terça-feira, maio 31, 2022

UM HOMEM DE MÁ QUALIDADE

 

Bom dia querida!

 

Não foi para ti que escrevi o que segue, mas descreve-me por esses dias.

 

[...] Os dias estão cinzas e as horas se desbotam. Os minutos se arrastam numa prolongada tristeza.

A minha reserva de serotonina anda ladeira a abaixo, mesmo consumindo triptofano. Meu estado de humor é lastimável, tudo me aborrece e exaspera. Insônia, falta de concentração, confusão mental e a expressão vazia e melancólica no olhar descrevem-me.

A vontade de evadir-me, de não ser, é pungente. A faca tem conversado comigo, digo-lhe preferir cicuta.

Te amo!

Amor, no entanto, não produz serotonina.

Minha felicidade, e a ela eu renuncio, depende dos artifícios químicos.

Mesmo que amargo, recebas meu beijo!

[...]

 

Querida, não te preocupes, é só literatura de má qualidade! Ainda tenho que pagar-te um café!

Que tenhas uma semana bonita!

quinta-feira, maio 26, 2022

O BOM CRISTÃO

 

Em memória de Genivaldo de Jesus Santos1

 

Estava Jesus reunido com seus discípulos quando um deles lhe perguntou: “Rabi, que quer dizer mestre, quem havemos de considerar bom cristão?” E Jesus respondeu-lhe: “Nem todo aquele que diz: “Senhor! Senhor!”, é digno de meu nome” e contou-lhes a seguinte parábola:

“Dois pastores, antes de saírem para pastorear, tomaram da Palavra, leram um Salmo, oraram ao Pai, pedindo-lhe a divina benção. Depois, seguiram para o pasto. Suspeitando de um que pelo pasto caminhava, o abordaram, o agrediram e o colocaram em uma cova, para que este morresse sufocado. Imediatamente, a noticia chegou aos ouvidos de todos. E teve aqueles que os condenaram, pois a função deles era proteger as ovelhas sem se tornarem algozes dos lobos. E outros os aplaudiram, pois, julgavam o inocente morto um dano colateral. Entendiam que para evitar risco às ovelhas a operação dos pastores se justificava. E mesmo não sendo deles a tarefa de executar lobos, os que os aplaudiam diziam: “poderia ser um lobo, nunca se sabe; é melhor prevenir que remediar”

E Jesus, então, perguntou a seus discípulos: “O que vos parece, quem é digno de meu nome, os que condenaram os pastores ou os que os cobriu de elogios”.

Os discípulos guardaram silêncio. Jesus, então lhes observou: “Em verdade, em verdade vos digo, chegará a hora em que os indignos de meu nome serão honrados, e em meu nome farão fama e fortuna e os meus passarão por esquerdistas, defensores dos direitos humanos”. E Jesus concluiu: “Amanhã hão de colocar em minha boca o seguinte ensinamento: “Armai-vos uns aos outros! Mas eu vos digo: o meu reino não é dos sacerdotes e pastores; meu reino é dos mansos e humildes, dos pobres e humilhados, de todo injustiçado, creiam ou não em mim.”

 

1 - Genivaldo de Jesus Santos, em 25 de maio de 2022, foi covardemente assassinado por asfixia em uma câmara de gás. Os assassinos são bons cristãos.

domingo, maio 15, 2022

Marreta


Em minha infância, a cidade era um canteiro de obras. Próximo de casa havia, então, um alojamento de operários, acredito que deste complexo comercial. Eu me recordo como se fosse hoje, toda esta área era um enorme bosque de vegetação rasteira e árvores de pequeno porte, algumas frutíferas.  Ali, o estacionamento, era um descampado, tinha um campo de futebol, em que, também empinávamos pipa. Então vieram as máquinas e os operários, pouco a pouco, tudo foi se transformando comercio e prédios residenciais. Aos domingos, os operários organizavam partidas de futebol, rodas de samba, churrascadas. Um domingo, houve um jogo entre um time organizado pelos operários e o time da comunidade, quem perdesse pagava a cerveja. Seria um dos últimos jogos no campo, dias depois começariam trabalhos de fundação nele. Eu tinha por volta de dez anos, acompanhei pai para assistir a partida. Não havia arquibancadas, operários e moradores se misturavam ao redor do campo. Não havia rivalidade, apenas apostas animadas para um ou outro dos times. O árido era fraterno e festivo. Os jogadores se trocavam no meio do campo, e tinha lá o Marreta, um candango de pouco mais de vinte anos. Assim chamavam o sujeito, porque, segundo dizem, ele quebrava colunas de cimento no punho. E Marreta, embora moço, era mesmo um sujeito forte, de tronco vigoroso, braços e pernas que eram toras. E Marreta, como se estivesse na privacidade de seu banheiro, despiu-se aos olhos de todos, para envergar o uniforme dos operários. Britadeira seria apelido mais digno. O ponteiro do Marreta era algo impressionante. Eu não sei dizer de outros, mas eu me desliguei, entrei em vertigem. do jogo, do pós jogo já não sei relatar quase nada. Mas o ponteiro do Marreta penetrará minha alma. Depois daquele domingo, passei a espiar pai no banho. Mãe um dia pegou. Tomei uma baita surra. Pai pedia explicações. Mãe apenas respondia: “ele, apontava para mim, sabe. É o suficiente!” Depois da surra, mãe levou-me no padre, na mãe de santo, no pastor, no psicólogo. Mãe só desapoquentou quando lhe apresentei Clarice. Mas, mesmo casado, eu não deixava de procurar o “ponteiro mágico”. Visito banheiros de academias, bares, rodoviárias, vou a exibições de gogoboys, consumo pornografia do gênero, mas nada, nada se compara ao instrumento de Marreta. Desde aquele domingo vertiginoso, acordo, no meio da noite, molhado, sufocado.  Hoje cedo chegou-me um corpo para ser preparado, sou tanatopraxista. Que Marreta descanse em paz! E que no outro plano ele não sinta falta de nada.

sábado, maio 07, 2022

QUEM NÃO SABE PARA ONDE VAI, FICA ONDE ESTÁ!

 

Já um tanto ébrio, Pedro Augusto tomou o ônibus sem observar o destino. Habituado com o trajeto, Pedro Augusto, postado à janela, ia admirando a paisagem de luzes cintilantes das lojas e bares no cair da noite. Pedro Augusto cochilou e não deu conta que o ônibus, a certa altura saiu de seu habituado trajeto. Quando despertou, ainda embriagado, já não mais reconhecia a paisagem lá fora. Ruas estreitas, escuras, casas esquálidas, empilhadas umas sobre as outras, o cheiro azedo de esgoto. É certo que onde Pedro Augusto morava, a paisagem não era outra, mas aquela lhe era estranha. Pedro Augusto procurando inteirar-se qual era o destino daquele ônibus indagou o passageiro ao lado: “quem não sabe para onde vai, fica onde está!”, foi bruta, foi seca, foi dura a resposta. Pedro Augusto deu-se com o semblante do passageiro: esquálido, sombrio, ameaçador. Pedro Augusto cogitou descer do ônibus e tomar outro no sentido contrario, mas a paisagem lá fora tornava-se deserta e sombria. Pedro Augusto, em desassossego com o passageiro ao lado, resolveu por continuar a viagem até seu destino final. Lá fora a penumbra reinava. Pedro Augusto tomara um ônibus sem destino.