, não me era real. Brigitte não era real... Acendi um cigarro, acompanhava o noticiário, folheando uma revista tomada por acaso. Tomei outro conhaque...
Não era Brigitte naquele vestido curto, colado ao corpo, os seios saltando ao decote... Era uma alucinação, um sonho: “Professor, eu te quero em mim. Todo dentro de mim”... Brigitte a aluna perfeita, sorrindo-me, tragando de meu cigarro... Tomei outro conhaque, fumei outro cigarro... O corpo alvo, quente e perfumado de Brigitte pulsava sobre mim, a menina tímida dizia coisas obscenas em meus ouvidos; seus lábios, doces lábios, roçavam meu corpo, sugavam-me...
Brigitte não era real, sua voz chamando-me para o quarto “vem, volta pra cama, vamos brincar mais um pouco”, não era real...
Ouvi um estrondo, antes que eu reagisse, a porta veio abaixo... Dois policiais empunhando suas armas: “onde está a menina? A menina, onde está a menina?”
Não soube o que responder. Não entendia o que eles perguntavam...
Eu alucinava...
“A menina, a menina, a menina???”...
Aquele corpo nu, frio, plastificado... Não, não era Brigitte. Não era Brigitte...

*****

“Na manhã desta terça-feira, a polícia recuperou uma boneca de manipulação do Centro de Estudos Aplicados ao Esporte (CEAE), que estava desaparecida desde a última quinta-feira. Chamada “Menina” pelos acadêmicos do CEAE, a boneca foi encontrada em poder do professor Adhimanto Couto, titular do curso de Antropologia e Cultura do Esporte, em um quarto de motel. Em depoimento à polícia, o professor apenas perguntou por uma certa Brigitte Bardot, segundo ele uma sua aluna. Mas a direção do CEAE informou não haver nenhuma aluna matriculada com o correspondente nome.” (24 de maio de 2011, Diário da Manhã)