Quando
pai passou, veio o padrasto. Foi chegando aos poucos. Trazia flores pra mãe,
doces para nós. Fazia pequenos reparos na casa. “A casa”, dizia, precisava de
um homem. Mãe cedeu e ganhamos o padrasto. A lua de mel durou pouco. O sujeito
passou a não ter hora para chegar, geralmente estava alcoolizado, descia o
cacete em nós e em mãe. Um dia se engraçou pra cima da mais nova. Mãe se
resignava, “a menina era levada e tinhosa, ele era homem”. Não demorou muito,
engravidou a primogênita, que foi expulsa de casa. Vivia de bicos e da
exploração de mãe que mantinha a casa como diarista. Para termos um pouco mais
de dignidade, fomos vender balas e sorvetes em faróis e composições da
Companhia Paulista de Trens. Mas tudo que ganhávamos, ia para suas mãos. A mais
nova entrou na vida. A preferida de mãe associou-se a um grupo de delitos.
“Esta família é uma vergonha, aonde vim amarrar meus burros”, dizia, enquanto
nos extorquia e humilhava mãe. Um dia envolveu-se num negócio mal explicado, para
não ser preso desapareceu. Enquanto ficou fora, fomos nos organizando, e íamos,
aos poucos, nos ajustando. Seu fantasma, no entanto, sempre rondou-nos, e numa
certa tarde, como se nada tivesse acontecido, ele se apresentou. Trouxe flores
e uma cesta básica. Encontramos forças, nos apoiamos e não o permitimos ficar.
De quando em quando, a caçula, que nasceu pouco antes de ele ser preso, defende
sua volta. Segunda ela, com ele “éramos uma família”; que “precisamos de um
homem na família, para sermos respeitadas e ter segurança”. E por mais que lhe
mostremos as marcas em nosso corpo, e de nossa mãe, ela não acredita. O pouco
que nós temos hoje, aos olhos da caçula, é devido a nosso padrasto. Mas ela
pensa assim por influência da primogênita, que hoje, sabemos, mesmo expulsa de
casa, não deixou de ser acolhida por ele, que lhe deu uma vida de ‘rainha’,
extorquindo-nos; que o tempo em que ele esteve ‘fora’, era por ela sustentado...
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