domingo, abril 30, 2017

TEU NOME


 
E no apartamento
 ante o porta retrato
prendo-me ao
 vazio moldurado
corro o olho
aos fragmentos
de teu sorriso
ao chão
fragmentado
Angustiado
Procuro algo de ti
Que tenha
Distraída
Deixado
A noite nua
Cinza-úmida
Me clama
Abro a janela e
Sua brisa me
Envolve
E eu grito,
Eu grito
Eu apenas
Grito
Teu nome
 
 

domingo, abril 16, 2017

A CRUZ QUE EU CARREGO ESTÁ VAZIA: O QUE NELA JAZIA RESSUSCITOU


À Produção e ao Elenco de Passos da Paixão 2017

O Passos da Paixão 2017 nos convidou a pensar nossas práticas pessoais em nosso cenário político cotidiano. Diante da enxurrada de delações premiadas, vazamentos de denúncias de corrupção, desvio de recursos públicos, retirada de direitos, avanços contra políticas sociais, sob o mando de um governo ilegítimo, golpista e impopular, nos colocamos o desafio de retratar a história do Cristo, seu julgamento, seu suplício, sua morte cruel e infame, questionando e submetendo as razões do sofrimento e dor de milhares de homens e mulheres, que compõem a cruz que suporta a aniquilação do Cristo, na ação desmedida dos poderosos deste mundo e sua vão ilusão de que tudo podem. “A cruz que você carrega”, lema-tema condutor de toda a trama que se construiu nos provoca uma resposta à pergunta: “E você, qual a sua cruz?”. Ao lado de quem você caminha: dos "homens de bem", que se acham os merecedores de toda riqueza e que de tudo se apropriam, até de vidas humanas, escravizando-as, ou do Cristo que não cessa de clamar pelos pecadores. À primeira vista, porque o Cristo disse que cada qual tem sua cruz, e que ele se imola pelos pecados do mundo, acreditamos estar a seu lado. Mas desde inicio vamos tomando conta de que ao lado do Cristo também havia ladrões, mentirosos, interesseiros, traidores. Eu estou ao lado do Cristo. Mas em que condição? É uma pergunta que me faço sempre. Mas, enquanto produzimos o espetáculo, eu penso na cruz das ilusões do poder que conduz “homens de bem” a espoliar o trabalhador, o pobre, até o tornar miserável, no sentido econômico e no sentido moral, quando esse se espelha em seu algoz.  Quando a Sagrada Escritura fala de pecadores, não fala de todos os homens, estes pecadores têm um rosto: são os doentes, os inválidos, os empobrecidos, as mulheres (viúvas, prostitutas, adulteras) os gentios (numa linguagem de hoje: os que não pactuam de minha fé), o estrangeiro, os presos sem condenação. Isto está explicito em Mateus, 25, 35-36: "Porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me; estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e foste me ver." São os destituídos, os espoliados, os extorquidos, vitimas (sim vitimas) dos meritocratas opulentos, os destinatários do sacrifício de morte que o Cristo nos oferece. Os donos do mundo, os que com eles comungam, riem ante o fracasso do Cristo, continuam sua marcha de mandos e desmando, submetendo parcela considerável de homens e mulheres sob o julgo de seu sádico sistema econômico, seduzindo com seu canto mediático, oportunistas das mais variadas ideologias. Os poderes do mundo rejubilam a morte do Cristo. No entanto, todo o atroz sofrimento do Cristo, sua dor extenuante, sua agonizante morte é uma denuncia do julgamento orquestrado, ajustado aos interesses de juízes e políticos associados ao poder