terça-feira, julho 14, 2020

A IMPOSSIBILIDADE DE SER PESSOA




Para quem acompanhou as aventuras do agente especial Ethan Hunt deve ter notado que sempre que ele recebe uma missão, o suporte em que a missão lhe é transmitida se autodestrói após a advertência: “se você ou membro de sua equipe for pego ou morto, nós negaremos qualquer conhecimento de suas ações”.
É assim, me parece, reforço: parece-me, que funciona o treinamento em nossos batalhões de polícia. Aos policiais parece haver a seguinte orientação: “Nas áreas nobres, com as elites, sejam subservientes, peçam desculpa pelo transtorno. E se um cidadão de bem se altercar e te dizer impropérios, mantenha a bovinidade, você é pago para servi-lo. É isto: se um homem de classe disser-te: tu és um merda, responda com humildade: “estou aqui para servi-lo, senhor”. Já nas periferias, entre os homens e mulheres do povo, você deve fazer e acontecer; deve chegar derrubando portas e distribuindo tapas e tiros. Com a plebe você é o bicho e bota pra quebrar. Quanto mais pobre, mais humilde, mais monstruoso você deve ser. Eis o nosso mantra: Nas elites mansidão, com os pobres monstruosidades.” E com esse treinamento armamos homens e mulheres e os colocamos a nos policiar com a advertência: “lembrem-se, caso vocês sejam denunciados, nós negaremos tudo, diremos que é algo isolado e que não compactuamos com tais ações.”
Na formação policial, é minha impressão, você não pode ser pessoa: ou você é o obediente cão de guarda das elites ou você é o monstro a aterrorizar as periferias.

sábado, junho 27, 2020

MUNDO-PÁSSARO


Por um instante, desvio o olhar da tela do computador
olho para a janela e meu olhar se dá
com o mundo-pássaro
e o que não podia, devido a urgências de um terceiro,
se deixar de ser feito,
pra rodar a ciranda do
dinheiro
perde a primazia
Agora todo o tempo é para a presença
do mundo-pássaro
desse diálogo de olhares sem interesses
e urgências...

CRÔNICA RURAL



O galinheiro por um longo tempo foi comandado por um galo sinistro, que passou o comando para uma galinha de poucas intimidades, sem traquejo a negociatas, que, golpeada, foi substituída por um pavão despenado com apoio de marrecos e patos. Então, correu-se o risco de o galo sinistro voltar, o impediram, mas ele tinha um pupilo. E para evitar o pupilo do galo sinistro, patos e marrecos juntaram-se apostaram num gavião, que não disfarçava querer acabar com metade do galinho e dividir a outra parte com a águia, a quem declarava amores... Agora tem galinha choca arrependida dizendo que não tinha alternativa, “não tinha coisa melhor”. Preferiu um gavião, que fazia elogios ao abutre e declarava inclinações hiênicas, a um franguinho que a essa altura, fosse o eleito, por menos, já estaria impeachmado. No lugar de remédio para sua desfaçatez, ao invés de recitarem mantras, as velhas galinhas tomariam cicuta? Não! Mas de suas instâncias forradas de bom feno e com seus cochos bem nutridos, pareceu-lhes sensato dar voto de confiança a um gavião com arroubos de hiena. As galinhas chocas arrependidas votaram pensando nas próprias penas, e seu arrependimento é só com o gavião que, mostrando-se preocupado em apenas proteger seu ninho, tem sido inepto em acabar, como prometera, com as galinhas de angola e as caipiras, com os galos índios e sertanejos que insistem em ter terreiro e poleiro para ciscar e cantar. Com a entrega do galinheiro para a companhia de caldos, as galinhas chocas, os patos e os marrecos continuam de acordo...  

