Vi uma estrela tão alta,
Vi uma estrela tão fria!
Vi uma estrela luzindo
Na minha vida vazia.
(Manuel Bandeira)
Todas as manhãs o aeroporto me dá lições
de partida. (Manuel Bandeira)
Há uma estrela inatingível (tão alta),
luzindo indiferente (fria) a existência do poeta à cata de algo que o preencha de
sua vida vazia: “É que ando dentro da vida/ sem vida dentro de mim” (Toada).
Vida que “é uma agitação feroz e sem finalidade [e] traição” (Momento num
café). “Vida cada vez mais cara”, a menor besteira, “nos custa os olhos da
cara” e “todo mundo traz na boca a cinza amarga da frustração” (Saudade do
Rio Antigo). Vida que “é amarga” (Imagem) e “não vale a pena e a dor
de ser vivida” (Antologia). Daí, então, Pasárgada, onde “a existência é
uma aventura”, fundada no desejo de viver “a vida que podia ter sido e que não
foi” (Pneumotórax).
Em Pasárgada, o poeta que diz fazer “versos
de angústia rouca” e “como quem morre” (Desencanto), poderá “ser
como rio que deflui, silencioso dentro
da noite” e “descansar humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei” (Antologia).
Em Pasárgada poderá o poeta amar à vontade a mulher que há de escolher, poderá fazer
ginástica, andar de bicicleta, montar burro bravo, subir pau-de-sebo. Em suma, ter
a vida “que podia ter sido e que não foi” (idem).
O poeta não ignora a distância entre a
Pasárgada idílica e as manhãs em que a “respiração se faz como um gemido” e
tudo ao olhar “toma um doloroso aspecto:/ E erro assim repelido e estrangeiro
no mundo” (Desesperança). Por isso, ainda haverá noites “triste de não
ter jeito” e de “versos de angústia rouca” em que a vontade de se matar se
anunciará: “E enquanto a mansa tarde agoniza,/ Por entre a névoa fria do mar/ toda
a minh’alma foge na brisa: Tenho vontade de me matar” (Felicidade).
“- Ah, como dói viver quando falta a
esperança!” (Desesperança), diz o
poeta a tecer “versos como quem morre” (Desencanto).
“Há muito”, diz o poeta, “o meu coração
está seco” e “a tristeza do abandono,/ A desolação das coisas práticas/ entrou
em mim, me diminuindo” (... Augusto Frederico Schmidt), e “ouço a morte
chamar-me e esse apelo me aterra...” (Desesperança).
Embora tenha vontade, o poeta apazigua
os amigos, “não me matarei, meus amigos./ Não o farei possivelmente” (Canção
suicida), porque a vida, mesmo que não valha “a pena e a dor de ser vivida”
(Antologia) não é toda fel, ela nos afeiçoa de uma “esperança
prometedora” que “segreda coisas irreais” (A vida assim nos afeiçoa). Se
é desalento e amargura, se é traição e ilusão, a vida é também milagre: “A vida
é um milagre./ Cada flor,/ Com sua forma, sua cor, seu aroma,/ cada flor é um
milagre/ Cada pássaro,/ com sua plumagem, seu voo, seu canto,/ Cada pássaro é
um milagre...” (Preparação para a morte).
O que salva o poeta é a arte. E ela “é
uma fada que transmuta/ e transfigura o mau destino” (À Sombra das
Araucárias). Então, ao tênue fio de esperança o poeta se propõe a uma nova
poética: “em cuja poesia há a marca suja da vida” (Nova poética), mas,
também, “pedaços vivos do nosso próprio ser, laços quase impossíveis de romper”
(A vida assim nos afeiçoa). Ele defende que a poesia deve “fazer o leitor
satisfeito de si dar o desespero”, pois “a vida é amarga./ O amor, um pobre
gozo...” (Imagem). E, se “o mundo
é sem piedade e até riria/ Da tua inconsolável amargura” (Renúncia), na
criação poética habita “o menino que não quer morrer” (Versos de Natal). Então o
poeta orienta: “cria, e terás com que exaltar-te/ No mais nobre e maior prazer”
(À Sombra das Araucárias).
Assim, contra o tédio e a vontade de
morrer, o poeta “Prova. Olha. Toca. Cheira. Escuta. [Cria].” E na poesia o poeta espera restabelecer o equilíbrio
perdido, pois é ela sua única solução: “Única solução para o peso dos meus
desenganos,/ Depois de todas as soluções:/ O amor, os seguros, a água, a
borracha./ A poesia voltará de novo, consoladora e boa/ .../ A poesia cairá em
mim como um raio” (... Augusto Frederico Schmidt). E de sua amarga
secura, o poeta proclama: “A poesia voltará de novo ao meu coração/ Como a
chuva caindo na terra queimada” (Idem.).
Então, mesmo às voltas com a “Indesejada
das gentes”: “Aqui eu não sou feliz./ Quero esquecer tudo:/ – A dor de ser homem...”, o poeta retoma o
desejo por Pasárgada e “anseio infinito e vão de possuir o que me possui ” (Antologia).
Em Pasárgada, “tomarei banhos de mar”,
diz o poeta e “nas ondas da praia/ Nas ondas do mar/ Quero ser feliz/ Quero me
afogar” (Cantiga). Idílica e marítima, Pasárgada, onde se pode “esquecer
tudo”, “descansar”, “ser feliz”, “sem ambições de amor ou poder” (Vontade de
morrer) é a saída poética que o poeta encontra para sua vontade de morrer,
adiando, em sua inatingibilidade, um ato, por parte do poeta, de vingança “contra
a condição Humana ... de ser dotado de razão” (Canção de suicida).
Ao poeta não falta, pois, sentido, inteligência,
instinto, coração, para o milagre de um
pássaro em voo, e, em uma rosa solitária,
pendendo de um galho, intuir “a graça essencial .../ Da vida e do mundo” (Eu
vi uma rosa). Mas o poeta anela o além-mundo. Em Pasárgada, seu refúgio
poético, ele vai adiando a vontade de morrer.
Pois bem, Manuel Bandeira viveu 82 anos.
Eu, sem sua estatura poética, meus amigos, prometo, não chegarei a tanto.
Claudio Domingos FERNANDES
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