Surpresas e acidentes são faces de
acontecimentos que não esperamos que aconteçam. A surpresa ou nos emociona ou
nos decepciona. Os acidentes nos destroem porque é sempre carregado de perdas.
Coisas que sabemos que ora ou outra, sem sabermos quando, acontecerá, não nos
surpreendem, criam em nós expectativas e apreensões. As expectativas nos motivam,
nos entusiasmam. As apreensões nos adoecem e imobilizam: perdemos o sono, a
tranquilidade, vivemos sob alerta. Diante de um acidente podemos alegar
inabilidade, ignorância, imprevisibilidade. Diante do que sabemos que vai
acontecer e, podendo evitar, nada fazemos, devemos assumir nossa displicência e
descaso. Pelos descasos somos responsáveis. É sob o signo da apreensão e do
descaso que centenas de famílias vivem no Brasil. Sabemos que ora ou outra
nossos filhos, por condição de sua classe e sua cor, serão humilhados, presos, executados;
que nossas filhas violentadas ou mortas por dizerem não. Sabemos que ora ou
outra nossas improvisadas casas descerão morro abaixo misturando-se à lama, ou
serão invadidas pelas águas levando na enxurrada o nada que temos. Sabemos que,
ora ou outra, uma barragem cederá arrastando atrás de sua lama vegetação,
animais, casas, vidas. Vivemos na apreensão sob o descaso dos que podem fazer
alguma coisa e não fazem. Não estamos surpreendidos com Brumadinho. Sabíamos
que iria acontecer. Não foi acidente, foi descaso. O que estava envolvido era
coisa de pouca monta: a apreensão de vidas descartáveis como as nossas e de
nossos filhos. O que aconteceu em Brumadinho, o que ocorreu em Mariana, não é
apenas uma tragédia ambiental como os meios de comunicação estão anunciando, é
crime contra a humanidade: vidas se perderam e nós sabíamos que iria acontecer.
Não será o último crime dessa natureza,
outros já estão agendados. A Vale, ícone de nosso capitalismo predador, é um
serial killer. Seu patrimônio é banhado de sangue.
sábado, janeiro 26, 2019
domingo, janeiro 20, 2019
sábado, janeiro 19, 2019
VELHO NAVIO
As vezes eu falo com a vida/As
vezes é ela quem diz (O Rappa)
Hoje não tem feira. Com suas
calças vermelhas e casaco de general cheio de anéis, Marcelo Yuka partiu
naquele velho navio, naquele velho navio. Tentou ser crente, mas o Cristo dos
crentes não o convencia. Seu Cristo era diferente, sem cruz. Era um Cristo,
podemos dizer, brincando entre crianças nas ruas como se fosse um quintal,
tomando uma cerveja na esquina, circulando na minhoca de metal, ou nos camburões
que lembram navios negreiros, deixando aos jornais seu sangue como capital. Não,
Yuka não acreditava em Deus, no Deus do crente, de uma paz silenciada, de uma
paz que é medo. Rejeitou até o fim esta paz sem voz, de poltrona no dia de
domingo, diante do vídeo, procurando novas drogas, que o fizesse feliz. Não,
essa felicidade não o satisfazia, era pescador de ilusões. Sua fé não era
comercial. Hoje os anjos cantam por ele. Pra quem tem fé a vida nunca tem fim. E
mesmo não acreditando em Deus, Macelo Yuka tinha fé. Hoje ele partiu naquele
velho navio, naquele velho navio, entrou na Vida, foi encontras-se com palavras
de um livro sem fim.
sexta-feira, janeiro 18, 2019
PEDAÇO DE DESESPERO
Eu amo e odeio, quase ao mesmo tempo, a
mesma pessoa (Marciano)
Hoje José Marciano nos deixou para fazer serenata no céu. Suas canções
permeiam memórias de minha infância. Não podia deixar de render-lhe esta
homenagem, como forma de agradecimento por sua contribuição na formação de
minha cultura musical. É patente nas letras de João Marciano a relação de amor
e ódio que se estabelece entre amantes. Geralmente suas letras tratam do
sofrimento da separação, da saudade do amor vivido, do encanto e dos
desencantos das relações amorosas. O texto que segue é fruto de compilações de
algumas suas canções que permeiam minha memória. Evitei os desencontros, as
separações. Não obstante as contrariedades, as canções de Marciano são sempre
declarações de amor. Obrigado Marciano por sua passagem entre nós.
Numa dose de uísque começou o nosso caso... Conversamos tanta coisa começamos
nosso amor. Foi um prazer conhecer você. Você tão bonita, elegante, tão jovem,
tão cheia de vida. Eu declamo teu nome, falando de flores. Não posso ouvir
aquela canção de que você tanto gosta, coloco sua foto de corpo inteiro na boleia
do caminhão, choro tua distancia. Conhecemos mil segredos um do outro, muitas
vezes nós amamos confiantes. Conheci você no auge do amor e você me conheceu no
mesmo instante.
Eu vivo pela estrada com um caminhão nos braços e você no coração. Meu
amor é dividido, porque, por ti, eu morro, mas vivo pelo caminhão. No calor da
estrada, quase sonolento, qualquer sombra eu encosto a pensar em quem eu gosto:
contigo, vou sonhar no acostamento. Quando a estrada serpenteia, vou seguindo
com cuidado redobrado. Mal começo uma viagem, já penso no regresso. Sem você
comigo não da pra viver, porém, há lugares que preciso ir sem levar você.
