terça-feira, fevereiro 20, 2024
segunda-feira, fevereiro 12, 2024
Da sétima Hilda do Alencastro
Para
Cris Dom e Elvis Almeida
Sabe o
Alencastro do financeiro, boa praça, prestativo, na dele. Então, ontem dei-me
com um casal de amigos, muito próximo do Alencastro. Parece-me que ele é
padrinho de casamento do casal. Não ficou claro. Mas o que interessa é o
Alencastro. Pois, pasmem: O homem está para a sétima esposa. O curioso, no entanto, não é isto. Curioso
foi saber que a atual esposa, como a seis anteriores, se chama Hilda. O cara tem
dom, tem que ser, de encontrar Hildas para se apaixonar, enlaçar-se e,
depois de algum tempo, desfazer o casamento. Meus confidentes confiaram-me que
o cara, além das esposas, chegou a manter, no terceiro e no quinto casamento,
amantes com nome de Hilda. Não tive dúvida, “deixa eu adivinhar: a mãe se chama
Hilda?”, opinei. Nada, nem mãe, nem irmã, nem prima, avó ou tia. Os términos dos
relacionamentos, se dão por banalidades, coisas sem a menor gravidade. Com uma ele terminou porque
ela não sabia o que era um verbo defectível, com outra, porque não memorizou o
Poeminha do contra, do Quintana. Não saber conjugar concernir ou decorar quatro
versos lhe era assaz intolerável. Uma crítica à sopa de legumes da tia,
resultou numa outra separação. O casal de amigos narrava as peripécias amorosas do Alencastro sempre
ressaltando seu zelo pelas esposas. Dava-lhes presentes, era-lhes atencioso,
carinhoso, romântico. Mas, do nada, sem
motivo algum, de gravidade sustentável, rompia tudo,
separava-se. Passava, então, meses, abatido, calado, desleixado, prometendo-se
não mais se apaixonar, enlaçar-se novamente. Mas, não demorava muito, eis uma
nova Hilda. Ainda me atraía a curiosa atração do Alencastro por Hildas. E
especulei um pouco mais. Veio à tona que, o pai era admirador inconfesso de
Hilda Hilst, e a mãe morria de ciúmes da escritora, e descontava seu ódio à
escritora no pobre Alencastro. A mãe rabiscava os livros do pai, arrancava-lhe
as páginas e dizia ser travessura do garoto. O pai enfurecia, colocava-o de
castigo, dava-lhe coro. Certa volta lhe fraturou as costelas. Um dia, o pai
flagrou a mãe adulterando A
obscena senhora D, da
considerada rival. O pai olhou-a com olhar pesaroso, olhou-o com sentimento de
culpa, saiu para comprar cigarros. Dos livros do pai, a mãe fez fogueira e não
queria saber dele envolvido com livros. Alencastro, para não descontentar a
mãe, lia escondido. E o homem lê de tudo: Filosofia, teatro, literatura, bula
de remédio, porta de banheiro, nada lhe escapa. Da Hilst, no entanto, ele não
se aproxima. Mas é ouvir o nome Hilda, que o homem perde a razão e se entrega.
Com a atual ele se deu num espetáculo performativo. Hilda entrou em cena toda
vestida para um baile de gala. À medida que a música assumia o ambiente e
envolvia os espectadores em seu ritmo Hilda ia se desmontando, ora a movimentos
suaves, ora com movimentos bruscos, performando personalidades antagônicas. A
certa altura, já toda nua, com um silêncio ensurdecedor tomando o ambiente,
Hilda com voz firme, exclamativa, rompeu a perturbação que tomava conta dos
espectadores: “Eu sou mulher, porra! Eu sou mulher! Me Chamo Hilda! HILLLLDA! E
eu tenho buceta! Buuuuceeetaaa! Hilda batia decidida a mão sobre sua transgenitalização. Alencastro, diz o casal de amigos, anunciou
para breve a cerimônia de seu sétimo casamento. Pena eu não ter proximidade com
o Alencastro, desejaria muito participar de seu novo enlace. Seja ele feliz!
segunda-feira, janeiro 01, 2024
Eu quero a estrela da manhã
Vi uma estrela tão alta,
Vi uma estrela tão fria!
Vi uma estrela luzindo
Na minha vida vazia.
(Manuel Bandeira)
Todas as manhãs o aeroporto me dá lições
de partida. (Manuel Bandeira)
Há uma estrela inatingível (tão alta),
luzindo indiferente (fria) a existência do poeta à cata de algo que o preencha de
sua vida vazia: “É que ando dentro da vida/ sem vida dentro de mim” (Toada).
Vida que “é uma agitação feroz e sem finalidade [e] traição” (Momento num
café). “Vida cada vez mais cara”, a menor besteira, “nos custa os olhos da
cara” e “todo mundo traz na boca a cinza amarga da frustração” (Saudade do
Rio Antigo). Vida que “é amarga” (Imagem) e “não vale a pena e a dor
de ser vivida” (Antologia). Daí, então, Pasárgada, onde “a existência é
uma aventura”, fundada no desejo de viver “a vida que podia ter sido e que não
foi” (Pneumotórax).
Em Pasárgada, o poeta que diz fazer “versos
de angústia rouca” e “como quem morre” (Desencanto), poderá “ser
como rio que deflui, silencioso dentro
da noite” e “descansar humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei” (Antologia).
