quarta-feira, maio 06, 2020

DESTE CÁLICE NÃO HEI DE TOMAR


"Os que lavam as mãos o fazem em uma bacia de sangue"
De Lima Duarte para Flavio Migliaccio

De fato nós não demos certos
Somos irremediáveis
Em apostar
Nos que nos des-humanizam
Des sempre foi-nos mais
sedutor
Que cons e co
Des-união, des- construção
Des-pertencimento
Con-tradição
Nos seduz de fora
Anulando-nos o que nos
É intimo
Um outro mundo
é em nós
Eu não banhei minhas mãos
Nesta bacia
Que a orgulhosa ignorância
Oferece-nos
Deste cálice que a tantos inebria:
Pátria, Deus, Família
Minha insanidade me
Imuniza
Antes o salto
A tomar parte
Desta
Idiocracia...

segunda-feira, maio 04, 2020

MONUMENTO

Aos que vão partindo, enquanto não assumimos a coragem de seguir-lhes o caminho.

Como temos em toda parte monumento
aos soldados mortos na guerra
como se erigiu monumentos
às vitimas da covardia nazi-fascista
havemos de ter monumentos às vitimas
da covid-19
vitimas da mesquinhez e da ignorância
mais
que do vírus corona.
A função pedagógica de um monumento
é nos lembrar
que podemos ser melhores do que
temos sido
que podemos ser
humanos
que não precisamos ser atrozes.
Mas porque deles só tiramos proveito
para "belas" fotos
Havemos sempre de os erigir...
escolhemos sempre sermos
piores...

QUERELAS DO BRASIL


Hoje, muitos de nós iremos relembrar à exautão a magistral obra de Aldir Blanc: O Bêbado e o Equilibrista, magistralmente interpretada por Elis Regina. Para mim no entanto, Querelas do Brasil, composição de Aldir Blanc e Mauricio Tapajós, também interpretada magistralmente por Elis Regina é de um atualidade nua, crua, desesperante:
O Brazil (este acima de todos) não conhece o Brasil (este das centenas de vidas perdidas como a de Aldir Blanc numa crise pandêmica)
O Brasil (este que vai às ruas manifestar-se em favor de um louco) nunca foi ao Brazil (ao Brasil que sempre sofreu o descaso com a saúde pública, com a falta de investimento em educação de qualidade, que vê negado seus direitos mais básicos)
O Brazil (que bate continência à bandeira americana, e pede intervenção militar) não merece o Brasil (da massa trabalhadora, dos brasileiros na informalidade, dos que estão na luta de frente na batalha com a covid-19: médicos, enfermeiros, voluntários...)
O Brazil (da ignorância instituida, das fake news) tá matando o Brasil (de balas perdidas, de negacionismos)
Do Brasil (desta gente que insiste, resiste e luta), S.O.S. ao Brazil (Dos que não desiste da utopia de um Brasil solidario, humanitário, justo)
"O Brazil não conhece o Brasil
O Brasil nunca foi ao Brazil
O Brazil não merece o Brasil
O Brazil tá matando o Brasil
Do Brasil, S.O.S. ao Brazil
Do Brasil, S.O.S. ao Brasil"
Aldir Blanc/Maurício Tapajós. QUERELAS DO BRASIL

sábado, maio 02, 2020

A CABEÇA E O RABO DA COBRA*


Em A cabeça e o rabo da cobra, Tolstói narra o seguinte:

O rabo e a cabeça da cobra discutiam sobre quem devia andar na frente. A cabeça disse:
- Você não pode ir na frente, você não tem olhos nem ouvidos.
O rabo disse:
- Em compensação, a força está em mim, sou eu que faço você andar: se eu quiser, me enrosco numa árvore e você não vai sair do lugar.
A cabeça disse:
- então vamos nos separar!
E o rabo separou-se da cabeça e rastejou para frente. Mas assim que se afastou um poço da cabeça, caiu num buraco e sumiu.

Parece-me que a fábula de Tolstoi ilustra bem o confronto de hoje em Curitiba entre moroloídes e bolsolóides. O que Tolstói não relata é que enquanto o rabo de cobra vai pro buraco, a cabeça cega e surda se alia a outra qualidade de cobra: o tal centrão. Esta sim é venenosa.

* In Liev Tolstói Contos Completos. Tradução Rubens Figueiredo. Vol II. São Paulo: Cosac Naif. 2015

sexta-feira, maio 01, 2020

NADA MUDAMOS SENÃO A NÓS MESMOS




A história da humanidade é a história que o homem empreendeu para se proteger da natureza em busca de alimento, abrigo, proteção, segurança. De caça, o homem passou a caçador, de coletor de grão, frutos, raízes, passou a cultivador do solo, de habitante das copas de árvores, fendas e cavernas, tornou-se construtor de cabanas, casebres, palácios, templos, de errante nômade, apropriou-se de territórios, fixou-se e formou comunidades: aldeias, tribos, cidades, megalópoles. Aprendeu a dominar o fogo, a usar a força dos ventos, a enfrentar a fúria das tempestades, alcançou o espaço.
Em sua aventura, o homem enfrentou tormentas, furacões, terremotos, irrupções vulcânicas. Instalou-se nas mais inóspitas regiões do planeta, se enfrentou em guerras, foi atingido por calamidades naturais e terríveis flagelos, frutos de suas mãos. Milhões de espécies animais e vegetais foram anuladas, povos foram dizimados, vidas escravizadas, sacrificadas para atingirmos conforto, comodidade, segurança.
Levou séculos, mas o homem tornou-se capaz de conhecer e usar a seu favor as leis da natureza, criou um mundo próprio: o mundo humano. Acreditando-se senhor de si e de tudo o que o rodeia, o homem entrou numa corrida suicida de a tudo e a todos dominar e submeter.
A natureza, embora se deixe conhecer, e se ofereça às necessidades humanas, continua seu curso, que alguns julgam saber quando começa – o fim, em todos os sentidos é especulação, ninguém sabe como nossa história termina –, indiferente à criação humana, seu mundo de “comodidades”, “bem estar”, “desfrute de seus prazeres e poder”, o universo mantém suas leis.   De quando em quando a natureza – que nãos se vinga – nos  faz lembrar que também nós somos naturais e que aniquila-la é nos aniquilar, que conhecer suas leis não nos tornam seus senhores, nos tornam responsáveis por nossos destinos. E onde não há respeito por todos e por tudo não há futuro. A natureza não precisa de nós, somos nós que dela dependemos. A extinção da vida humana não afeta a existência do universo. Nossa música, nossa dança, nossa poesia, nossa arrogância, nada abala suas leis. Não basta conhecer e manipular as leis da natureza. Entre nós, passou um sábio que ensinava: “é preciso conhecer-te a ti mesmo.” Em tudo o que fazemos, nada mudamos se não mudamos a nós mesmos: eis a lei que nos imprimiu a natureza.