segunda-feira, setembro 20, 2021

INSUFICIÊNCIA

 


 

Quando me perguntam: “Como você está?”, respondo: “Vivo!” A resposta mais acertada seria: “Infelizmente, ainda vivo!” À minha resposta as pessoas sorriem desconcertadas, elas percebem, devido o animo que aplico a “vivo”, o “infelizmente” que omito. Estar bem, que é a resposta que as pessoas esperam à pergunta: “como você está?”, neste mundo não é possível.  É preciso frieza, indiferença, insensibilidade, falta de empatia, incredulidade, mesquinhes, para se estar bem, para dizer-se bem. Bem est devem estar os mortos, pois nada sentem, nada percebem.  Sair de casa me é angustiante, a realidade bruta sufoca-me. Não é possível passar sem incômodo por corpos estendidos pelas calçadas, causa-me desconforto os corpos abatidos, os olhares tristes, cansados, desalentados de jovens e idosos entregando-se a trabalhos precários, dói-me a horda de desempregados fazendo do bico empreendimento. É impossível fazer-se surdo às narrativas de dor, lamento, sofrimento de pedintes. Entro no ônibus, tomo meu assento, o ônibus parte. Numa parada de seu trajeto, entra, pela porta dos fundos, uma senhora de 25, 30 anos: a imagem é essa. Ela tem uma criança no colo. Após uma longa saudação e repetidos de desculpa, por “estar atrapalhando a viagem de vocês”, fala de suas mazelas, do marido desempregado, do outro filho sob guarda judicial, da doença que a acomete, da falta do gás, do leite para a criança, que também sofre algo complexo. E apresenta atestados médicos. A criança é, de fato, subnutrida, nota-se também o descuido higiênico. A meu lado, a estupidez humana manifesta-se: “Na hora de parir não precisou de ajuda... Tivesse lavando um tanque de roupa”. Desço do ônibus, o estomago em revolta, continuo meu destino a pé, atravessando a rua sem me dar conta de faixa ou sinal, “ser atropelado não seria nada mal” Chego a escola, entro na sala de aula, já não tenho o que ensinar. Ensinar é suscitar desafios, despertar sonhos, projetar esperanças.  Eu sou apenas desejo de não ser. Abandono os alunos em outras atividades. O desconforto aumenta, me condeno: “não sou professor suficiente!”

MENINA QUE CONTEMPLO NA IMAGEM


 

sexta-feira, setembro 17, 2021

COMPANHEIRO DE VIAGEM

 

Tomo meu assento no ônibus e aguardo a partida. Ao meu lado um entabula uma conversa: “como eu estava dizendo, o Pedro não tem perfil”. Olhei para ele sem entender do que se tratava, fiz cara de incompreensão e estranhamento. “A Maria, da pesquisa, aposto nela... Acho que ela não vai querer. Tem que viajar, ela tem os filhos.” Dei por entender que o sujeito não falava comigo, mas consigo mesmo. “Eu não vou com a cara do namorado da Patrícia, sabe, ele tem um jeito de me olhar que me encabula, parece que me está despindo. Outro dia, me convidou para acompanha-lo no banheiro. Eu sou muito amigo da Patrícia.” Cutucou-me o ombro: “O Afrânio também não vai, ele não quer dar de cara com a Marta e o novo namoradinho dela. Namoradinho mesmo, parece um bebe, deve ser uns vinte anos mais novo. Podia ser filho dela. O Afrânio tá que se perde na bebida.” O ônibus finalmente deu sinais de partir: “Adalberto”, dirigiu-se ao motorista, “por favor, me deixa no ponto do Caruzzo, e pode ir com calma, hoje eu estou bem adiantada.” “Mas como eu estava, dizendo,” retomando a conversa consigo mesmo, “o Pedro não tem perfil... Eu não quero ser cafajeste com a Patrícia, mas aquele namorado dela...” No Caruzzo eu desci,  percebi estar só.   

terça-feira, setembro 14, 2021

CRINGE

 


Perdi-me em teus esverdeados olhos

Nas formas de teus lábios em

Cobre suave

Esboçando um sorriso tímido

Atabalhoei-me em tua titubeante voz

Inquirindo-me:

“Moço, em que direção está a Paraíso?”

“Ante meus olhos”

Cringe, respondi-te.

domingo, setembro 12, 2021

OS 80 ANOS DE VÓ

 

As tias vieram para os 80 anos de vó. Chegaram na sexta-feira, logo depois do almoço. Tia Augusta se instalou com as primas Regina, Maria Célia e Ana Luiza em casa. Tia Ângela se instalou com a prima Semilda e o primo Antônio na casa de tia Almerinda. Os tios, por força de trabalho, chegariam no sábado tardinha. Já, sexta-feira, então, fazíamos festa. Na noitinha, tia Almerinda acendeu fogueira, assou broa, preparou canjica e pipoca. O quintal era que pura algazarra. As mulheres entre risos e gargalhadas, em torno de vó, já a festejavam com relatos do passado. Pai, tio Augusto, Toninho, de tia Almerinda , seu Jarbas, nosso vizinho, jogavam palitinho e comentavam a vida. Nosso alarido correndo pelo quintal e em torno da fogueira era sem igual. A noite de céu estrelado de lua crescente, o clima primaveril ajudavam. Entre tantos rumores de falas e de nossa algazarra, prima Semilda e o primo Luiz, só Deus sabe onde se enfiaram. Foi só quando tia começou a “levantar tenda”, como ela dizia, que se deu falta deles e eles apareceram, sorrisos envergonhado nas fuças. Sábado, cedinho, pai tio Augusto saíram ao matadouro. Foram em busca do leitão que as mulheres preparariam para o almoço de domingo. Também, cedo, as mulheres se colocaram a arrumar a casa, a polir talheres, a macerar temperos, despenar galinhas, preparar os doces. Nós fomos acordando conforme a divina graça. O mais atrasado foi primo Antônio, de tia Semilda, que só se levantou por hora do almoço. Depois do almoço, depois que as tias retomavam as fainas para o almoço de domingo, e pai e tio Augusto, e depois os tios Vicente e Januário, que chegaram, ajeitavam o quintal e montavam a tenda. As primas Regina e Maria Célia com minha irmã Celina e Margarida de ti Almerinda, preparavam enfeites e mexericavam umas das outras festivas.  O primo Antônio e o primo Toninho foram à cidade para as bebidas. As crianças continuavam o corre-corre pelo quintal, de tudo brincando. O sábado acabou com nova fogueira, com moda de viola e causos de tia. O domingo começou com um lauto café: frutas variadas, queijos, salames, broa, pão de queijo, sucos de laranja, caju, acerola. Para o almoço vieram outros tios e tias, outros primas e primos e se estendeu horas.  A cama de vó se cobriu de mimos. Veio o bolo e discursos emocionados de tios e tias que, ressaltando imagens jocosas de infância e revelando características e virtudes de vó, demonstravam carinho e gratidão.  Vó derreteu-se em lágrimas e a todos agradeceu com uma de suas pérolas: “uma mãe não deve chorar na frente dos filhos se não for de orgulho pelo que se tornaram. Agradeço a Deus por ter filhos e filhas que me são motivo de orgulho.”