econômico e midiático, que criminaliza e penaliza os já penalizados por seus desmandos. O Cristo carrega em sua dor a expectativa de que faremos dos pecadores de nosso tempo (basta apenas um pouco de sensibilidade social para os perceber) o motivo de nossa cruz. Todos os condenados pelos “homens de bem”, todos os que padecem à ordem da "Família, da Pátria e de Deus”, todos os que não se enquadram no conservadorismo tacanho patriarcal, todos os que vêem suas potencialidades esvaídas por sistemas de castas eufemisticamente meritocráticos. O rosto dos marginalizados, dos empobrecidos (repetimos empobrecidos), dos aprisionados e ou executados sem direito a um processo legal e um julgamento isento, dos desempregados, dos muitos doentes e idosos a quem faltam recursos médicos e assistência social e econômica, compõem a cruz que o Cristo carrega, são os pecadores de ontem e de hoje pelos quais ele se imola. Diante da opulência dos "homens de bem" e das mazelas dos que lotam ônibus e composições de trens e metrôs, de trabalhadores informais e assalariados uma pergunta fica: Quem produz a Cruz do Cristo? A agonia do Cristo atravessa a longa noite de nossa História que resiste à luz do terceiro dia. Tanto sofrimento não pode ser em vão. O silêncio de sua morte atroz nos imobiliza, entregamo-nos às incertezas de nossas ações, quanto mais lutamos contra os senhores do mundo, mais vitimas nos tornamos de suas sádicas injustiças, mais nos vemos extorquidos, alijados de nossas tão sempre incertas conquistas. A cruz do Cristo: os milhões de rostos desfigurados do CAPITALISMO, nos titubeia. Nossa fé (a minha não é religiosa) ousa dizer que não, que a luta é insana e inútil! Mas a cruz do Cristo: o humilde humilhado não comporta a grandeza do Cristo. O Cristo a esvazia de sentido, não é a arrogância disfarçada das elites em programas eleitorais que há de vencer. A longa noite de nossa história é só uma noite longa: Já a luz da ressurreição desponta e com ela a esperançosa mensagem do Cristo: “Ide e contai a João o que estais ouvindo e vendo: Os cegos enxergam, os mancos caminham, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e as Boas Novas estão sendo pregadas aos pobres.” Os pobres hão de se levantar, hão de empunhar a luta, hão de tornar a cruz do Cristo, a cruz da vitória. A dor do Cristo é a dor de quem acredita em sua causa. E o Cristo que morre por nossos pecados acredita que os pecadores: os marginalizados, os expropriados, os extorquidos, os perseguidos, os aprisionados, hão de narrar uma nova história, em que todos hão de ter vida plena. Se a morte infame do Cristo é para os opulentos e poderosos motivos de alegria, a Ressurreição é a garantia de que o Cristo rompe o ciclo de desmandos e inaugura um novo tempo e um novo reinado. Reinado em que os pecadores, figurados no publicano e na prostituta (Mt 21, 31) serão os primeiros. Ainda os raios dessa subversão não nos atingiu. A longa noite de nossa história é apenas uma noite longa. A cruz está vazia: O Cristo venceu o sistema de morte. A Ressurreição há de ser o governo dos pobres e dos empobrecidos, dos marginalizados e dos injustiçados. Este dia atemoriza os poderosos, os "homens de bem", os reacionários, os meritocratas. Eu, como diz a canção, "já escuto os teus sinais. Boa Páscoa a todos!

