sábado, janeiro 26, 2019

SERIAL KILLER



Surpresas e acidentes são faces de acontecimentos que não esperamos que aconteçam. A surpresa ou nos emociona ou nos decepciona. Os acidentes nos destroem porque é sempre carregado de perdas. Coisas que sabemos que ora ou outra, sem sabermos quando, acontecerá, não nos surpreendem, criam em nós expectativas e apreensões. As expectativas nos motivam, nos entusiasmam. As apreensões nos adoecem e imobilizam: perdemos o sono, a tranquilidade, vivemos sob alerta. Diante de um acidente podemos alegar inabilidade, ignorância, imprevisibilidade. Diante do que sabemos que vai acontecer e, podendo evitar, nada fazemos, devemos assumir nossa displicência e descaso. Pelos descasos somos responsáveis. É sob o signo da apreensão e do descaso que centenas de famílias vivem no Brasil. Sabemos que ora ou outra nossos filhos, por condição de sua classe e sua cor, serão humilhados, presos, executados; que nossas filhas violentadas ou mortas por dizerem não. Sabemos que ora ou outra nossas improvisadas casas descerão morro abaixo misturando-se à lama, ou serão invadidas pelas águas levando na enxurrada o nada que temos. Sabemos que, ora ou outra, uma barragem cederá arrastando atrás de sua lama vegetação, animais, casas, vidas. Vivemos na apreensão sob o descaso dos que podem fazer alguma coisa e não fazem. Não estamos surpreendidos com Brumadinho. Sabíamos que iria acontecer. Não foi acidente, foi descaso. O que estava envolvido era coisa de pouca monta: a apreensão de vidas descartáveis como as nossas e de nossos filhos. O que aconteceu em Brumadinho, o que ocorreu em Mariana, não é apenas uma tragédia ambiental como os meios de comunicação estão anunciando, é crime contra a humanidade: vidas se perderam e nós sabíamos que iria acontecer.  Não será o último crime dessa natureza, outros já estão agendados. A Vale, ícone de nosso capitalismo predador, é um serial killer. Seu patrimônio é banhado de sangue.

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