quarta-feira, março 27, 2024

QUIXOTESCA NOTURNA

 


“Eu sou a voz que grita no deserto” Jo, 1, 23

 

Somente gente obtusa, e parece ser o caso de gestores e legisladores de Poá, desconsideram a importância da CULTURA para o pleno desenvolvimento econômico, político, social, humano de uma cidade. Há recursos do Governo Federal, via Lei Paulo Gustavo e Política Nacional Aldir Blanc, que ultrapassam 4 milhões de reais, para serem investidos no setor Cultural nos próximos 5 anos. São mais de 4 milhões de reais, que por obtusidade, ineficiência, incompetência ou pura má vontade política, a gestão Marcia Bin, com o silêncio de nossos edis, vão se perdendo.  Diante do descalabro, um punhado de gente quixotesca, que se conta nos dedos, promoveu um manifesto por desérticas ruas da cidade, gritando para ouvidos surdos suas reinvindicações. São sempre os mesmos rostos, as mesmas vozes, um punhado de quixotes contra a obtusidade, a ineficiência a incompetência calculada de gestores e edis que contam com a condescendência daqueles que deveriam estar se somando à luta, mas sempre tem um outro compromisso para não se comprometer com a causa, ou aparecer na foto: querem o recurso, mas não querem se indispor. Às poucas vozes que desfilam por noturnas e vazias ruas de Poá, meu profundo respeito. Aos que contam com os recursos da Cultura, mas preferem fazer-se de mortos: despertem! “Quanto mais se beija a mão do senhor, menos se come”, ensinava minha avó.

domingo, março 17, 2024

Dia desses passes por aqui

 

Para saber de ti

Andei a perguntar por aí.

Por onde andas

O que fazes

Se falas de mim

Aos amigos

E, também, inimigos

Inquiri

Mas saber de ti

por ti mesmo

é que me faz feliz

Numa tarde qualquer destas

Passes por aqui

segunda-feira, fevereiro 12, 2024

Da sétima Hilda do Alencastro

 

Para Cris Dom e Elvis Almeida

 

Sabe o Alencastro do financeiro, boa praça, prestativo, na dele. Então, ontem dei-me com um casal de amigos, muito próximo do Alencastro. Parece-me que ele é padrinho de casamento do casal. Não ficou claro. Mas o que interessa é o Alencastro. Pois, pasmem: O homem está para a sétima esposa.  O curioso, no entanto, não é isto. Curioso foi saber que a atual esposa, como a seis anteriores, se chama Hilda.  O cara tem  dom, tem que ser, de encontrar Hildas para se apaixonar, enlaçar-se e, depois de algum tempo, desfazer o casamento. Meus confidentes confiaram-me que o cara, além das esposas, chegou a manter, no terceiro e no quinto casamento, amantes com nome de Hilda. Não tive dúvida, “deixa eu adivinhar: a mãe se chama Hilda?”, opinei. Nada, nem mãe, nem irmã, nem prima, avó ou tia. Os términos dos relacionamentos, se dão por banalidades, coisas sem a  menor gravidade. Com uma ele terminou porque ela não sabia o que era um verbo defectível, com outra, porque não memorizou o Poeminha do contra, do Quintana. Não saber conjugar concernir ou decorar quatro versos lhe era assaz intolerável. Uma crítica à sopa de legumes da tia, resultou numa outra separação. O casal de amigos narrava  as peripécias amorosas do Alencastro sempre ressaltando seu zelo pelas esposas. Dava-lhes presentes, era-lhes atencioso, carinhoso, romântico.  Mas, do nada, sem motivo algum,    de gravidade sustentável, rompia tudo, separava-se. Passava, então, meses, abatido, calado, desleixado, prometendo-se não mais se apaixonar, enlaçar-se novamente. Mas, não demorava muito, eis uma nova Hilda. Ainda me atraía a curiosa atração do Alencastro por Hildas. E especulei um pouco mais. Veio à tona que, o pai era admirador inconfesso de Hilda Hilst, e a mãe morria de ciúmes da escritora, e descontava seu ódio à escritora no pobre Alencastro. A mãe rabiscava os livros do pai, arrancava-lhe as páginas e dizia ser travessura do garoto. O pai enfurecia, colocava-o de castigo, dava-lhe coro. Certa volta lhe fraturou as costelas. Um dia, o pai flagrou a mãe adulterando A obscena senhora D, da considerada rival. O pai olhou-a com olhar pesaroso, olhou-o com sentimento de culpa, saiu para comprar cigarros. Dos livros do pai, a mãe fez fogueira e não queria saber dele envolvido com livros. Alencastro, para não descontentar a mãe, lia escondido. E o homem lê de tudo: Filosofia, teatro, literatura, bula de remédio, porta de banheiro, nada lhe escapa. Da Hilst, no entanto, ele não se aproxima. Mas é ouvir o nome Hilda, que o homem perde a razão e se entrega. Com a atual ele se deu num espetáculo performativo. Hilda entrou em cena toda vestida para um baile de gala. À medida que a música assumia o ambiente e envolvia os espectadores em seu ritmo Hilda ia se desmontando, ora a movimentos suaves, ora com movimentos bruscos, performando personalidades antagônicas. A certa altura, já toda nua, com um silêncio ensurdecedor tomando o ambiente, Hilda com voz firme, exclamativa, rompeu a perturbação que tomava conta dos espectadores: “Eu sou mulher, porra! Eu sou mulher! Me Chamo Hilda! HILLLLDA! E eu tenho buceta! Buuuuceeetaaa! Hilda batia decidida a mão sobre sua transgenitalização. Alencastro, diz o casal de amigos, anunciou para breve a cerimônia de seu sétimo casamento. Pena eu não ter proximidade com o Alencastro, desejaria muito participar de seu novo enlace. Seja ele feliz!

