Em Tomânia, Hynkel, ditador de plantão, é confundido com um barbeiro e é preso em seu lugar. O barbeiro, por sua vez, para não ser preso, se faz passar pelo ditador. E na figura do ditador faz um célebre discurso: “[...] As nuvens estão subindo, o Sol está abrindo caminho! Estamos fora das trevas, indo em direção à luz!" Mas isto foi em Tomânia, onde havia um barbeiro genial. Aqui em Tupinambá não houve confusão, o próprio nefasto em exercício se fez representar por um bufão, o que há em comum entre os dois não é a semelhança física, mas a escassa inteligência e uma plateia cativa com um peculiar orgulho da própria ignorância. Em Tupinambá falta um gênio e as nuvens estão longe de se dissiparem. Em Tupinambá se caminha em direção a trevas profundas.
quarta-feira, março 04, 2020
sexta-feira, fevereiro 28, 2020
O SENTIDO DE NOSSO EXISTIR É TORNAR-NOS HUMANOS
A humanidade não é algo já
dado, é um vir-a-ser. Homens e mulheres nascem e se constituem como promessas
lançadas ao futuro. A humanidade é uma conquista, não um ponto de partida. De
tal modo, homens e mulheres, promessas de uma humanidade a ser construída,
nascem condenados a criar e saber de sua própria humanidade, produzindo um mundo
menos desigual, menos expropriador de nossa vida, de nossas alegrias, de nossas
esperanças, indo além de si mesmos, se superando. Penso numa humanidade que
agrega, aproxima, inclui, que acolhe, reparte e distribui ao invés de acumular
avidamente e consumir-se, consumindo compulsivamente.
Criar é o modo continuo de
homens e mulheres contraporem-se à desumanização... Criando, homens e mulheres
interferem no mundo, transforma-o, interferem em si mesmos, humanizam-se,
impondo-se uma ética, dando-se um sentido, um significado, um valor.
Homens e mulheres se humanizam
aprendendo a interpretar a si mesmos e ao mundo, sabendo-se inter-relacionados
uns com os outros, com o mundo e assumindo o cuidado consigo, com o outro, com
o mundo.
Homens e mulheres que não
buscam conhecerem-se, conhecer uns aos outro, conhecer o mundo, se deixam
dominar por uma má consciência, em que o calculo e o interesse aliam-se aos
excessos do ter pelo ter e do consumir-se no consumir.
Os excessos do ter pelo ter e
do consumir-se no consumir amesquinham-nos e barram-nos a constituição de um
saber-nos de nós mesmos e dos saberes necessários para o desenvolvimento de
nossa humanidade que não se produz a sós mas no convívio com os outros.
Se à humanidade se chega,
ela é a identidade de uma coletividade, não é o perfil de um indivíduo. Quanto
mais gritante é a distância entre os membros de uma comunidade, menos humana
ela é. De tão gritante que é a desigualdade entre nós, beiramos à barbárie.
domingo, fevereiro 23, 2020
sexta-feira, fevereiro 21, 2020
CONHECE-TE A TI MESMO
“Todos os seres humanos compartilham a
capacidade de se conhecer a si mesmos e de se pôr em seu são juízo” (Heráclito)
A frase “conhece-te a ti mesmo”
encontrava-se na entrada do Oráculo de Delfos, local dedicado a Apolo, deus
grego da luz e do sol. Nele encontrava-se a suprema sacerdotisa (Pítia) que, em
estado de transe, transmitia as vontades dos deuses. E exercendo, pois, o papel
de ligação entre os deuses e a humanidade, Pítia exercia uma enorme influência
em decisões políticas, já que governantes de varias regiões recorriam a ela a
fim de receberem orientações acerca de suas ações.
Segundo explica Zózimo de Ítaca, a
frase “Conhece-te a ti mesmo” à entrada do Oráculo de Delfos, orientava o
visitante a examinar-se bem antes de consultar a sacerdotisa, não fazendo-a
perder tempo com perguntas supérfluas ou superficiais.
Um ateniense, chamado Sócrates, foi ao
santuário consultar o oráculo. Diziam os atenienses que ele era um sábio, e ele
desejava saber o que significava ser sábio. O oráculo, na pessoa da
sacerdotisa, perguntou-lhe: “O que Sócrates sabe?”. Ele respondeu: “Só sei que
nada sei”. Então o oráculo exclamou: “Sócrates, por saber que não sabe, é o
mais sábio de todos os homens.”
Desde este evento, a frase “conhece-te
a ti mesmo” é atribuída à filosofia socrática, pois Sócrates ensinava-a
acrescentando que “uma vida não examinada não merece ser vivida”. O interesse
de Sócrates fora sempre a de encontrar meios para se viver uma vida mais
autêntica e feliz. A seu ver, conhecer-se é o ponto de partida para tal vida.
Na concepção de Benveniste, o
conhecimento de si exige e pressupõe o outro, isto é: “a consciência de si só é
experimentada por contraste. Eu não emprego eu a não ser dirigindo-me a alguém,
que será na minha alocução um tu” (BENVENISTE, E. Problemas de Linguística Geral I. Campinas/SP: Ponte. 1988, p. 286).