segunda-feira, junho 15, 2020

RELATOS DE UM PLANTÃO EM DEPOIS DE LÁ



A verdade só pode ser dita nas malhas da ficção. Jacques Lacan

Na noite de 27 do corrente mês, por volta das 20h, fomos acionados para uma ocorrência na região da Tijuca com Higienópolis, na área das grandes habitações. Chegamos à rua Dos Tucanos, número 171, local da ocorrência. Deparamos com uma distinta senhora, que nos atendeu: “graças a Deus vocês chegaram, meu genro surtou: a bolsa caiu dois pontos, o dólar nas alturas... Ele agrediu minha filha...” Enquanto a distinta senhora nos relatava os fatos, o cidadão de bem, genro da distinta senhora, saiu à porta da residência e nos acolheu sustentando em uma das mãos uma pistola semi automática, enquanto puxava a esposa pelos cabelos com a outra. E com toda gentileza de sua classe nos chamou de seus vassalos, chupa saco, coisa e tal e nos questionou com as seguintes palavras: “o que vocês querem aqui, seus merdas?” E em seguida emendou: “vocês são valentes lá nos bairros baixos, aqui quem late e rosna é nóis; aqui vocês balançam o rabo e dão as patas, seus bostas”. Tomando pé da situação reconhecemos que o cidadão de bem não faltava com a razão. Em plena crise a esposa insistia em fazer compras em Miami. Qualquer sujeito perde mesmo a cabeça. Pedimos desculpas por perturbá-lo e Informamos à distinta senhora sua sogra que se ela continuasse a se queixar do genro a levaríamos presa... Reforçando nossos pedidos de desculpas e nos colocando a inteira disposição do cidadão de bem, retornamos à viatura. Pudemos ouvir, ainda, o gentil cidadão dizer-nos: “Isto, vão esculachar uns neguinhos por ai, seus botas, é pra isto que eu pago impostos”. Consideramos, novamente, razoável a fala do distinto cidadão, não entendemos de economia: dois pontos na bolsa, o dólar ao preço que está... Realmente, não há cidadão de bem que não surte.  
Já por volta das 22h10, passando pela padaria “Pavão Misterioso”, para uma tradicional coxinha. Ali, deparamo-nos com Pedro Mata Sem Vê, conhecido chefe de uma boca na redondeza que conversava com um seu associado nos seguintes termos: “tem uns perrengues ai atrapalhando os negócios, uns papos de cursinho universitário, de biblioteca comunitária, umas paradas assim de ocupar a molecada com arte educação..., estas paradas atrapalha os negócio...” Meu parceiro que acompanhava a conversa, terminando sua porção, pediu respeitosamente licença na conversa: “É nosso dever proteger quem movimenta a economia local; quem trás desenvolvimento para a comunidade” e ofereceu nossos serviços para proteger o promissor negócio de Pedro Mata Sem Vê. O distinto cidadão, agradeceu, informando-nos que tinha métodos próprios para lidar com a situação: “Nóis apaga um ou dois tipos e tudo se ajusta!”.   
Deixando a padoca e tomando a Ladeira do Lava Pés nos deparamos com dois tipos suspeitos, pelo modo de andar, as roupas, o estilo de cabelo, mochila nas costas, não pestanejamos, fizemos sinal para que eles parassem. Eles prontamente encostaram à parede e levaram as mãos à cabeça. Logo percebemos que eles estavam acostumados com o procedimento. Meu companheiro já desceu da viatura descendo a borracha e escrachando geral. Pra não ficar no prejuízo, também já desci da viatura descendo a bota. Jogamos os dois no camburão... Rodamos algumas horas com os dois. Desovamos os corpos lá no Almas Perdidas. Depois não vimos mais... Meu parceiro e eu, recitamos passagens da Sagrada Escritura, agradecendo o Bom Deus sua divina proteção e o justo discernimento no enfrentamento da criminalidade... Foi um rotineiro e maçante plantão, o cumprimos com dignidade.

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FAMILIARES PROCURAM JOVENS DESAPARECIDOS NO RETORNO DA ESCOLA... (Diário de Depois de Lá, 29 do mês corrente)