segunda-feira, janeiro 01, 2024

Eu quero a estrela da manhã

 


Vi uma estrela tão alta,

Vi uma estrela tão fria!

Vi uma estrela luzindo

Na minha vida vazia.

(Manuel Bandeira)

 

Todas as manhãs o aeroporto me dá lições de partida. (Manuel Bandeira)

 

Há uma estrela inatingível (tão alta), luzindo indiferente (fria) a existência do poeta à cata de algo que o preencha de sua vida vazia: “É que ando dentro da vida/ sem vida dentro de mim” (Toada). Vida que “é uma agitação feroz e sem finalidade [e] traição” (Momento num café). “Vida cada vez mais cara”, a menor besteira, “nos custa os olhos da cara” e “todo mundo traz na boca a cinza amarga da frustração” (Saudade do Rio Antigo). Vida que “é amarga” (Imagem) e “não vale a pena e a dor de ser vivida” (Antologia). Daí, então, Pasárgada, onde “a existência é uma aventura”, fundada no desejo de viver “a vida que podia ter sido e que não foi” (Pneumotórax).

Em Pasárgada, o poeta que diz fazer “versos de angústia rouca” e “como quem morre” (Desencanto), poderá “ser como  rio que deflui, silencioso dentro da noite” e “descansar humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei” (Antologia). Em Pasárgada poderá o poeta amar à vontade a mulher que há de escolher, poderá fazer ginástica, andar de bicicleta, montar burro bravo, subir pau-de-sebo. Em suma, ter a vida “que podia ter sido e que não foi” (idem).

O poeta não ignora a distância entre a Pasárgada idílica e as manhãs em que a “respiração se faz como um gemido” e tudo ao olhar “toma um doloroso aspecto:/ E erro assim repelido e estrangeiro no mundo” (Desesperança). Por isso, ainda haverá noites “triste de não ter jeito” e de “versos de angústia rouca” em que a vontade de se matar se anunciará: “E enquanto a mansa tarde agoniza,/ Por entre a névoa fria do mar/ toda a minh’alma foge na brisa: Tenho vontade de me matar” (Felicidade).

“- Ah, como dói viver quando falta a esperança!” (Desesperança),  diz o poeta a tecer “versos como quem morre” (Desencanto).