Porque não a deixo, não a esqueço, você é causa do meu sacrifício. Muita
gente fala que isso é fraqueza eu até concordo, mas fazer o quê?
Por toda uma vida esperei você. Preparei-me a vida toda para este momento.
Hoje em minha vida, você é meu pedaço de desespero. Sinto-me pregado em você, que
já é minha cruz, nem mesmo com mil orações consegui me livrar. Todos os dias e
todas as noites você está vivendo em meu pensamento, você é meu vício número um.
Desejo lhe dar minha vida e lhe ofertar
o meu amor sem fim.
Tem essa imagem de você saindo do banho, já vindo trocada. Seu corpo enfeitado com
essas roupinhas vermelhas ou pretas, de todas as cores, com muito carinho
cobriam seu corpo em alguns pedacinhos. Lembro-me
de tudo. Ainda na pele algumas gotinhas que na sua pressa se enxugava mal.
Ontem, antes de por o pé na estrada, palavras que você me disse ficaram
marcadas: “a vida já não tem valor se você não voltar”. As juras que você me
fez, eu não posso esquecer.
Carrego comigo sempre um pedacinho de ti: um fio de cabelo no meu paletó.
Com ele, lembro-me de tudo entre nós, o amor entre nós vivido. Nem mesmo outro
rosto bonito me faz te esquecer.
É isso ai paixão: viajo porque é preciso. Volto porque te amo. Mesmo que
haja crises de amor, jamais vou me separar de você. Só existe um caminho pra
nós dois, você batizou com seu amor meu coração. Você é meu pedaço de
desespero.
quinta-feira, janeiro 17, 2019
COISAS DE BANANÓPOLIS II
Uma
recente pesquisa, de um renomado instituto de Massachusetts, concluiu que
peneiras não são instrumentos apropriados para tapar o sol. Os cientistas
queriam comprovar a clássica expressão popular: “tapar o sol com a peneira”, no
sentido de tentar ocultar algo com instrumentos ineficientes, denotando uma
atitude ingênua, quando não matreira. Os
cientistas testaram cerca de duzentas peneiras das mais variadas marcas, para concluírem
que, de fato, não se tapa sol com a peneira. Não obstante o resultado das pesquisas,
alguns religiosos da denominação Jesus Cristo da Goiabeira, colocam em questão
os resultados, alegando que “para Deus nada é impossível”. Segundo o líder
religioso Eufalo Flácido: “os cientistas ao negarem a impossibilidade de se
tapar o sol com a peneira, colocavam em dúvida a onipotência divina. E colocar
a onipotência de Deus em dúvida é coisa de comunista”. Diante, então, do decreto
do governo que facilita a compra de peneiras para atenuar os efeitos do verão,
um iminente ministro, desqualificando resultados de pesquisa, disse que o tema
era controverso e que, “diante do insucesso de medidas anteriores, apostar no
uso da peneira para tapar sol torna-se uma solução pertinente”. Mudando de pato
pra pato mesmo, um sabujo (ou togado, como queiram) acaba de ser visto cobrindo
o sol com a peneira. “O que para uns não é possível, para outros se dá de mão
beijada”, diria minha vó. “Lá em Bananópolis”, diz tia, “mão se beija é com
umas verdinhas.”
quarta-feira, janeiro 16, 2019
COISAS DE BANANÓPOLIS
Passou nas Casas Bahia e comprou,
em seis vezes no cartão, um liquidificador. No trajeto para casa, carregava o
pacote como quem carrega um troféu ou uma premiação que não vê a hora de mostrar
para todo mundo. Sentia-se dona de si, empoderada. Após um longo período de
desemprego, recebera seu primeiro salário e o liquidificador era a realização
de um antigo sonho. Agora poderia fazer as receitas de liquidificador que
assistia na casa da patroa. Pensando nisso, determinou: “minha próxima compra
vai ser uma smarth TV; uma das grandes!” Quis fazer surpresa e entrou em casa sem
fazer barulho. Já na cozinha, ouviu gemidos sufocados no quarto. “Como, assim?”.
Suspendeu a respiração, aguçou os sentidos, posou com todo cuidado o pacote
sobre a mesa, desembrulhou-o delicadamente e armou-se de seu copo. Silentemente
aproximou-se do quarto, abriu a porta, um sujeito dominava o seu companheiro.
Não pensou duas vezes: desceu-lhe o copo de liquidificador. Lemos hoje na Tribuna:
“Mulher confunde amante do companheiro com bandido e o ataca com
liquidificador.” E na Voz do Povo: “Governo promove campanha: MEU LIQUIDIFICADOR MINHA SEGURANÇA.”
sexta-feira, janeiro 04, 2019
quarta-feira, janeiro 02, 2019
ZAFIMEIRO
Quero saber uma coisa
Uma coisa só e muito simples
E preciso saber sem rodeio ou
Ideologia. Quero saber pelo
Respeito ao direito de saber
Onde foi parar, alguém sabe me dizer, o
Zafimeiro* do Fabrício?
Uma coisa só e muito simples
E preciso saber sem rodeio ou
Ideologia. Quero saber pelo
Respeito ao direito de saber
Onde foi parar, alguém sabe me dizer, o
Zafimeiro* do Fabrício?
* Zafimeiro = velhaco, ardiloso, astucioso (Dic. Aurélio).
Assinar:
Comentários (Atom)



