domingo, abril 16, 2023

Brincando com fogo


 

AMANHÃ

 


“A vida é como ela é”

 

Antes de começar este texto, devo confessar que meu desejo é chorar.

A vida não pode ser isto, e não é. A vida deveria ser  desafio a quem nela chega. Desafio de produzir algo próprio, original, único.  Algo capaz de evidenciar a grandeza que pode ter o ser humano. Não, a vida não é como ela é. A vida é o que fazemos dela, o como a colocamos em prática em nossas práticas. A vida é como um barro a espera de um artesão que há de moldá-la. Não é possível que a vida seja esta monstruosidade que ceifa a golpes de machado  quem está ainda aprendendo dar os passos, articular as palavras, reconhecer os laços de afeto que há de carregar consigo no desafio que é moldar-se, dar-se um sentido. A vida é! O como, a forma que assume, somos nós que lhe empregamos.  Não é possível que vamos continuar esta trilha de monstruosidades que estamos tecendo em nossa vida, quando podemos produzir humanidade. Não é possível aceitar esta ferida rasgando-nos na alma, roubando-nos o desejo de vida. Eu não quero viver em um mundo que ante nossa monstruosidade nos responde: “é a vida!” Eu só não queria ter acordado hoje! Eu me recuso a viver em um mundo que se conforma à barbárie. Amanhã, talvez, eu não seja!

Vênus se abrindo


 

TRAGÉDIA ANUNCIADA

 

Quando li “detalhes” da tragédia anunciada – sim é uma tragédia anunciada que pode ocorrer a qualquer momento, em qualquer escola pública ou privada – mas quando li “detalhes” da tragédia de ontem, uma chamou minha atenção e me fez indagar: Por que uma pessoa, aos 71 anos de idade, aposentada, ainda estava em sala de aula ao invés de estar aproveitando a aposentadoria? Um amigo deu uma resposta que muito me agradou: “Ela estava fazendo a diferença na comunidade, na vida daqueles que ela sabe terem necessidade de convívio com pessoas experientes, que podem orientar mostrando caminhos, que sabem que ainda podem contribuir na vida de adolescentes tão carentes emocionalmente e sem perspectivas.” É uma resposta reconfortante. Mas eu disse a ele que, aos 71 anos, a contribuição que se espera de uma pessoa é ela saber viver bem sua aposentadoria. O problema é que nós não podemos, depois de uma vida de contribuição, “fazendo a diferença” na vida das novas gerações, viver com dignidade apenas com a nossa aposentadoria. Se queremos um mínimo de conforto, uma qualquer coisa que denote qualidade de vida, temos que continuar trabalhando, complementando renda. Ontem Elisabete Tenreiro foi vítima de uma violência letal, definitiva. Mas, aos 71 anos, ainda em sala de aula, sofria uma violência silenciosa, disfarçada pelo discurso da entrega a um ideal: “fazer a diferença”. Para não perder qualidade de vida, Elisabete Tenreiro não podia viver só da aposentadoria. Toda outra explicação é ideologia. Para não perder qualidade de vida, perdeu a vida em uma tragédia anunciada.

sábado, abril 01, 2023

FESTA DE SÃO DOMINGOS

 

Foi tia quem contou, em redor da fogueira, depois de as mulheres rezarem terço.

- Foi num outro tempo, quando ainda não tinha a ponte e se dava a atravessar de piroga para ir assistir missa na matriz. Padre, era de quando e quando que vinha de lá pra cá. Em quando de colheita. Então, se preparava batismo, se ajustava casamento, e se fazia missão. Neste tempo, tinha cá padre Domingos. Era – crianças tapem os ouvidos – pecado de homem.

Pe Alípio, que rodeava fogueira com nós, abriu um sorriso cumplice.

- Neste tempo de ontem, tinha cá Maria Rita de formosura sem par. Num morava na vila, não. Morava ali, pra riba da pedra do riacho. Ali, onde hoje se ergue o condomínio, que secou o riacho e devastou a mata. Ali as mulheres lavavam os panos, os meninos as meninas abandonavam-se brincando nas águas. Maria Rita morava ali, num casebre no meio da mata. Era de Maria Rita vir banha-se no riachinho e estender-se na pedra, bem antes de o sol nascer. Era pra evitar olhares de homens indecente. Padre Domingos organizou naquele tempo missão que chamou de Tríduo de Nossa Senhora da Redenção. E veio com ele comitiva de seminaristas e noviços. Armaram tenda ali onde hoje é a igrejinha de São Domingos de Cocullo. Ficaram, por aqui uns quinze dias, assistindo os doentes, ensinando os Evangelhos, ajudando na colheita. Nestes dias Maria Rita não se fez ver, era como se tivesse viajado. No dia em que a missão terminava, Pe Domingos levantou antes do sol. Deu hora das rezas dos seminaristas com Pe Domingos...

-  É as laudes, explicou Pe Alípio...

- Bem era as laudes, e Pe Domingos não se achava. Um dos seminaristas foi acudir de procurar Pe Domingos, e no acampamento e a seu redor não se achava Pe Domingos. E procurando daqui, procurando dali, os seminaristas e noviços se deram com Pe Domingos petrificado la onde era a pedra do riachinho, enrolado a ele uma serpente se escapou mata a dentro, quando os homens vieram acudir os apelos dos seminaristas.  Dai que as mulheres passaram a cantar quando iam ao riachinho lavar os panos, e mesmo já não mais lavando os panos no riachinho, observem, as mulheres ainda hoje cantam nos afazeres domésticos.  

Pe Alípio achava graça da história que tia contava para explicar a imagem de São Domingos de Cocullo, na igrejinha fundada por missionários italianos no Arraial de Mato de Dentro.

- Boa comadre! Mas bem sabes que não é assim, mas tua história nos diverte e ao bom Deus, que nos deu de divertir, não aborrece.   Viva São Domingos de Cocullo!!!

Tio dedilhou a viola, seu compadre bufou a sanfona, tia zuniu o triângulo. Pe Alípio conduziu Maria Rita num xaxado, fechando os festejos de São Domingos de Cocullo.