Assim, “ninguém pode conhecer a si mesmo, porque ninguém aparece para si mesmo
como aparece para os outros” (ARENDT, H. Responsabilidade
e Julgamento. São Paulo: Companhia das Letras. 2004, p. 69).
De Benveniste e Arendt chegamos a
entender que sem a presença de outra pessoa, a consciência de mim não poderia
surgir. E se “para uma coisa existir ela
precisa ser nomeada”, não existe o eu sem que não tenha sido nomeado. Não há,
portanto, “consciência sem contribuição exterior. Eu me faço graças aos
outros... [E] eu é o conjunto dos vínculos que vou tecendo com os outros”
(JACQUUARD, Albert. Filosofia para
não-filósofos, respostas claras e lúcidas para questões essenciais. Rio de
Janeiro: Campus. 1998, p. 17;18). Assim eu só conheço a mim mesmo em contato
com os outros, e sem a contribuição minha com os outros não há vida autêntica e
feliz como Sócrates procurava...
segunda-feira, fevereiro 17, 2020
JESUS DA GENTE FILHO DE MARIA DAS DORES BRASIL
Narra o evangelista Marcos que
“Jesus saiu com os seus discípulos para as aldeias de Cesaréia de Filipe, e
pelo caminho perguntou-lhes: "Quem dizem os homens que eu sou?"
Responderam-lhe os discípulos: "João Batista; outros, Elias; outros, um
dos profetas". Então, perguntou-lhes Jesus: "e vós, quem dizeis que
eu sou?". Respondeu Pedro: Tu és o Cristo" (Marcos 8, 27-29). Em
Mateus (16, 16) a resposta de Pedro é mais contundente: “Tu és o Cristo, o
Filho do Deus vivo”.
“Desde então, Jesus começou
a manifestar a seus discípulos que precisava ir a Jerusalém e sofrer muito da
parte dos anciões, dos príncipes dos sacerdotes e dos escribas; seria morto e
ressuscitaria ao terceiro dia.” (Mateus 16, 21). E “se me perseguiram, também
vos hão de perseguir.” (João, 15, 20).
"E vós, quem dizeis que
eu sou?".Vinculada à nossa realidade presente, de milhares de Josés
desempregados, e tantos Evaldos1 cravejados, a Estação Primeira de
Mangueira trará à Marques de Sapucaí o samba enredo: A verdade vos fará livre, desfila uma resposta ao questionamento do
Cristo. E em sua resposta desenha o rosto esquecido do Cristo: “rosto negro,
sangue índio, corpo de mulher”, o Cristo que aparece nos corpos oprimidos da
história. O Cristo da Mangueira é o Cristo que não exige conversão ou cobra
dizimo, em seu amor “não há fronteiras”. Filho de Maria das Dores Brasil, “enxuga
o suor de quem sob e desce a ladeira”.
Modestamente a Mangueira
anuncia seu samba como uma reza, mas não, não é uma reza; é a Boa Nova como a
muito não se anunciava: “Não há futuro sem partilha.”
E contra “os profetas da
intolerância”, arrecadadores de dizimo, cultuadores do Messias de arma na mão,
inventores de mil pecados que justificam a opressão e a exploração do povo,
valendo-se de seus privilégios, a Mangueira canta o Jesus da Gente, o Jesus que
anda pelos morros, pelos guetos, pelas periferias do Brasil e do mundo e se faz
reconhecer no que está com fome, no sedento, no privado de liberdade: “tive
fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber, era peregrino e me
acolhestes; nu e me vestistes; enfermo e me visitastes; estava na prisão e
viestes a mim...” (Mateus 25, 35-36).
No samba enredo da Mangueira
não há desrespeito ou agressão ao Cristo. O atentado contra Cristo não está em
representá-lo como mulher, como negro, como índio ou folião desfilando com os
seus. O atentado contra Cristo está na violência contra a mulher, na violência
contra os povos nativos, contra as comunidades quilombolas, na violência contra
aqueles que não congregam em nossas igrejas e templos... Cristo não frequenta
grandes templos, Cristo não frequenta palácios, “de peito aberto, de punhos
cerrados” está nas “fileiras contra a opressão”.
Os religiosos podem ficar
tranquilos, o Cristo da Mangueira não é o Cristo de suas teologias acumuladas
de rancor contra o pobre, o Cristo que a Mangueira trás para a Sapucaí é
justamente o pobre que nossas tradições religiosas e nossos podres poderes abandonaram.
O samba enredo da Mangueira não é uma reza: é revelação. Um Deus encarnado pobre,
para os rapinadores da fé é loucura. Eles não sabem que “a esperança brilha
mais na escuridão” e que o Cristo não ressurge nos altares de suas igrejas e
templos; ressurge “no cordão da liberdade”, pois quis identificar-se com quem
padece, com quem sofre os desafios da fome, da sede, da nudez, do
encarceramento, da humilhação, da negação à saúde, educação, moradia, vida em
plenitude.
Mangueira, tenha esperança,
haveremos de pegar a visão: “Não existe
futuro sem partilha, nem Messias de arma na mão”
1-
Em abril de 2019, uma ação do Exército matou
o músico Evaldo dos Santos Rosa em Guadalupe, na Zona Norte do Rio, na véspera.
O carro onde estava o artista e a família foi fuzilado com mais de 80 tiros.
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