Dois
mil e dezesseis é daqueles anãs que cede passagem ao ano seguinte sem terminar.
Um ano que fica. Muito aconteceu este ano e ele será invocado perenemente, como
o 11 de setembro de 2001, o 24 agosto de 1954, o 6 de junho de 1944. 2016
foi um ano nefasto. Tivemos a apologia à
tortura e homenagem a torturador, um golpe orquestrado entre mídia, setores
reacionários da política e da justiça e apoio de uma elite inculta e voltada
para seu egoísmo natural. Tivemos a eleição de Trump, ainda está ocorrendo a
guerra civil na Síria, e milhões de refugiados são abandonados à própria sorte,
pois o xenofobismo assola o velho continente. A morte de um ambulante na
estação do metro de São Paulo, fecha e resume este ano que não acaba, apenas
cede passagem para o próximo, voltaremos nele nos próximos 20 anos.
sábado, dezembro 31, 2016
FAUSTHINA
Que o ano que se inicia seja-nos propicio, porque o que se finda, poderíamos não tê-lo vivido. (Euripedes dos Santos)
Da varanda goumert se podia ver a torre do campanário de São Silvestre, o lago em toda sua extensão espelhando as luzes dos prédios ao redor, encobrindo o caminho que dava às casinhas da vila. Espichando o olhar, via-se uma ou outra luz espaçada cintilando nos contornos da serra fundindo-se a noite clara de lua e estrelas. O olhar acompanha, agora, um casal que se amassa, embaixo, na marquise de um magazine: “a adolescência é a perca do pudor e a virulência dos instintos”, pensou. Mudando o foco, acompanha um grupo de rapazes fazendo um barulho “desmedido”, acelerando suas motos e soltando rojões...
Margareth, no quarto, experimenta as peças que irá usar para “obter sorte e fortuna”. Mas, pelo tamanho das peças, a esperança é pouca. A ver a calcinha, a fortuna, se vier, não será lá grande coisa. “Não fechar o mês no vermelho já está de bom tamanho!”, pensa, contemplando-se na minúscula peça.
Anthunes cantarola e barbeia-se. Ethelvina corre com os últimos detalhes: “logo chegam os tios e os primos, e a carne ainda não foi ao forno, tio Iago fica inquietado com atrasos. Espero que Marcela esteja de bom humor, ano passado fez “casino” por nada...”
Os tios chegaram, um primo não veio, desceu com os parentes da noiva para o litoral. Tio Iago trouxe a gaita, tia Marcela, como sempre, já chegou fazendo carão pra tudo e todos. Prima pediu licença, “tinha que retocar a maquiagem, e trocar de roupa; queria iniciar o ano com energias positivas, e era bom começar com roupas novas, recém vestidas”, explicava. Enquanto se trocava, aproveitou para mostrar para Roberta a pequena tatuagem perto da virilha esquerda, uma pequena fadinha com uma frase: “vem beijar-me!” “Como você teve coragem?! Madrinha viu?” indagou Roberta. “Imagina que eu vou mostra pra mamãe, ela me mata!”, respondeu prima, vestindo a pequena tanga azul celeste: “Eu quero um pouco de paz de espírito, este ano que passou foi muito conturbado”. Por pouco não fui pego espionando as mulheres se trocando e confidenciando segredos. Um dos primos queria mostra-me sei lá que nova tecnologia havia ganhado no natal... Eu lá queria saber de tecnologia, queria aproveitar uma ocasião e traçar a prima.
Tia perguntou por Fausthina. “Disse que desceria à cidade para a missa e talvez ficasse por lá, com os amigos, embora eu duvide que ela tenha algum”, comentou Ethelvina.
A mesa estava pronta e farta. Anthunes fez as orações, desejou um bom ano a todos, serviu Ethelvina. Terminada a ceia, os comensais continuaram á mesa, conversando amenidades, fuxicando vidas alheias, preparando-se para a contagem regressiva. De repente, um corpo nu atravessou a sala e aproximou-se da varanda, espichou o quanto pode o olhar para lá da torre do campanário de São Silvestre, contemplou o céu estrelado, a febril a algazarra nas estradas, nos apartamentos ao redor, sorriu um sorriso confuso, tomou a beira da mureta de proteção, e quando o céu encheu-se de luzes, com o espocar dos primeiros rojões, lançou-se a abraçar a todos que corriam à varanda para impedir-lhe a insensatez. Fausthina tinha dessas, passar o ano nua fora sempre uma sua ameaça: “que o ano que chega nos impulsione a cumprir coisas que passamos uma vida inteira prometendo”, bailava Fausthina nos braços estupefatos de Antunes, recuperando-se do susto que a caçula lhe pregava.
sábado, dezembro 24, 2016
O JULGAMENTO
Juiz
de Primeira Instância (JPI) – Aqui está dizendo que, em dezembro de 1967, o
senhor escreveu ao Papai Noel, pedindo uma bicicleta. O Senhor confirma?
Réu –
Em dezembro de 1967, meritíssimo, eu não era, ainda, nascido. Eu nasci em maio
de 1968.
