segunda-feira, janeiro 09, 2023

DO OBSÉQUIO DOS MINÚSCULOS

 

DO OBSÉQUIO DOS MINÚSCULOS

 

A selvageria terrorista, macaqueando o ataque ao Capitólio – É os patriotários terroristas se acham um arremedo do pior que os americanos são – aconteceu em um momento estratégico: o de montagem do novo governo, ainda sobre pressão da imprensa golpista, garota de recados do “mercado” sempre nervoso e de parte do comando das forças armadas (é minúscula mesmo) e dos órgãos de segurança “cooptados” pelo bolsonarismo. Sim, considerável parte da imprensa mantém seu papel de condescendente às elites sustentaram a Lava-jato, financiaram o golpe contra Dilma, promoveram o Inepto a presidente, sustentaram e sustentam os anseios terrorista desta turba de patriotários. Ainda tomando pé da real situação deixada pelo antigo desgoverno e reestruturando as equipes de governo, sem “estressar” o aborrecente mercado, o atual governo, mesmo com todas as evidências, descurou das ameaças de que o que ocorreu, iria ocorrer. Falha do governo, sim! Mas cabe ressaltar: sem o obsequioso apoio das forças armadas mantendo a turba de terrorista concentrados às portas dos quartéis, a selvageria que assistimos ontem não teria sido possível. Os comando militares, em seu silêncio estratégico – para não dizer, dizendo, covarde – alimentou até ontem os anseios dos selvagens de que as elas, na minusculidade que se tornaram, instigadas, interviriam a favor do terrorismo. O que ocorreu ontem não foi um ato político, ali não estava em disputa o poder. Foi pura selvageria, foi terrorismo, foi manifestação de ódio. Não foi pela pátria, não foi pela família, não foi por Deus, este lema desde sempre carregado de rancor e frustração, foi apenas ódio, alimentado em alojamentos ao redor de quarteis. Ainda não houve, de forma contundente, manifestação dos comandos militares condenando os atos de ontem. Generais, Brigadeiros, Almirantes continuam em silêncio. É o silêncio dos que parecem dizer: “não estamos de acordo, mas contem com a gente!” É o obsequioso silêncio de gente minúscula com poder nas mãos.

segunda-feira, outubro 24, 2022

PIPOCOS E PIPOCAS

 

“... Tem uma bala no meu corpo... E não é bala de coco” (Chico Cesar)

 

João Silva, do Morro dos Desparidos, jantando pipoca, acompanhava em sua televisão de tubo, a feliz conclusão da condução de Roberto Jeffersson à uma carceragem federal. Narrava o repórter que o distinto cidadão disparara cerca de vinte vezes contra policiais federais, arremessara granada, ferira policial, coisa e tal. E pacientemente, a operação policial esperou o distinto se entregar. “Fosse no morro, já tinha levado pipoco”, conjecturava João Silva. E João Silva não teve tempo de assistir à continuação da matéria, um estrondo interrompeu seu entretenimento, sua refeição, suas conjecturas. A porta de seu barraco veio ao chão: “perdeu vagabundo, perdeu vagabundo”, era a polícia invadindo seu lar. Quando a mãe, que embalava balas de coco no cômodo ao lado, chegou, João agonizava ao chão.  Alegou o policial que fora tomado de surpresa à reação de João. João morreu com dois pipocos, segurando uma vasilha com pipoca. Roberto Jeffersson passa bem, obrigado!

terça-feira, outubro 04, 2022

A CULPA NÃO É DO POBRE DE DIREITA, ELE NÃO EXISTE!

 

 

“A pobreza não é uma condição, é o resultado de uma relação de apropriação e exploração que subjuga muitos a poucos. Não há o pobre; há o empobrecido.” (Zózimo de Ítaca)

 

