terça-feira, junho 12, 2018

Anthuérpia de Assunção Ramires



Anthuérpia de Assunção Ramires, a terceira e a mais longeva das doze filhas de coronel Ramires, passou em seus aposentos a maior parte de sua fugaz existência. Tia a assistiu em seus últimos anos e, com vó, fazia-lhe unguentos, banhos e rezas para lhe tirar quebranto. Certa vez as acompanhei. Castigo por espiar as formas de prima por entre frestas e buracos de fechadura...
A menina era magríssima, olhos desalentados, esbugalhados, a pele pálida de veias esverdeazuladas, cabelos corrediços esbranquecidos, a voz lhe sumia entre tosses e o sangue que cuspia numa vasilha de prata. Deixei-a aturdido, com uma forma de angústia que me rodeia até hoje. Seu passar foi um acontecimento no arraial. Coronel mandou trazer ataúde da cidade todo forrado em cetim, encomendou vestido de noiva a Dona Zé, e exigiu os ofícios presididos pelo bispo em pessoa.
Preparava-me para as confissões. Apareceu-me com sua figura pálida no vestido de noiva. Creio que cheguei ao tom de sua palidez. Por um instante o coração pareceu-me não responder, suei e molhei-me todo. Ela sorriu-me um sorriso sem brilho, os olhos esbugalhados envolviam-me. Sussurrou em meus ouvidos sua voz fugidia: “não há lugar para mim em parte alguma, nem na morte”...
Deixei a igreja vertiginoso. Fiquei dias abismado. Vó recorreu às suas rezas e quebrantos. Depois de um período longo de mudez, expliquei a tia o acontecido. Tia mandou rezar missa para as almas do purgatório. Nunca mais soube o que é dormir sem sobressaltos.
De recente, voltando da caminhada matinal, resolvi sentar próximo ao lago, debaixo de uma mangueira, e acompanhar o nado descompromissado de um grupo de patos: “Enterraram-me viva”, senti aquela voz característica sussurrando em meus ouvidos. Fiquei atônito, subiu-me um calafrio, desfaleci. Acordei no pronto socorro.
Enquanto espero ser liberado, folheio o Correio de São João de Curvelo, que entre outras curiosidades informa: “durante a exumação de uma antiga filha da cidade, pertencente à família dos Ramires, notou-se que a posição do corpo não correspondia à posição original, como se o mesmo tivesse se movido”. Telefono imediatamente para tia: “A bença tia! Como é mesmo aquela oração pras almas do purgatório?”

domingo, junho 10, 2018

SEM TI, NÃO SEI SER




Carta à amada que foi à padaria comprar pão e leite.

Flor de minha existência,

Estou aqui navegando de um site a outro, correndo intermináveis vezes minha timeline, coferindo emails e zaps. Procurando te encontrar, querendo te falar; sonhando o beijo que de ti eu espero para eu voltar a ser.
Eu preciso te dizer: sem tua presença aqui eu não sei ser.
A tua ausência me faz perdido; essa angustia que me assalta..., perco a paz.
Coloco no Youtube e fico a ouvir canções que narram nossa história, repito a exaustão aquela canção que lembra nosso primeiro encontro, o desajeito do primeiro beijo, as promessas de não nos deixar.
"Não adianta nem tentar me esquecer/ Durante muito tempo em sua vida/Eu vou viver..."
Nós dois, corpos colados, a dançar.
Procuro no celular tua imagem, quem sabe uma mensagem. Tem essa de nosso último passeio. Teu sorriso me aquece, por instantes me esqueço: Eu sou!
Fique sabendo que eu não sei ser sem tua presença, sem teu sorriso é tudo insípido, cinza-frio...
Se não voltas, vou sair; perder-me por aí, fugir desta tua ausência que me desestabiliza.
Não me canso de falar que te amo. Além de ti nada mais me interessa.
Esta dependência de ti é insana, eu sei! Não é amor, é loucura!
Vou te procurar. Não suporto ficar aqui a te esperar, sofro tanto não sei ser.
Quero ouvir tua voz, contemplar teu sorriso, o brilho de teu olhar. Quero jogar-me em teus braços e sentir o pulsar de teu coração, deixar-te me afagar.
Quando estou perto de ti, esqueço-me de mim. Esquecendo-me: Eu sou! E se fico um só momento distante de ti eu não sei ser. Meu mundo é insípido, um cinza-triste, sem você aqui...
Eu não sei me libertar desta loucura que é não saber viver em tua ausência. Se você demora mais um pouco, eu fico louco à beira de me perder.
Volta logo, meu amor, já não consigo mais te esperar. Não vejo a hora de te abraçar, roubar-te um beijo que ponha fim à minha exasperação.

