segunda-feira, janeiro 01, 2024

Eu quero a estrela da manhã

 


Vi uma estrela tão alta,

Vi uma estrela tão fria!

Vi uma estrela luzindo

Na minha vida vazia.

(Manuel Bandeira)

 

Todas as manhãs o aeroporto me dá lições de partida. (Manuel Bandeira)

 

Há uma estrela inatingível (tão alta), luzindo indiferente (fria) a existência do poeta à cata de algo que o preencha de sua vida vazia: “É que ando dentro da vida/ sem vida dentro de mim” (Toada). Vida que “é uma agitação feroz e sem finalidade [e] traição” (Momento num café). “Vida cada vez mais cara”, a menor besteira, “nos custa os olhos da cara” e “todo mundo traz na boca a cinza amarga da frustração” (Saudade do Rio Antigo). Vida que “é amarga” (Imagem) e “não vale a pena e a dor de ser vivida” (Antologia). Daí, então, Pasárgada, onde “a existência é uma aventura”, fundada no desejo de viver “a vida que podia ter sido e que não foi” (Pneumotórax).

Em Pasárgada, o poeta que diz fazer “versos de angústia rouca” e “como quem morre” (Desencanto), poderá “ser como  rio que deflui, silencioso dentro da noite” e “descansar humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei” (Antologia). Em Pasárgada poderá o poeta amar à vontade a mulher que há de escolher, poderá fazer ginástica, andar de bicicleta, montar burro bravo, subir pau-de-sebo. Em suma, ter a vida “que podia ter sido e que não foi” (idem).

O poeta não ignora a distância entre a Pasárgada idílica e as manhãs em que a “respiração se faz como um gemido” e tudo ao olhar “toma um doloroso aspecto:/ E erro assim repelido e estrangeiro no mundo” (Desesperança). Por isso, ainda haverá noites “triste de não ter jeito” e de “versos de angústia rouca” em que a vontade de se matar se anunciará: “E enquanto a mansa tarde agoniza,/ Por entre a névoa fria do mar/ toda a minh’alma foge na brisa: Tenho vontade de me matar” (Felicidade).

“- Ah, como dói viver quando falta a esperança!” (Desesperança),  diz o poeta a tecer “versos como quem morre” (Desencanto).

“Há muito”, diz o poeta, “o meu coração está seco” e “a tristeza do abandono,/ A desolação das coisas práticas/ entrou em mim, me diminuindo” (... Augusto Frederico Schmidt), e “ouço a morte chamar-me e esse apelo me aterra...” (Desesperança).

Embora tenha vontade, o poeta apazigua os amigos, “não me matarei, meus amigos./ Não o farei possivelmente” (Canção suicida), porque a vida, mesmo que não valha “a pena e a dor de ser vivida” (Antologia) não é toda fel, ela nos afeiçoa de uma “esperança prometedora” que “segreda coisas irreais” (A vida assim nos afeiçoa). Se é desalento e amargura, se é traição e ilusão, a vida é também milagre: “A vida é um milagre./ Cada flor,/ Com sua forma, sua cor, seu aroma,/ cada flor é um milagre/ Cada pássaro,/ com sua plumagem, seu voo, seu canto,/ Cada pássaro é um milagre...” (Preparação para a morte).

O que salva o poeta é a arte. E ela “é uma fada que transmuta/ e transfigura o mau destino” (À Sombra das Araucárias). Então, ao tênue fio de esperança o poeta se propõe a uma nova poética: “em cuja poesia há a marca suja da vida” (Nova poética), mas, também, “pedaços vivos do nosso próprio ser, laços quase impossíveis de romper” (A vida assim nos afeiçoa). Ele defende que a poesia deve “fazer o leitor satisfeito de si dar o desespero”, pois “a vida é amarga./ O amor, um pobre gozo...” (Imagem).  E, se “o mundo é sem piedade e até riria/ Da tua inconsolável amargura” (Renúncia), na criação poética habita “o menino que não quer morrer” (Versos de Natal). Então o poeta orienta: “cria, e terás com que exaltar-te/ No mais nobre e maior prazer” (À Sombra das Araucárias). 

Assim, contra o tédio e a vontade de morrer, o poeta “Prova. Olha. Toca. Cheira. Escuta. [Cria].”  E na poesia o poeta espera restabelecer o equilíbrio perdido, pois é ela sua única solução: “Única solução para o peso dos meus desenganos,/ Depois de todas as soluções:/ O amor, os seguros, a água, a borracha./ A poesia voltará de novo, consoladora e boa/ .../ A poesia cairá em mim como um raio” (... Augusto Frederico Schmidt). E de sua amarga secura, o poeta proclama: “A poesia voltará de novo ao meu coração/ Como a chuva caindo na terra queimada” (Idem.).   

Então, mesmo às voltas com a “Indesejada das gentes”: “Aqui eu não sou feliz./ Quero esquecer tudo:/  – A dor de ser homem...”, o poeta retoma o desejo por Pasárgada e “anseio infinito e vão de possuir o que me possui ” (Antologia).

Em Pasárgada, “tomarei banhos de mar”, diz o poeta e “nas ondas da praia/ Nas ondas do mar/ Quero ser feliz/ Quero me afogar” (Cantiga). Idílica e marítima, Pasárgada, onde se pode “esquecer tudo”, “descansar”, “ser feliz”, “sem ambições de amor ou poder” (Vontade de morrer) é a saída poética que o poeta encontra para sua vontade de morrer, adiando, em sua inatingibilidade, um ato, por parte do poeta, de vingança “contra a condição Humana ... de ser dotado de razão” (Canção de suicida).

Ao poeta não falta, pois, sentido, inteligência, instinto, coração, para  o milagre de um pássaro em voo,  e, em uma rosa solitária, pendendo de um galho, intuir “a graça essencial .../ Da vida e do mundo” (Eu vi uma rosa). Mas o poeta anela o além-mundo. Em Pasárgada, seu refúgio poético, ele vai adiando a vontade de morrer.

Pois bem, Manuel Bandeira viveu 82 anos. Eu, sem sua estatura poética, meus amigos, prometo, não chegarei a tanto.

 


                                                              Claudio Domingos FERNANDES

 

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