I
Era hora do almoço. Nos reunimos em torno da mesa, éramos sete, tinha comida para vinte ou mais pessoas. O padre superior fez as orações de costume, agradecendo nosso lauto banquete e recomendando a Deus providenciar aos pobres e necessitados. A campainha tocou. A secretária veio comunicar que uma senhora com uma criança no braço pedia algo para ela e a filha, que o marido estava desempregado e... Um dos padres, mal esperou a secretária terminar o anúncio. E ainda com a boca cheia, retrucou ríspido: “essas pessoas pensam que somos o bom samaritano? Diga que estamos almoçando, que volte depois...” Neste dia eu comecei a percebe que eu estava no lugar errado... Comecei a desconfiar de mim, de minha fé
II
É que eu vinha de um grupo que costumava se reunir para ler e estudar os Evangelhos. Depois organizávamos coleta de alimentos e roupas que saíamos distribuindo por asilos e creches. Também fazíamos sopas para distribuir a moradores de rua e organizamos atividades de lazer e acompanhamento escolar para crianças de nossa comunidade. Muitos de nós acreditávamos que nos pobres, nos abandonados, nos marginalizados se encontrava o verdadeiro Cristo. Esta fé me levou a morar com os padres...
III
Mas parece que nós líamos e interpretávamos os Evangelhos a nosso modo. Não tínhamos que ser samaritanos, não tínhamos que acolher o necessitado, pra isto tinha a assistência social. Vieram os movimentos religiosos pregando que o verdadeiro Cristo se encontrava na adoração, no louvor. Quem nos conduz é o Espírito Santo, não os estudos. Os estudos, aliás, nos desviam do verdadeiro Cristo. Então começaram a falar de um Cristo Majestoso que nos abençoava com carro, casa, vestidos luxuosos... Bastava ser fiel ao dízimo. Foi ai que eu comecei a negar Cristo...
IV
Eu abandonei Cristo. Mas tem um Cristo que não me abandona. Ele continua caído pelas esquinas, abandonado em leitos de hospitais, aprisionado em nosso sistema prisional. Mas estão dizendo que este Cristo tem que morrer, porque ameaça tomar os bens que o outro Cristo, em sua graça infinita, doou-me. Talvez eu continue lendo os Evangelhos a meu modo, e o Cristo que neles encontro é um Cristo deturpado... Talvez o Cristo que não me abandona eu o tenha fantasiado, que o Cristo verdadeiro não tenha sido escarnecido e torturado... Talvez eu tenha entendido errado, que bem aventurados são os que acumulam riqueza, os que enganam o pobre, o trabalhador e a viúva, com promessas, se fieis ao dízimo, de um céu na eternidade. Talvez o Cristo que não me abandona não tenha falado de perdão, que a mulher adultera, a samaritana no poço de Jacó, o ladrão na cruz, sejam minha criação. Talvez os marginalizados, na verdade vagabundos, preguiçosos, viados, precisam mesmo serem executados, que o Cristo verdadeiro andava era armado...
Há muito tempo eu abandonei Cristo, mas tem um Cristo que não me abandona.
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