quarta-feira, maio 30, 2018

O PADASTRO


Quando pai passou, veio o padrasto. Foi chegando aos poucos. Trazia flores pra mãe, doces para nós. Fazia pequenos reparos na casa. “A casa”, dizia, precisava de um homem. Mãe cedeu e ganhamos o padrasto. A lua de mel durou pouco. O sujeito passou a não ter hora para chegar, geralmente estava alcoolizado, descia o cacete em nós e em mãe. Um dia se engraçou pra cima da mais nova. Mãe se resignava, “a menina era levada e tinhosa, ele era homem”. Não demorou muito, engravidou a primogênita, que foi expulsa de casa. Vivia de bicos e da exploração de mãe que mantinha a casa como diarista. Para termos um pouco mais de dignidade, fomos vender balas e sorvetes em faróis e composições da Companhia Paulista de Trens. Mas tudo que ganhávamos, ia para suas mãos. A mais nova entrou na vida. A preferida de mãe associou-se a um grupo de delitos. “Esta família é uma vergonha, aonde vim amarrar meus burros”, dizia, enquanto nos extorquia e humilhava mãe. Um dia envolveu-se num negócio mal explicado, para não ser preso desapareceu. Enquanto ficou fora, fomos nos organizando, e íamos, aos poucos, nos ajustando. Seu fantasma, no entanto, sempre rondou-nos, e numa certa tarde, como se nada tivesse acontecido, ele se apresentou. Trouxe flores e uma cesta básica. Encontramos forças, nos apoiamos e não o permitimos ficar. De quando em quando, a caçula, que nasceu pouco antes de ele ser preso, defende sua volta. Segunda ela, com ele “éramos uma família”; que “precisamos de um homem na família, para sermos respeitadas e ter segurança”. E por mais que lhe mostremos as marcas em nosso corpo, e de nossa mãe, ela não acredita. O pouco que nós temos hoje, aos olhos da caçula, é devido a nosso padrasto. Mas ela pensa assim por influência da primogênita, que hoje, sabemos, mesmo expulsa de casa, não deixou de ser acolhida por ele, que lhe deu uma vida de ‘rainha’, extorquindo-nos; que o tempo em que ele esteve ‘fora’, era por ela sustentado...

sábado, maio 12, 2018

O ESTRANGEIRO


Terezinha estendeu a mão à cigana. Esta, entre dentes dourados, vaticinou: “terás oito filhos, o terceiro é melhor não tê-lo”. Terezinha, não entendendo o enigma, desdenhou e riu. A cigana, ofendida, emendou como praga lançando: “sete flores, um espinho, eis teu destino”. Terezinha deu-lhe uma moeda, seguiu seu caminho. O tempo passou, com ele as palavras da cigana fizeram-se destino. Terezinha teve oito filhos. Homens e mulheres em igual número os teve. O terceiro, ao contrário dos demais não nasceu. Tal qual exilado, foi ao mundo lançado. Como a todos os outros, Terezinha não fez caso acolheu-o em seus braços o acalantou e curou-o como as mães fazem. Deu-lhe de si, como dera-se a todos os outros. E os outros todos tornaram-se senhores de suas vidas: são reis e rainhas, flores de rara espécie. O terceiro claudica, e buscou nos livros a arte de produzir cordas. Confeccionou-se uma e nela se enrola, a amarra ao pêndulo do tempo. Ao extremo, armou um laço. Enfiou-se nele. O tempo rege a corda e o cadafalso. Oito filhos Terezinha tem, se o terceiro não lhe é espinho, no entanto é estrangeiro.

sexta-feira, maio 04, 2018

PRAIA DE INAÊ MIRIM


Lembro-me, quando criança, de tia contar a história de uma linda caiçara que se jogou ao mar durante os festejos de Iemanjá. Pouco se sabia da moçoila, que passou a aparecer para veranistas desavisados ou incrédulos em noites de festa em homenagem à Rainha do Mar. Criou-se então a versão que a batizou de Inaê Mirim, que era a história que tia contava.  “Não sei bem dizer como de fato as coisas aconteceram, nunca vi o mar, mas sua brisa, que o vento nos trás, assim me narrou... A menina tinha cabelos encarapinhados e a pele negra, negra, lábios vistosos e olhos amendoados perdidos no infinito mar, era formosa e atraia os olhares de todos.  Costumava tomar banho nas águas do mar toda manhãzinha, fizesse sol ou chuva, fosse verão ou inverno e, nuinha, nuinha, se estendia nas pedras e lá ficava aos olhos de pescadores e veranistas, sem dar-lhes atenção. Diz-se que uma certa manhã apaixonou-se por um veranista que também se banhava à mesma hora que ela. Os locais se aperceberam e ficaram despertado de ciúme. O fato é que o mancebo, alguns dizem, deu-se sumiço, outros, fora sumido, sumiu sem deixar nome ou endereço. Caiu tristeza profunda sobre a pobre caiçara, que deu-se ao mar e à Janaina, para desconsolo de todos. É desta feita que Inaê Mirim, aparece aos veranistas e os carrega com ela, quando estes não observam as placas que proíbem o banho de veranistas antes das 9h.”  Toda vez que vou ao mar, recordo desta história contada por tia, e, com tal recordo, o ambiente se perfuma de bolinho de chuva, pipoca, fogo de fogueira, que me vejo em seu quintal e não na praia. Estou aqui selecionando algumas fotos que fiz para o próximo numero da revista em que trabalho. Pediram-me fotos de praias ao amanhecer. Passei os últimos dois meses visitando algumas praias indicadas por minha editora. Agora, selecionando-as, caiu-me às mãos esta: uma jovem negra, de beleza escultural acena-me de dentro o mar. Não lembro-me ter tirado tal foto. Em seu verso, se lê:  “Praia de Inaê Mirim, 19 de maio de 1968”. Nunca ouvi falar de tal praia, mas, o que mais me espanta é a data: refere-se é ao aniversário de passamento de tia.