Grato a todos que tornaram possível o Passos 2017.

Sem nenhum direito a menos!!! FORA TEMER!!!


Claudio Domingos Fernandes

domingo, fevereiro 19, 2017

PASTÉIS E FRUTAS




Vestiu o vestido de ir à rua.

- Onde você vai?

 - Vou levar as meninas à estação. Elas passarão uns dias com a avó!

- Não esquece de mandar-lhe o doce de figo, e peça que envie pela meninas daquela cachaça.

- Ela mesma deve trazer. Ela vem no fim da semana comas meninas. Tem exames para fazer.

- Você tem algum?

- Uns trocados! Porque?

- Quando voltar, passa na feira, trás pastel e um pouco de frutas.

- Você prepara o almoço?

- Somos só nós?

- Se a Palmira não vier com as crianças! Ela vai ligar avisando!

-Se for só para nós dois eu prefiro ligar no Corniglio e encomendar algo.

- Por mim tudo bem! Agora eu vou que as meninas já estão impacientes. Tchau!!

- Elas são impacientes. Beijos!!! Não esqueça os pasteis e as frutas...

terça-feira, fevereiro 14, 2017

EU VIM PARA QUE TENHAM VIDA E A TENHAM EM ABUNDÂNCIA.  


“O ladrão vem apenas para roubar, matar e destruir; eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância.” (Jo 10,10)



Teologicamente vida em abundância significa vida para além da vida cotidiana, da vida terrena, isto é, significa vida eterna como explicita documento da Igreja Católica: “O homem é chamado a uma plenitude de vida que se estende muito para além das dimensões da sua existência terrena, porque consiste na participação da própria vida de Deus. [Evangelium Vitae].



Assim, “ao apresentar o núcleo central da sua missão redentora, Jesus diz: “Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância” (Jo 10, 10). Ele fala daquela vida “nova” e “eterna” que consiste na comunhão com o Pai, à qual todo o homem é gratuitamente chamado no Filho, por obra do Espírito Santificador. Mas é precisamente em tal “vida” que todos os aspectos e momentos da vida do homem adquirem pleno significado.” (Idem)



No entanto, associado ao âmbito econômico, uma certa teologia, uma certa visão deturpada, tende a entender abundância como riqueza, prestígio, privilégios, posição de poder. Desta visão, muitos representantes religiosos aproveitam-se para vender um mundo de ganhos materiais exorbitantes e uma vida de honrarias, prestígio social, posições políticas de comando etc., a seus fiéis. E se muitos perseguem está abundância, a do acúmulo de bens matérias, do luxo e da ostentação de uma graça que não corresponde às promessas evangélicas , é porque seus guias religiosos são, na verdade aqueles lobos em pele de cordeiro, que o Cristo anteviu: “Acautelai-vos, porém, dos falsos profetas, que vêm até vós vestidos como ovelhas, mas, interiormente, são lobos devoradores.” (Mt, 7, 15).



Neste mundo, o Cristo não promete vida fácil aos que o seguirem pois: “Se me perseguiram também vos perseguirão” e “o mundo vos tratará mal por causa do meu Nome, pois eles não conhecem Aquele que me enviou” (Jo 15, 20;21). E depois, ele anuncia que seu reino é dos pobres, dos humilhados, dos explorados: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei”.

Por isso, os evangelhos te impõem um compromisso: acolher os que sofrem e ou são perseguidos, reconhecendo neles o Cristo: “porque tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era forasteiro, e me acolhestes; estava nu, e me vestistes; adoeci, e me visitastes; estava na prisão e fostes ver-me” (Mt 25,35-36). São a estes, em especial, que o Cristo oferece sua morte sacrifical.



Na ordem dos direitos, podemos alinhar “vida em abundância”  ao desenvolvimento pleno, à integridade, à dignidade de cada pessoa humana.



Nestes tempos de política de exceção, em que o atual governante, como ladrão, entra pela janela da história, assume de forma vergonhosa o governo e arranja em torno de si uma equipe de governo interessada em salvaguardar seus próprios interesses e de grupos políticos e econômicos com os quais são comprometidos. Para estes usurpadores de nossos votos e destino político,   o pleno desenvolvimento, a dignidade e integridade dos menos favorecidos e da classe trabalhadora se acham ameaçados. Os esquemas de corrupção e alienação política escancaram os interesses das elites abastadas e dos iludidos de a elas ascenderem, que, em nome de um falso moralismo, fecham os olhos aos que se apropriam do poder em beneficio próprios ou de seus aliados e perseguem os que continuam a árdua tarefa de defender direitos sociais e trabalhistas arduamente conquistados.



Nesta perspectiva, milhões de pessoas são colocadas à margem todos os dias, impossibilitadas de atenderem ao que se considera mínimo para sua inclusão entre os seres humanos, sem acesso algum aos benefícios das novas tecnologias e dos avanços econômicos e científicos, que deveriam ser de alcance universal.



Crer em uma vida abundante é defender e promover os menos favorecidos, os injustiçados, o estrangeiro expulso de seu território de origem e lembrar que o Direito á vida plena não é privilégio dos abastados, mas dever do Estado para com todos os que estão à margem, explorados, humilhados, destituídos de seus plenos direito de cidadania e de pessoa humana.