JPI –
Sr promotor público, corrija a data. Aponte nos
autos que o réu aqui presente enviou missiva ao Papai Noel em dezembro de 1968
e não em dezembro de 1967.
JPI – O Senhor então confirma que, em dezembro de 1968, enviou uma carta ao Papai Noel?
Reú –
Meritíssimo, eu aprendi a escrever muito tarde, e onde eu morava não se cultiva
esse uso de enviar cartas a Papai Noel. Em casa, vó montava presépio e, na véspera
de natal, a gente rezava o terço. Então vó depositava na manjedoura o pequenino
Menino Jesus. Era só, não havia nem o habito de trocar presentes.
JPI –
O senhor se lembra quando mais ou menos o senhor aprendeu a ler e escrever?
Réu –
Quando abandonei a casa de vó e fui para a cidade, em meados dos anos 80.
Aprendi no Circulo de Cultura.
JPI –
Ajunte aos atos, Sr promotor, que o réu reconhece ter participado de grupos de
desordeiros e destes ter sofrido influências. Corrija também a data da missiva
ao Papai Noel. Queira, por gentileza, ajuntar ao processo que o réu enviou carta
ao Papai Noel em meados dos anos 80, quando adquiriu a competência escritora.
JPI – O
Sr ainda tem a bicicleta que o Papai Noel te deu?
Réu –
Meritíssimo, eu nunca tive bicicleta, verdadeiramente eu nem sei andar de bicicleta.
JPI –
O senhor nega, então que este aqui, segurando uma bicicleta, não é o senhor? (Juiz mostra antigo monóculo com imagem ao
réu).
Réu –
Sou eu sim senhor, senhor meritíssimo. Eu tinha por volta de doze anos, mas se
o senhor notar bem, quem segura a bicicleta é o primo Marcelo e não eu. A
bicicleta era de Marcelo, que a recebeu de Michel, em toca de umas rapaduras e
queijos que Marcelo, meu primo, vendia no mercado.
JPI –
Ajunte-se aos autos que o réu reconhece ter participado de mal feitos,
reconhece também a alegada bicicleta, que os digníssimos promotores afirmam
convictos pertencer ao mesmo. O senhor
(dirigindo-se ao réu), sabia que o Papai Noel que te dou a bicicleta era
funcionário do correio, que comoveu-se com sua singela missiva, e resolveu fazer
a vez do bom Velhinho?
Réu –
Senhor meritíssimo, eu jamais escrevi a papai Noel algum, jamais tive
bicicleta, e desconheço qualquer funcionário do correio que me haja presenteado
uma.
JPI –
O Senhor tem como provar suas alegações?
Réu –
Meritíssimo, com mil perdões, não cabe à promotoria apresentar provas aos
autos?
JPI –
Ajunte aos autos que mediante a recusa do réu em colaborar com o processo em
curso, e tendo a promotoria, após exaustiva leitura e exame de jornalecos e semanais
de duvidosa reputação, elaborado peça acusatória em ilustrativo PowerPoint, eu, Juizeco de primeira instância, mas sentindo-me Deus, em minha mais ilibada convicção condeno o réu a não mais comer a coxa do peru nas ceias natalina.
quinta-feira, dezembro 22, 2016
CRONACA GIALLA
Conheci
H no ginásio. Era um menino introvertido, ensimesmado. Travei aproximação
devido a um trabalho de artes que a professora exigia ser em grupos. Nós nos
encontramos na casa de Marcela, para o trabalho. Naquela tarde, a gata de
Marcela desapareceu, sendo encontrada morta na manhã seguinte, sem um pequeno
brinco com o qual Marcela a ornava... Passado este incidente lamentável,
durante o colégio troquei poucas palavras com H. Depois do colégio, mudei-me
com minha família, não mais vi Marcela, H, as outras crianças com quem estudara...
Grata
surpresa tive, portanto, quando apresentei-me para o estágio em uma empresa de
comércio exterior. H era trainee da empresa e me recepcionou, apresentando-me
aos novos colegas de trabalho, a meus novos supervisor e coordenador de setor. Durante
meus primeiros meses na empresa, procurei manter distância de H que estava um
tanto quanto mudado, embora continuasse um rapaz reservado, comunicava-se bem,
com cortesia e discrição. No entanto, com o tempo, enamorei-me do “Estranho”,
como o chamávamos nos remotos tempos de escola. Um dia, com certo acanhamento,
H apresentou-me um pequeno brinco: “lembras da gata da Marcela?” Olhei-o
confusa, espantada, admirada, não sei. Sorriu-me tímido, diante minha
estupefação: “brincadeira!” E tímido me convidou: “Quer almoçar comigo?”.
Depois
de um ano de namoro, um pouco mais, nos casamos. Eu abri meu próprio negócio, ele
continuou na empresa e assumiu a direção de logística de importação. Devido a
sua posição na empresa, H viajava o Brasil e o mundo. Algumas vezes,
acompanhei-o, mas tinha as crianças, Helena e Heródoto.