“Há muito”, diz o poeta, “o meu coração está seco” e “a tristeza do abandono,/ A desolação das coisas práticas/ entrou em mim, me diminuindo” (... Augusto Frederico Schmidt), e “ouço a morte chamar-me e esse apelo me aterra...” (Desesperança).

Embora tenha vontade, o poeta apazigua os amigos, “não me matarei, meus amigos./ Não o farei possivelmente” (Canção suicida), porque a vida, mesmo que não valha “a pena e a dor de ser vivida” (Antologia) não é toda fel, ela nos afeiçoa de uma “esperança prometedora” que “segreda coisas irreais” (A vida assim nos afeiçoa). Se é desalento e amargura, se é traição e ilusão, a vida é também milagre: “A vida é um milagre./ Cada flor,/ Com sua forma, sua cor, seu aroma,/ cada flor é um milagre/ Cada pássaro,/ com sua plumagem, seu voo, seu canto,/ Cada pássaro é um milagre...” (Preparação para a morte).

O que salva o poeta é a arte. E ela “é uma fada que transmuta/ e transfigura o mau destino” (À Sombra das Araucárias). Então, ao tênue fio de esperança o poeta se propõe a uma nova poética: “em cuja poesia há a marca suja da vida” (Nova poética), mas, também, “pedaços vivos do nosso próprio ser, laços quase impossíveis de romper” (A vida assim nos afeiçoa). Ele defende que a poesia deve “fazer o leitor satisfeito de si dar o desespero”, pois “a vida é amarga./ O amor, um pobre gozo...” (Imagem).  E, se “o mundo é sem piedade e até riria/ Da tua inconsolável amargura” (Renúncia), na criação poética habita “o menino que não quer morrer” (Versos de Natal). Então o poeta orienta: “cria, e terás com que exaltar-te/ No mais nobre e maior prazer” (À Sombra das Araucárias). 

Assim, contra o tédio e a vontade de morrer, o poeta “Prova. Olha. Toca. Cheira. Escuta. [Cria].”  E na poesia o poeta espera restabelecer o equilíbrio perdido, pois é ela sua única solução: “Única solução para o peso dos meus desenganos,/ Depois de todas as soluções:/ O amor, os seguros, a água, a borracha./ A poesia voltará de novo, consoladora e boa/ .../ A poesia cairá em mim como um raio” (... Augusto Frederico Schmidt). E de sua amarga secura, o poeta proclama: “A poesia voltará de novo ao meu coração/ Como a chuva caindo na terra queimada” (Idem.).   

Então, mesmo às voltas com a “Indesejada das gentes”: “Aqui eu não sou feliz./ Quero esquecer tudo:/  – A dor de ser homem...”, o poeta retoma o desejo por Pasárgada e “anseio infinito e vão de possuir o que me possui ” (Antologia).

Em Pasárgada, “tomarei banhos de mar”, diz o poeta e “nas ondas da praia/ Nas ondas do mar/ Quero ser feliz/ Quero me afogar” (Cantiga). Idílica e marítima, Pasárgada, onde se pode “esquecer tudo”, “descansar”, “ser feliz”, “sem ambições de amor ou poder” (Vontade de morrer) é a saída poética que o poeta encontra para sua vontade de morrer, adiando, em sua inatingibilidade, um ato, por parte do poeta, de vingança “contra a condição Humana ... de ser dotado de razão” (Canção de suicida).

Ao poeta não falta, pois, sentido, inteligência, instinto, coração, para  o milagre de um pássaro em voo,  e, em uma rosa solitária, pendendo de um galho, intuir “a graça essencial .../ Da vida e do mundo” (Eu vi uma rosa). Mas o poeta anela o além-mundo. Em Pasárgada, seu refúgio poético, ele vai adiando a vontade de morrer.

Pois bem, Manuel Bandeira viveu 82 anos. Eu, sem sua estatura poética, meus amigos, prometo, não chegarei a tanto.

 


                                                              Claudio Domingos FERNANDES