domingo, junho 05, 2022

LEITURA


Perguntaram-me dos meus hábitos de leitura. Eu respondi que leio compulsivamente. Perguntaram-me de minha preferência de suporte: livro físico ou digital. Eu disse gostar do livro físico, mas leio em qualquer suporte: Lousa, Quadro de aviso, letreiros, anúncios em poste, porta de banheiro, bula de remédio, muros e paredes. Tudo eu leio. Não leio só o escrito eu disse a quem me indagava. Leio canto de pássaros, vento soprando, flores se abrindo, chuva caindo. Eu leio semblantes, olhos e olhares, contornos de lábios esboçando sorriso, insinuando um beijo. Eu leio a dor e a alegria em lágrimas escorrendo. Leio a acolhida num abraço, a despedida em acenos. Leio punhos cerrados, dedo em riste, apertos de mãos, uma mão estendida oferecendo apoio. Leio gritos de fúria, de indignação, de emoção. Leio o silêncio obsequioso ante o opressor, e a palavra presa à garganta que diz de amor. Mas de tudo o que leio, a leitura a que sempre volto, aquela em que mais me enleio, é a do calor e do frêmito de teu corpo enquanto teus lábios eu folheio.


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