quarta-feira, março 07, 2018

REDENÇÃO




Na semana em que padrinho foi morto, ele esteve em casa. Trouxe uma sacola de jambo, uma penca de bananas, um embrulhinho para mãe. Mãe me deu dinheiro e me deus uma trouxa de roupas: “Leva em sinhá Quitéria, ela vai te dar o dinheiro, passa na venda de seu Anastácio compra ovos e farinha. A casa de dona Quitéria era de uma lonjura só. Quando tornei padrinho já havia partido. Mãe se desfez das bananas e do jambo. Fui esperar pai na porteira com Filé, nosso cão, um “amarelado imprestável”, como dizia pai. Não foi por querência, juro, soltei que padrinho tinha vindo em casa. Não falei das bananas nem do jambo. Pai entrou em casa já nervoso, arriou seu bornal e saiu de volta. Os olhos de mãe eram apenas apreensão. Pai tornou tarde, embriagado, surrou mãe, quebrou móveis, desapareceu pras bandas do paiol cambaleante, praguejando. Mãe, quando o sol amanheceu me surrou e chamou-me de tudo quanto é nome ruim. Naquele dia pai não voltou pra casa, nem no outro, nem no outro..., nunca mais o vi. Veio, então, a noticia de que padrinho fora encontrado morto: “dois balaço no peito”, próximo do ribeirãozinho. Mãe dizia que a morte de padrinho foi sua libertação da tirania de pai. Ela conservou toda a vida o embrulhozinho que padrinho lhe trouxera. Também, daí: Redenção, nome de minha irmã, que nasceu meses após todo esse ocorrido.     

sábado, março 03, 2018

NA COLÔNIA PENAL

O mundo não será destruído por aqueles que fazem o mal, mas por aqueles que assistem o mundo sendo destruídos e não fazem nada. (Atribuído a Albert Einstein)



Na Colônia Penal Juvenil da provinciana Tupinambá, sob regência de um certo “Santo”, houve uma fuga de adolescentes na noite de 18 de maio do ano que queiram, cada qual, atribuir. Ocorre que um dos apenados, teve o infortúnio de, no salto em tentativa da “liberdade”, fraturar o fêmur e ficar caído ao chão. No calor da circunstância, três sujeitos responsáveis por assegurar que não houvesse fugas, colocaram sua condição de homens de bem, pais de família, trabalhadores bem intencionados a perder. Ao darem-se com o indivíduo ao chão, antes de presta-lhe socorro, resolveram que deviam deixar-lhe claro que não aceitavam “tiração de ladrão” e fuga: é uma puta tiração!   O adolescente ao chão foi acolhido a chutes e pontapés. Essa foi a história que Leopoldo, um fantasma, herança de família, que diz ter sido mordomo no Império de D. Pedro II, me contou. Contou ainda que um certo Simplicio, assistindo a burlesca situação, soltou um grito de margens do Ipiranga: “Vocês estão ficando loucos!” Foi, então que os três homens de bem, os pais de família, os trabalhadores bem intencionados se deram conta que toda essa dignidade se esvaia no calor da situação. Foi desta data, então, que o dito Simplicio, filho único de uma mãe avançada nos oitenta e adoentada, não foi mais visto. Todos os condenam de ter errado por ter feito o certo. “aqui as coisas funcionam se ninguém vê nada, e se vê: diz que não viu!”, dizia um dos mais antigos da administração com toda ênfase. Simplicio, segundo Leopoldo, tinha outras convicções e sempre fora visto como um apalermado, ele resistia a aceitar que a verdade é a força das circunstâncias, e naquela circunstância negar o visto era a verdade a ser dita. Simplicio afirmou o visto. Os homens de bem, os pais de família, os trabalhadores pagadores de seus impostos o juraram de morte. E todos estavam a favor deles. Simplicio estava errado. Todos achavam que não fora os homens de bem, pais de família, trabalhadores bem intencionados que se arruinaram ao se colocarem a cima de suas atribuições. Fora Simplicio, que ao não aceitar a verdade das circunstâncias, e ao afirmar o que vira que os arruinou. Tivesse Simplicio negado, teriam a consciência tranquila. Mas Simplício tem da verdade sua ingenuidade.  O fato é que Simplicio não foi mais visto. “Não tivesse feito a besteira que fez...” se dizia a boca miúda e entre risos, fazendo memória de feitos que o desabonasse. Eu não sei o que Leopoldo quis me ensinar com isso, mas tenho pensado muito sobre...

sábado, fevereiro 24, 2018

JANUÁRIO


Com Januário, é um olho aberto e outro fechado
De santo, Januario tem só o rabo
Cantava tia
Na Terra de cego é rei quem tem olho só
Em pingo d’água, Januário dá nó
Retrucava vó
Não é nada disso minha gente,
Se defendia Januário
É só aparência
Eu não como cru nem quente
É questão de paciência
Quem te conhece que te compre cumpadre
Seguia Maria Rita
Não sou eu quem digo
Nem é dito das cumadre
Tu não podes ver uma cabrita
Sebastião que tocava o pandeiro
Logo emendou
Voz do povo, voz de Deus!
Com Januario, deu mole
Perdeu!
Assim vocês me difamam
Cumpadre, meu amigo, não diga isso
Somos irmão, andas comigo
Mas que me salve o violeiro
Januário, não me meto em confusão
Em cumbuca alheia não meto a mão
Fez a fama deita na cama
Vamos todos pro terreiro
A noite se estendeu entre risos,
E cantoria
Pelas tantas,
Januário fez seresta para tia 

domingo, fevereiro 04, 2018

PRIMEIRO BEIJO

Foi acolá, nas Gerais, já vizinhando Goiás. Na volta de uma estrada, findando bem em frente uma encruzilhada. Se tomando o sentido da cidade, antes de se chegar à imagem da Padroeira, se abria uma capoeira, com um casebre modesto. Em seu terreiro se avistava fogueira, se ouvia cantoria, algazarra da meninada, um cachorro latia. Em redor da fogueira um caboclo de nome Festino, tocava viola, acompanhado de Natalino, sofrendo o pandeiro. Chico do triangulo, veja vocês, era mesmo sanfoneiro. Uma tal de Gervania, cabocla faceira cantava. Compadre, que vozeirão. Era noite de São João. A certa altura, assumiu a cantoria um certo Francisco, e a viola, Festino cedeu a um tal Romão. Gervania bebericou quentão e provou da broa de milho de dona Quitéria e saiu pra estrada. Festino que a seguia com o olhar, pensou seguir seus passos, talvez, confessar seu amor, mas titubeava. Foi Chico da Mata, amigo e confidente, caboclo experiente que o animou: “cumpadre, deixa de receios, vai ter com tua cabocla, ela se afasta para que te aproximes”. E Festino, muito sem jeito, foi aventurar-se... “Viva São João!!!”, gritou o festeiro, soltando fogos, alumiando o céu inteiro. Ao pé da padroeira, Faustino e Gervania contemplavam o céu aluminado, trocando o primeiro beijo.