É preciso entender as relações e estruturas que mantém o empobrecido fiel aos que o expropriam. Se não entendermos estas relações, continuaremos condenando o empobrecido em suas escolhas, quando as pode ter, sendo ele refém da maquinaria que o mantém refém de seus expropriadores. Uma vez que entendamos, é quase improvável que consigamos esclarecê-lo de sua subjugada situação. Os que mantém os recursos e mecanismos de empobrecimento do empobrecido, mantém, sobretudo, os espaços discursivos “legitimadores” de sua posição. Púlpitos, cátedras, mídias estão a serviço dos expropriadores. Contra cada um de nós, da consciência que tomamos, há centenas de padres, pastores, professores, articulistas, “formadores de opinião” prontos a convencer o empobrecido que somos nós, e aquilo que defendemos, que os empobrece e não os expropriadores. A nossa ilusão de poder vencer os que empobrece o empobrecido pela mobilização popular, subvertendo as estruturas que o cativam, há de ser sempre frustrada, se ao invés de entendermos os processos de subalternização, passarmos a culpar o subalternizado. O empobrecido carrega em si o expropriador. Por vezes, ele não apenas anseia a vida dos que o empobrece, ele enseja, saindo da situação de empobrecido, tornar-se senhor não de si, mas sobre muitos. Este ensejo lhe é introjetado. Os instrumentos do expropriador são eficazes e eficientes. Nosso empenho discursivo insuficiente.   Não há empobrecido de “esquerda” e empobrecido de “direita”. “Esquerda” e “direita” são termos burgueses, é preciso uma certa condição econômica para se intitular ideologicamente. O empobrecido não tem ideologia tem carências, necessidades, anseios. O voto do empobrecido não é pelo ontem ou pelo amanhã, é pelo agora de suas necessidades. Nosso discurso não os atinge porque, Paulo Freire já havia ensinado: tomada de consciência é um ato pessoal e não se transmite. E, ainda na linha freireana,  é preciso pararmos de falar do empobrecido, objeto social, para o  empobrecido sujeito real e passarmos a falar com ele, deixando-o falar.  Em nossas relações e intervenções junto aos movimentos populares, uma nova práxis precisa ser estabelecida. Não é a partir da consciência que tomamos da realidade, mas é a partir da consciência que o empobrecido tem da sua realidade que devemos criar juntos as estratégias para avançarmos na resistência, e desta à superação, das relações e estruturas que nos subjugam aos que nos expropriam e empobrece. Por ter produzido o empobrecido, o expropriador o conhece e sabe como mantê-lo cativo. Nossa consciência dos processos que produzem o empobrecido é ineficaz sem nosso conhecimento do empobrecido sujeito real, dotado de anseios particulares, muitas vezes espelhantes do caráter do expropriador. E entender o empobrecido é preciso estar com ele, deixando-o se dizer e não dizendo-lhe dele. O empobrecido não se vê na descrição que dele fazemos, mas se vê nos modelos que os expropriadores lhes oferecem como entretenimento.


sábado, outubro 01, 2022

DO CONTO DO VIGÁRIO

 



Vigarista e vigarice são termos oriundos de vigário. Vigário é um termo religioso de origem latina, vicariu, us. Vicariu significa fazer a vez de outro ou de outra coisa. Na tradição católica, o sacerdote durante a administração dos sacramentos faz a vez de Cristo. Assim se confessa que quem administra o sacramento e consagrada a eucaristia é o próprio Cristo e não o sacerdote mesmo. Administrativamente, porém, fora dos ofícios religiosos, nem todo sacerdote é vicário. Administrativamente, vicário é o sacerdote que responde pelo bispo de uma diocese, ou pelo sacerdote titular de uma paróquia – o pároco, em sua ausência. De vicariu deriva vigário. E de vigário, vigarista. Vigarista é o sujeito que se passa por vigário sem sê-lo. A princípio, cair no conto do vigário é acreditar em quem se passa por autoridade religiosa sem que de fato ela seja religiosa. Tornou-se sinônimo de se deixar ser feito de otário, de se deixar levar por vigarices: discursos fraudulentos, conversas enganosas. O Vigarista se passa por vigário com intenção de enganar e roubar. Não o devemos confundir, portanto, com “padres de festa junina”. Estes não têm outra intenção que divertir-nos nas danças de quadrilha e com eles não nos enganamos, nos divertimos. O “padre de festa junina” que tomou a cena do último debate antes das eleições, não é padre de festa junina, ele não estava ali para nos divertir; não é vigário, não estava ali no lugar de outro, pois não representa autoridade religiosa alguma, ele é um embuste. O embuste é uma estratégia de engano. O padre “de festa junina” do debate é uma estratégia que a campanha da familícia encontrou para desviar a atenção de suas vigarices e dá folego à campanha do mitômano – é deste termo que lhe deriva a alcunha: mito . Só cai no conto do vigarista que se passa por vigário apenas quem acha que terá vantagem. É com a vantagem que o otário espera obter que o vigarista conta para aplicar seu golpe. A familicia já nos mostrou que não nos pode oferecer mais que mentiras. O padre de festa junina é a ilustração cabal de suas vigarices. Diz um amigo meu que entre o vigário e o vigarista é preciso distinguir o crente do crédulo. Diz ele: “o crente não crê em tudo e é capaz de questionar o que crê, já o crédulo está disposto a acreditar em qualquer coisa, principalmente se lhe promete vantagem. A relação do crente com o vigário se dá pelos benefícios dos sacramentos. A do crédulo com o vigarista pelas vantagens que este lhe promete. O crente quer estar bem com Deus, o crédulo quer se dar bem. Assim, o crédulo está para o vigarista como o otário para o malandro. E no Brasil há mais crédulos que crentes”. Estão loucos para caírem no conto da famílicia.