Em
qualquer disputa eleitoral, seja para o grêmio da escola, seja para sindico do
condomínio, seja para representante da turma na comissão de formatura, o
sujeito não é candidato de si mesmo. Ele representa determinados interesses de
um determinado coletivo. A representação política é representação de um
coletivo e de suas concepções de governo. Um candidato não fala de si, nem por
si, ele fala em nome de um grupo que o indica e que sustenta sua campanha. Ele
não precisa entender de coisa alguma: economia, saúde, educação, segurança etc.,
ele precisa encarnar concepções de como governar e para quem governar,
concepções respaldadas por quem o indica e sustenta sua campanha. Então me
interessa pouco o que o sujeito, enquanto indivíduo, pensa sobre economia, saúde,
educação. Interessa-me, mais, saber quem apoia e sustenta sua campanha. Por
exemplo, o sujeito fala: “vamos investir em saúde”, interessa-me saber se ao
lado dele está representantes da saúde popular, ou a Amil. Se um candidato declara: “Vamos priorizar a
Educação”, interessa-me saber o que os educadores pensam dele, o que as
empresas de educação pensam dele. Se o candidato diz: “Vou rever a taxa de juros”,
eu quero saber se há bancos investindo em sua campanha. Então, não me importa
se, num debate, o candidato fala uma idiotice qualquer, me interessa saber quem
o indicou e quem sustenta sua presença ali, no espaço de debate e respalda sua
fala idiota. Eu não voto num sujeito, eu voto numa concepção de mundo, de ser
humano, de governo, de política. E digo logo que estou mais à esquerda...
domingo, agosto 12, 2018
domingo, julho 22, 2018
A CASA VERDE DA RUA TANGARÁ
Para Maria Fernanda,
Laura, Victor e Tales
Já
quase chegando à pousada, notamos a casa verde da Rua Tangará. Chamei a atenção
das crianças, de minha companheira e sua mãe para seu aspecto arquitetônico que
destoava das demais edificações do local. A preocupação em chegar à pousada e
se desfazer das malas e do cansaço da longa viagem fez com que as crianças e as
mulheres desdenhassem minha observação. Uma
vez aliviados das bagagens e do cansaço, após um banho relaxante, uma refeição
restauradora e um merecido repouso, programamos nosso roteiro de exploração da
cidade indicando os pontos de interesses de uns e de outros. As crianças
queriam o mar, a companheira as trilhas, eu a cidade antiga. E foi na volta de
um de nossos passeios do dia seguinte que o um dos meninos notou: “só um cego
não perceberia que esta casa esta fora de lugar, ela não combina nada com as
casas locais, ficaria bem na cidade antiga”. “No entanto”, comentou uma das
meninas, ela está melhor conservada que as demais casas, algumas, aliás,
parecem abandonadas”. O que chamou-nos,
porém, mais atenção foi algo que na primeira noite, devido o cansaço da viagem,
não pudemos perceber: o latido de um cachorro misturando-se ao som lacônico de
um violino. Fazíamos relatos de nosso primeiro dia de excursão, havíamos feito
um passeio de escuna visitando algumas ilhas locais, as crianças puderam
mergulhar em uma praia paradisíaca, as mulheres caminharam se maravilharam com
a paisagem, eu aproveitei para fazer alguns ensaios fotográficos. Então conversávamos
animadamente, o mais novo cochilava, uma das meninas agarrou-se ao celular como
quem perdendo o ar agarra-se à máscara de oxigênio, quando os latidos e o som
de violino invadiu a noite e a acompanhou por longo tempo. Na manhã, enquanto tomávamos
café e organizávamos a jornada, faríamos uma trilha de pouco mais de três quilômetros
para encontrar uma praia paradisíaca, o senhorio nos cumprimentou,
desejando-nos uma boa jornada. Aproveitei para indagar-lhe sobre o som de
violino. “Ahh”, respondeu-nos, “vocês também ouviram o lamento do velho Eurípides!”