Sempre
que volta de uma viagem, H presenteia-me um par de brincos novos. Assim, tenho
brincos dos quatro cantos do país e de uma dezena de países dos quatro
continentes. Recentemente, enquanto aguardava o dentista, folheava uma revista
italiana e deparei-me com uma “cronaca gialla”, uma espécie de narrativa
policial. A matéria reportava ocorrências policiais em que jovens mulheres, de
localidades diversas da Europa, apareciam mortas. O que atraia a atenção nas
investigações era uma peculiaridade em comum entre as vítimas: a falta de seus
brincos.
Aquilo
me intrigou por alguns dias, comecei a relacionar o relato às viagens de H ao
velho continente, aos brincos que me presenteava, à gata de Marcela. Contatei o
consulado italiano, contei das viagens de H, dos pares de brinco... H está sendo
procurado pela Interpol; acabo de receber a visita de um delegado da Polícia Federal
do Recife. Acabo de receber também um novo par de brincos de alguma ilha do
Caribe. H sempre soube como me fazer feliz.
domingo, dezembro 18, 2016
ÉDHIPO
Geni
Casta, durante uma festa universitária, teve a bebida batizada. E o amigo,
Silas Mal’affare, a seviciou. Geni acordou confusa e nua no reitorado, ao seu
lado uma pequena medalha com o brasão do judiciário. Envergonhada, Geni
preferiu abandonar a universidade. O fato é que Geni percebeu-se grávida. A
família, de valores cristãos e nome a zelar, enviou Geni em viagem ao exterior.
Trazendo ao mundo um menino, Geni o deixou, com a medalha que encontrara ao seu
lado, num abrigo para refugiados, retornou à família e à universidade.
Silas
Mal’Affare tornou-se homem público, comunicador social de grande apelo popular.
É famoso por seus bordões: “Não importa o caráter do rei, seja-lhe amigo, pois
sendo amigo do rei, tudo te convém!”. Silas Mal’Affare, era casado com Ella,
filha do presidente da suprema corte e tinha uma filha, Ellinha.
Geni
tornou-se esposa de magistrado. Com a ajuda de uma amiga, a quem confidenciou
seu drama de adolescência, articulou a morte de Ella Mal’Affare. Mal’Affare,
para não expor sua imagem, tratou a trama como um “lamentável acidente”. O
filho abandonado entre refugiados, certa noite, desembarcou na capital. Trazia
recomendações de nomes importantes do cenário mundial que o adotara. É preciso
dizer que numa noite, antecedendo seu desembarque na capital, o jovem socorreu
um velho cego numa travessia de Berna. Para recompensar-lhe, o velho cego
leu-lhe a mão: “serás o amante dos que te geraram”. “Não seria amado?”,
redarguiu o mancebo... O velho cego apenas riu um riso sacana: “para onde vais,
meu caro, não há tragédias e os dramas são fugazes”.
Com
as recomendações que o acompanhava, logo o jovem instalou-se na capital e
assumiu cargo importante numa estatal. Numa destas festas para autoridades e empresários
influentes, travou contato com Geni e dela enamorou-se. Não demorou muito para
os dois se enlaçarem amorosamente. Certa noite, enquanto o jovem amante dormia,
Geni, vasculhando seus pertences, encontrou a esquecida medalha...
Geni
foi a Disney, fez compras em Miami, adquiriu um Romero Britto e apareceu, meses
depois, rejuvenescida. O jovem abandonado, logo encontrou novo enlace amoroso: Ellinha
Mal’affare.
Durante
o jantar de apresentação, Silas Mal’affare, admirou a boa forma física e a
“elegância intelectual” do futuro genro, na oportunidade que teve, levou-o ao
seu escritório. Naquela noite o estrangeiro dividiu o leito com filha e o pai.
Sobre
a capital caiu um desgraça, e todos se sentiam ameaçados, muitos foram às ruas,
protestaram, denunciaram, pintaram a cara, vestiram as cores da bandeira. A
boca pequena, uns defendiam antigos regimes, outros pretendiam passar a
borracha, outros esperavam algo novo. O governo eleito foi deposto. O novo não
agradava, era decorativo. Silas Mal’affare, em seu prestigiado programa de
auditório, defendeu que “o pais precisava de um administrador, alguém que não
fosse político”, e lançou o genro-amante em cadeia nacional. Logo sua aposta
tornou-se “o mito”.
Geni
Casta, então, num talk show, trouxe à tona a verdade. Apresentou, entre risos,
a medalha; contou, às gargalhadas, seu enlace com o filho rejeitado, e disse
saber, de fontes seguras, do caso de Mal’affare, filha e genro. O escândalo não
durou dias. À boca miúda se repetia: “sendo amigo do rei, porque não?”
No
partido poucos rejeitaram a ideia, não havia aliança melhor, e lançaram, “pela
pátria, a família e Deus”, Edhipo e Geni Casta candidatos a presidente e vice.
Se não ganhassem, não haveria problema: “sabiam como depor presidentes eleitos”.
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