Não creio no Deus de Francisco, mas, como ele, acredito que  “o sentido pleno da vida individual e coletiva se encontra no serviço desinteressado em favor do outro e no uso prudente e respeitoso pela criação, pelo bem comum” e que a “medida e o indicador mais simples e adequado de realização da nova Agenda para o desenvolvimento será o acesso efetivo, prático e imediato, para todos, aos bens materiais e espirituais indispensáveis: habitação própria, trabalho digno e devidamente remunerado, alimentação adequada e água potável; liberdade religiosa e, mais em geral, liberdade de espírito e educação” (Papa Francisco em discurso na ONU, em 25 de setembro de 2015).

domingo, fevereiro 05, 2017

ELE NÃO TINHA ONDE RECLINAR A CABEÇA


“E Jesus, vendo em torno de si uma grande multidão, ordenou que passassem para o outro lado; E, aproximando-se dele um escriba, disse-lhe: Mestre, aonde quer que fores, eu te seguirei. E disse Jesus: As raposas têm covis, e as aves do céu têm ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça. (Mt 8,18-20)



Se é consoante tomar a acima referida passagem evangélica como um alerta a quem se coloca a seguir Jesus, que este não encontrará conforto em sua jornada e ao fim dela não terá onde se recolher e restituir em segurança suas forças, a situação a qual Jesus aponta ao escriba, o de não ter onde reclinar a cabeça, pode muito bem caber não só a ele mas também à multidão diante dele e do escriba, multidão que, numa passagem anterior, o Cristo ordenara a seus discípulos assistir (Mt 14, 16).

Como é visto, então, o problema da moradia, como o da fome, não é um tema atual, mas atravessa séculos de uma história de desigualdades sociais.

Concentrados aqui no direito à moradia, verificamos que o mesmo é um direito reconhecido como direito humano universal apenas em 1948, com a Declaração Universal dos Direitos Humanos. E está presente em nossa constituição, em seu artigo 6º, como direito social. Ele corresponde ao direito a um padrão de vida adequado. Mas ele representa mais que isto.

Nossa história só tem sentido a partir de um lugar que possamos dizer meu, não como posse,  mas como referente, um ponto onde estabeleço minha identidade e minha identificação. De tal modo o lugar onde moro, minha casa, uma moradia, lugar onde recostar a cabeça é mais que o direito a ter quatro paredes e um teto.

- É o lugar onde me recolho, me refaço do cansaço, da fome, do sono, onde me protejo das ameaças externas, das intempéries...

- É o lugar onde acolho, recebo os amigos e com eles celebro minhas vitórias, significo e resignifico minhas perdas...

- É um ponto certo de partida e de retorno, sendo minha referência no mundo, o ponto onde me situo e de onde me lanço no existir, no persistir, no insistir viver...

- É o lugar onde se recosta a cabeça e se revê, se reestabelece,  se reorganiza os desejos, os projetos, as decisões, se estabelece os passos seguintes, os desafios à frente.

- É mais que quatro paredes e um teto é lar, lugar dos conflitos interpessoais e da afetividade que sustenta as relações, restabelece os ânimos evoca o passado, projeta-se o futuro.

- É o lugar de minha identidade e minha identificação com um lugar e sua gente que se assoma a mim e eu a eles me cativando, motivando, impulsionando a ser mais sem ser apenas mais um.

Daqui a importância de se lutar para que todo ser humano tenha seu espaço, sua moradia, seu lugar de intimidade, de privacidade, para ser para si, para os seus, para o mundo... Não se trata de um direito por um teto apenas, uma propriedade, é luta para que ao termos um abrigo, uma morada, não fechemos nossos corações, mas sejamos morada, abrigo (Vós sóis morada do Espírito Santo, nos Lembra Paulo de Tarso) a outros que desejam e lutam por dignidade, por respeito, por justiça social... Que nosso desejo de um lugar que nos acolha seja também desejo de acolher o outro onde quer que estejamos e façamos desse lugar nosso lar: algo mais que quatro paredes e um teto...