E narrou-nos a seguinte história. “Eurípedes é um antigo morador do Caboré,
nasceu aqui dizem os mais velhos. Morava na casa verde, vocês a devem ter
notado, vivia só com um cão guia. Era professor de música. Dizem que perdera a
visão durante uma sessão de tortura nos anos de chumbo, foi quando perdeu a
esposa e o filho que estava para nascer. Foram presos durante uma manifestação
de caiçaras. Ele foi encontrado nu, pintado de vermelho e cego. Da esposa, do
filho, nunca mais se soube. Desde aquela época ele costumava, nos fins de noite
tocar esta sonata. Dizem ser de um tal Stravinsky, e chamar-se Requiem Canticles. Mas eu digo costumava,
porque, há três ou quatro anos, vieram umas pessoas ai visitá-lo, diziam ter
noticias de sua esposa e do filho. Depois disto, não o vimos mais. O fato é
que, desde então, um ou outro turista, como vocês, relatam ouvir o cão guia e a
sonata, mas, desde que o levaram, a casa verde está vazia...” Observei ao
senhoril o mesmo que uma das meninas havia observado: “a casa parece-me melhor
conservada que as ao seu redor, que parecem, estas sim, abandonadas”. “Este é
outro mistério que envolve esta casa e o velho Eurípedes”, respondeu-me o
senhoril, desejando-nos novamente um bom passeio: “aproveitem o passeio, o dia
está formidável!”. Foi uma aventura por
dentro da serra, um percurso de três quilômetros, um caminho de mata fechada,
uma trilha íngreme e tortuosa, uma praia, um mar, recompensadores. Voltamos extenuados,
mas plenos. As crianças, mal comeram, tombaram. Eu também, deixando as mulheres
acompanhando o telejornal local, caí logo no sono. A certa altura, porém, os
latidos e os sons do violino de Eurípedes invadiram nosso aposento
despertando-me. Levantei-me, sem despertar a companheira, verifiquei as
crianças também em profundo sono, assim como a mãe de minha companheira, e decidi
ir ter com o velho professor. Deixei a pousada, era por volta de duas da manhã,
e dirigi-me à casa verde. Toquei a campainha, uma sombra aproximou-se da janela
e fez gesto para eu entrar. O portão destravou-se e a porta era já aberta.
Entrei... Ainda estou atônito: a ossada do cão guia ao lado do esqueleto do
músico segurando o violino em posição de quem o está tocando, ainda estão
impresso em minha retina. A polícia local abriu inquérito para saber as
circunstâncias e causa da morte do velho Eurípedes. “Pensávamos que ele havia
partido com os que vieram visitá-lo anos atrás”, comentou o senhoril da
pousada, quando acertamos a conta de nossa estadia.
sábado, julho 21, 2018
quinta-feira, julho 12, 2018
Eu quero me encantar com a política
Com o passar dos anos, com as experiências de vida, os estudos, os conhecimentos adquiridos, as relações constituídas, deveríamos ir perdendo a ingenuidade, tornando-nos mais capazes de compreender os fatos e acontecimentos, tomar diante deles posições críticas e criteriosas. Mas com a perda da ingenuidade, não podemos deixar de manter a capacidade de encantamento, de se surpreender, de dar espaço à espontaneidade e o inusitado. A falta de encantamento, de abertura ao inusitado, ao espontâneo, ao que não precisa de explicação apenas de fruição, não nos torna menos ingênuos, nos torna ou deterministas ou fatalistas ou indiferentes: nada nos surpreende, nada nos interessa, tudo é assim mesmo. Provoca, também, frustrações, rancores, amarguras. O Face tem se tornado um espaço para nossas amarguras, nossas frustrações e rancores. Tenho acompanhado grupos e amigos que empenham suas capacidades de analise críticas não para estabelecer um debate que nos abra a novas possibilidades, mas apenas para destilar ressentimentos e rancores. A política, meus amigos, deveria ser a arte de construir espaços de convivência onde singularidades, e não vaidades, dão razão de ser ao mundo. Tudo é política, mas o tudo não é totalidade, essa brecha que me permite saborear um sorvete com meus filhos, sem estar lhes parlamentando o quanto de vidas exploradas tem nele. E vendo meus meninos correndo atrás de uma bola me pergunto: “quem não sonhou ser um jogador de futebol?” (Skank). Assim, embora eivada de política “é emocionante um partida de futebol”. Sem ingenuidade eu entendo as implicações políticas e econômicas que envolvem uma partida de futebol, mas agora eu quero apenas me encantar com uma bela partida de futebol. Não curte futebol, tudo bem, vá ao teatro, ao cinema, leia um livro, ouça música, transe. Mas vá desarmado, a política se imiscui ai também. Eu quero e luto por um país outro, mas agora eu quero apenas me encantar. Não foi desta vez, será no Qatar!
quinta-feira, junho 28, 2018
ENQUANTO A BOLA NÃO ROLA
Está rolando um bolão aqui na repartição, e, enquanto nos preparamos para acompanhar a partida, o assunto é a troca-transferência de funcionários de um setor para outro. E para explicar a eficácia de tal procedimento, um graduado narrou a história que segue.
“Em uma época remota, em um lugar insólito, um certo tipo tinha dois carros em sua garagem com um mesmo e peculiar desajuste mecânico: baterias arriadas. Certo dia o sujeito acordou disposto a ajustar os carros e, por garantia, consultou um mecânico. O mecânico orientou-o a recarregar as baterias e, em último caso, trocá-las. “Era obvio”, pensou o tipo, que optou pela troca das baterias. Mas qual? Feita a operação, nada de os carros funcionarem. O tipo praguejou os mais obscenos impropérios contra o mecânico. Bufando contra sua ineficiência, acionou-o indignado. Após rápida inspeção nos veículos, o mecânico observou: “meu senhor quando eu vos orientei a trocar as baterias, eu entendia dizer por baterias novas e não de um carro para outro.”
Vamos ao jogo...
Vamos ao jogo...
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