domingo, abril 03, 2022
domingo, março 27, 2022
DA FILOSOFIA
“Eu falo de coisas que não sei, por isso, as falo com incertezas.” (Rodner Lúcio)
Eu
gosto de falar com pessoas, adultas ou jovens, que queiram ampliar as suas e as
minhas capacidades de compreensão de mim, de si, da realidade que nos
produzimos. Eu gosto de conversas que evidenciam a minha ignorância e me instiguem
a querer saber, e gosto de falar com pessoas que queiram ser autônomas, capazes
de pensarem por si mesmas. Agora com pessoas, adultas ou jovens, que já tudo
sabem e se fartam de suas certezas, que se mostram indiferentes ao modo como
são conduzidas à “normalidade” das coisas, com aquelas que encontram no Google,
nas redes sociais, nos telejornais, as respostas que lhes cai melhor, a estas
eu me reservo o direito da escuta entediada, desinteressada.
Então
eu não gosto de ensinar, eu não sei ensinar. Ensinar supõe que você sabe, e eu
não sei. Eu estou sempre me interessando por saber. Costumo dizer a meus alunos
que eu não lhes ensino nada, que apenas falo com eles de coisas que me
interessam saber. Há um bom tempo, eu brinco com a filosofia, ou a filosofia
brinca comigo. Eu me aproximo, ela se afasta, eu me afasto ela me seduz. Quando
penso já ter clareza de algo, este algo me desafia, numa pergunta de um aluno
perspicaz.
Há
a noção de que a Filosofia ensina a pensar. Não é verdade. Pensar é um
patrimônio de todas as pessoas, pensar nos diferencia das demais espécies. Nós não
ensinamos as pessoas a respirarem, nós não ensinamos as pessoas a correrem. As
pessoas andam, correm, pensam. Eu não ensino a pensar, porque as pessoas
pensam. A Filosofia é um produto do pensamento, como a arte é um produto do
pensamento, como um verso é produto do pensamento. Há formas de respirar, há
formas de correr, há formas de pensar. Um nadador usa a respiração de modo
diverso de um maratonista e de um yoga. Um maratonista não corre do mesmo modo
que um fundista. Um filósofo pensa a
realidade de um modo diverso do historiador, de um biólogo, de um sacerdote, de
um poeta, da pessoa comum, sufocada de afazeres, sufocada de informações e
distrações, que quase “não respira”, que quase “não pensa”. Eu não sei ensinar
a pensar, a filosofia não ensina a pensar.
Eu
sei falar do que penso, e sei que penso um tanto de absurdos, um tanto de excrescências,
que não falo tudo o que penso. Falar é uma responsabilidade. A fala discrimina,
ofende, humilha, incita, mata. É preciso responsabilidade com a fala. É preciso
inverter o “eu falo o que penso”. “Eu pensei antes de falar, e falo o que
pensei”, seria o certo. A filosofia apenas coloca o pensar antes do falar, é a
arte de suspender a fala e de falar incerto de saber. Quem suspende a fala e a
repensa não dita certezas, a fala filosófica é aporética. “Só abra a boca
quando tiver certeza!”, para quem pensa é uma impropriedade. Quem pensa está
sempre incerto, e se abre a boca é justamente para expor suas incertezas.
Eu
não sei falar do que sei, gosto de falar do que me interessa saber. E desde
meus quinze anos me interesso por filosofia.
sábado, março 26, 2022
DEPOIS DE ERGUIDO TUDO TORNA A SER RUÍNAS
A ordem surge do caos e ao caos retorna
É do conflito que nasce o desejo da fugaz tranquilidade
O conhecimento surge da ignorância, que se renova todas as manhãs.
Do desentendimento nasce o esclarecimento sempre cedendo às cegueiras da razão
As civilizações prosperam do culto às barbáries.
Não obstante todo avanço, o retrocesso esta sempre adiante.
E o homem, que entre amigos sorri e festeja, em si traz apenas o desejo de não ser.
Viver é caminhar para a morte.
terça-feira, março 08, 2022
QUE HOMEM EU DEVO SER?
“Eles são homens e fizeram porque aprenderam que podiam fazer” (Pitty)*
Eu
já fiz muita coisa que contribui com a cultura do macho abusivo, escroto. Já
assinei revista pornográfica, já assinei sites pornográficos, já participei de
despedidas de solteiro em Drinks Bar, e já frequentei Drinks bar sem a
despedida de solteiro. Já incentivei concursos de misses, já fui em festas e
baladas apenas para “caçar”, já fiz psiu e chamei a menina de tudo aquilo que um
homem tóxico chama uma mulher que passa por seu caminho. Eu aprendi que as
atividades domésticas é coisa de mulher, e que mulher, não tem querer ante os
desejos dos homens, mesmo quando seus desejos sejam inconfessáveis. Dizem por
ai que somos produto da cultura. Se assim é, poderia me escusar então: Eu sou o
que a minha cultura é! Cultura se escolhe? Creio que não! Temos uma outra
cultura? Parece-me que não. Então eu sou machista e meu pai, meus irmãos e
minha esposa, minha mãe, minhas irmãs e cunhadas também são. Mas a cultura não é um dado estático,
permanente. A cultura não é dada, é produto humano, por isso é cambiante, pode
ser transformada. E é mudando nosso modo de ser e relacionar-se
que mudamos a cultura. E a cultura do macho abusivo, escroto, precisa ser
combatida. Então, o que me tenho proposto há alguns anos é abandonar o como eu
me relaciono com as mulheres, compreender minha cultura, reconhecer os abusos
que a estruturam e assumir nova postura, abandonar o macho abusivo. Diria que
tenho me proposto nascer uma segunda vez, isto é, dar-me um novo nascimento, e este
nascer não é algo que se dá do dia para a noite, há todo um processo de
gestação. Neste processo, permeado de
contradições, eu tenho evitado amigos misóginos, machistas, racistas,
homofóbicos etc. Não participo de conversas sobre mulheres sem que elas estejam
presentes. Assim, mesmo vivendo em uma sociedade ainda marcada pelo machismo, tenho
me proposto rever atitudes, comportamentos, formas de pensar. Precisamos refundar as relações entre homens e
mulheres, produzir uma nova cultura, em que a dignidade da pessoa enquanto
pessoa esteja antes de seu gênero e de suas opções sexuais. Essa nova cultura
só se dará se homens e mulheres estiverem juntos, combatendo o que precisa ser
combatido: a visão redutora e submissa do feminino e a exaltação das “virtudes”
do macho alfa e seus desejos. Para isto, é preciso condenar toda e qualquer
forma de violência: física, psicológica, econômica, política, religiosa, contra
as mulheres e dar-lhes a palavra. É preciso ouvir as mulheres: que sejam elas a
nos dizer como querem ser conquistadas e amadas, que homens elas esperam que
sejamos, que cultura devemos produzir!
* A
epigrafe é referente a um comentário da cantora Pitty sobre o estupro coletivo
de uma jovem de 16 anos, no Rio de Janeiro, em maio de 2016.