Em Pasárgada poderá o poeta amar à vontade a mulher que há de escolher, poderá fazer
ginástica, andar de bicicleta, montar burro bravo, subir pau-de-sebo. Em suma, ter
a vida “que podia ter sido e que não foi” (idem).
O poeta não ignora a distância entre a
Pasárgada idílica e as manhãs em que a “respiração se faz como um gemido” e
tudo ao olhar “toma um doloroso aspecto:/ E erro assim repelido e estrangeiro
no mundo” (Desesperança). Por isso, ainda haverá noites “triste de não
ter jeito” e de “versos de angústia rouca” em que a vontade de se matar se
anunciará: “E enquanto a mansa tarde agoniza,/ Por entre a névoa fria do mar/ toda
a minh’alma foge na brisa: Tenho vontade de me matar” (Felicidade).
“- Ah, como dói viver quando falta a
esperança!” (Desesperança), diz o
poeta a tecer “versos como quem morre” (Desencanto).
“Há muito”, diz o poeta, “o meu coração
está seco” e “a tristeza do abandono,/ A desolação das coisas práticas/ entrou
em mim, me diminuindo” (... Augusto Frederico Schmidt), e “ouço a morte
chamar-me e esse apelo me aterra...” (Desesperança).
Embora tenha vontade, o poeta apazigua
os amigos, “não me matarei, meus amigos./ Não o farei possivelmente” (Canção
suicida), porque a vida, mesmo que não valha “a pena e a dor de ser vivida”
(Antologia) não é toda fel, ela nos afeiçoa de uma “esperança
prometedora” que “segreda coisas irreais” (A vida assim nos afeiçoa). Se
é desalento e amargura, se é traição e ilusão, a vida é também milagre: “A vida
é um milagre./ Cada flor,/ Com sua forma, sua cor, seu aroma,/ cada flor é um
milagre/ Cada pássaro,/ com sua plumagem, seu voo, seu canto,/ Cada pássaro é
um milagre...” (Preparação para a morte).
O que salva o poeta é a arte. E ela “é
uma fada que transmuta/ e transfigura o mau destino” (À Sombra das
Araucárias). Então, ao tênue fio de esperança o poeta se propõe a uma nova
poética: “em cuja poesia há a marca suja da vida” (Nova poética), mas,
também, “pedaços vivos do nosso próprio ser, laços quase impossíveis de romper”
(A vida assim nos afeiçoa). Ele defende que a poesia deve “fazer o leitor
satisfeito de si dar o desespero”, pois “a vida é amarga./ O amor, um pobre
gozo...” (Imagem). E, se “o mundo
é sem piedade e até riria/ Da tua inconsolável amargura” (Renúncia), na
criação poética habita “o menino que não quer morrer” (Versos de Natal). Então o
poeta orienta: “cria, e terás com que exaltar-te/ No mais nobre e maior prazer”
(À Sombra das Araucárias).
Assim, contra o tédio e a vontade de
morrer, o poeta “Prova. Olha. Toca. Cheira. Escuta. [Cria].” E na poesia o poeta espera restabelecer o equilíbrio
perdido, pois é ela sua única solução: “Única solução para o peso dos meus
desenganos,/ Depois de todas as soluções:/ O amor, os seguros, a água, a
borracha./ A poesia voltará de novo, consoladora e boa/ .../ A poesia cairá em
mim como um raio” (... Augusto Frederico Schmidt). E de sua amarga
secura, o poeta proclama: “A poesia voltará de novo ao meu coração/ Como a
chuva caindo na terra queimada” (Idem.).
Então, mesmo às voltas com a “Indesejada
das gentes”: “Aqui eu não sou feliz./ Quero esquecer tudo:/ – A dor de ser homem...”, o poeta retoma o
desejo por Pasárgada e “anseio infinito e vão de possuir o que me possui ” (Antologia).
Em Pasárgada, “tomarei banhos de mar”,
diz o poeta e “nas ondas da praia/ Nas ondas do mar/ Quero ser feliz/ Quero me
afogar” (Cantiga). Idílica e marítima, Pasárgada, onde se pode “esquecer
tudo”, “descansar”, “ser feliz”, “sem ambições de amor ou poder” (Vontade de
morrer) é a saída poética que o poeta encontra para sua vontade de morrer,
adiando, em sua inatingibilidade, um ato, por parte do poeta, de vingança “contra
a condição Humana ... de ser dotado de razão” (Canção de suicida).
Ao poeta não falta, pois, sentido, inteligência,
instinto, coração, para o milagre de um
pássaro em voo, e, em uma rosa solitária,
pendendo de um galho, intuir “a graça essencial .../ Da vida e do mundo” (Eu
vi uma rosa). Mas o poeta anela o além-mundo. Em Pasárgada, seu refúgio
poético, ele vai adiando a vontade de morrer.
Pois bem, Manuel Bandeira viveu 82 anos.
Eu, sem sua estatura poética, meus amigos, prometo, não chegarei a tanto.
Claudio Domingos FERNANDES
Manhãs precipício
Há estas manhãs cinzas e frias,
De gosto insípido
O café tomado a goles rápidos
Elucubrando desejos últimos
Há estas manhãs de tua presença distante
Eu, pela casa, errante
Dando ouvidos à faca e
suas ilações
O abismo abrindo me os braços
Expectando o salto
Há estas manhãs sem canto de pássaros
Sem flores se abrindo
Sem infantes alaridos
Sem compromissos com os amigos
Há estas manhãs que o tênue fio
de um motivo contigo,
retém meu espírito de seu desejo abismal
Há estas manhãs precipício


