domingo, outubro 17, 2021

DIA DE MISSA

 

Era domingo tardinha. Os tios acompanhavam Corinthians e Palmeiras, jogando carta. O primo e alguns amigos ouviam vitrola e bolavam um baseado. As primas se arrumavam para acompanhar vó e tia à missa. Maria Rita escolhia o vestido e perguntava à tia o seu juízo: “Este florido, com o arranjo de cabelo combinará bem.” Clarinha corria para o banheiro. Desceu o vestido, tolheu o sutiã, tirou a calcinha... A água corria seu corpo ensaboado: “sinto por dentro uma força, vibrando uma luz. A energia que emana de todo prazer.” “Onde anda Tunico?”, era vó. “Tuniiico, Tuniiico, diacho de menino, onde você se meteu?” Eu era, entre frestas, perdido nos segredos de Clarinha. Se vó me pegasse era castigo certo. Escorreguei gatuno para o quintal. “Meu bem você me dá agua na boca...”, o primo e os amigos, bolando, curtiam vitrola. O tio gritava: Gooool. “Tunico, vem se aprontar, menino!”. Vó me chamava para irmos à missa.

quinta-feira, outubro 14, 2021

NAÇÕES NÃO SE PRODUZEM COM ARMAS

 

Em um dia, o ministro da economia da Republiqueta de Bananas chega a ganhar 14mil dólares em especulação financeira. Neste mesmo período, milhares de pessoas passam o dia sem uma refeição sequer. Não é por disciplina religiosa ou estética que estas pessoas deixam de comer, é por privação econômica. A fome dessas pessoas não é dieta, é descaso político. O ministro da economia, ganhando seus 14mil dólares, diz que tudo está bem e o Assombroso que governa a republiqueta deita uma solução: “mais bala, menos feijão.” Acredita o inominável, o execrável, o abominável, que armas garantem o alimento, o gás, a água, a luz, o emprego. E cita do Evangelho o que lhe convém. Esquece o Genocida o que diz o profeta: “Eis o que diz o Senhor: Praticai o direito e a justiça, e livrai o oprimido das mãos do opressor. Não deixeis o estrangeiro sofrer vexames e violência, nem o órfão e a viúva, nem derrameis neste lugar sangue inocente” (Jeremias, 22,3), ou “Vós que engolis o pobre, e fazeis perecer os humildes da terra... converterei vossas festas em luto, e vossos cânticos em elegias fúnebres...” (Amós 5, 7-15). Mas se o Cristo sugeriu aos seus comprarem espadas, foi mais incisivo aqui: “Tendes ouvido o que foi dito: “Amarás o teu próximo e poderás odiar teu inimigo.” Eu, porém, vos digo: “amai vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, orai pelos que vos [maltratam e] perseguem.” (Mateus 5, 43-44). Ante a massa faminta, Jesus não lhes sugere tomar em armas, e recomenda aos discípulos: “dai-lhe vós mesmos de comer.” Ao jovem rico, Jesus não lhe sugere comprar armas. Não, Jesus apenas lhe ensina que sua riqueza é fruto da exploração e expropriação das centenas de pobres que o rodeiam. Mas Jesus, para não ser indelicado, não lhe diz claramente: “a tua riqueza é fruto de roubo, de exploração”. Jesus é sutil, apenas sugere: “vende tudo o que tem e dá aos pobres” (Mateus 19, 16-22). Na minha versão Jesus diria: “Como queres ser bom, se explora e expropria e se sacia da fome, do desemprego, da especulação financeira?  Toma tudo o que roubastes e devolves aos expropriados. Deixes de produzir commodities e alimentes o povo.” Não Abominável, armas não produzem liberdade, armas não constituem pátria soberana, armas apenas mantém o fosso entre os que ganham 14mil dólares por dia especulando a alta do dólar e as milhares de pessoas que passam fome. Uma hora, e não vejo a hora, estas pessoas deixam de apelar a Deus e tomam das armas. Disto não surgirá uma nação. Nações se produzem com justiça, com distribuição de renda, com escolas e livros.   

terça-feira, outubro 12, 2021

AOS PÉ DE MARIA

 

Era um doze de outubro, mãe, desesperada, se apegava à Nossa Senhora. O Bernardo pelava em febre. Pai fizera o turno da noite, já era para estar chegando. Mãe rezava e arrumava as coisas de Bernardo numa bolsa: documentos, fraldas, mamadeira. “Aguenta Bernardo, assim que seu pai entrar por aquele portão, eu corro contigo!” Mas pai não entrava pelo portão. “Rodrigo, presta a atenção”, disse-me mãe apressada, angustiada, “não dá mais para esperar teu pai chegar. Fica quetinho, não mexe em nada. Vou levar o Bernardo no médico. Vou passar na Quitéria, para ela vir te olhar. Só abre a porta para a Quitéria, entendeu? Fica deitadinho no teu canto. Só abre a porta para a Quitéria.” E mãe ganhou mundo com Bernardo nos braços. Não demorou, Quitéria apareceu.  Preparou-me café, me deixou assistir televisão. Pai só apareceu por volta das dez, já bêbado. Como chegou deitou, dormiu, sem dar atenção a que Quitéria lhe informava de mãe e Bernardo. No hospital não havia pediatra, o plantonista não fora, mãe precisava aguardar. E, aguardando mãe se apegava a Nossa Senhora.  Tardezinha, vieram avisar: “Bernardo partira, a mãe, a sedaram. Era preciso providenciar os documentos para o enterro!” Todos os anos mãe visita a Basílica, um dia lhe perguntei como conseguia manter a fé: “dando a Deus o que é de Deus, ao homem o que é do homem”. E me explicou: “Nós nascemos e nós morremos, não sabemos como, não sabemos quando. Mas, não ter hospitais, não ter médicos, perder nossos filhos não é problema de fé, é de política. No morrer não há querência de Deus, não se morre porque Deus quer, se morre porque é dos homens morrerem. É o morrer desassistido, quando não falta conhecimento e instrumentos que é um problema. Mas este não é um problema de Deus, é político. Na fé encontro razões para crer que meu filho é e eu serei, um dia novamente com ele.” Quando me tornei professor, minha mãe orgulhou-se: “não ensine teus alunos a duvidar de Deus, os ensinem a acreditar que podem, com conhecimento e com os instrumentos de sua criação, produzirem um mundo justo em que as pessoas vivam dignamente.” De mãe, de sua fortaleza, ainda aprendi: “Tem mais valor aos olhos de Deus quem nele não crê e produz justiça, que um devoto fervoroso, mas incapaz de caridade.” Mãe é hoje com Bernardo. Pai e eu mantemos o hábito de vir à Basílica. E aos teus pés , Maria, agradeço o que com ela vivi e aprendi: “Deus faz nascer o sol sobre justos e injustos, porque quem decide ser um ou outro é cada homem, é cada mulher.”

segunda-feira, outubro 11, 2021

MYSTERIUM VITAE

 

Venceslau Candido é um tipo “olha sapatos” e “voz para dentro”, como o definira Rigoberta Saraiva e Silva. “Muito prestativo, educado, faz as coisas com zelo e presteza”, informava Rigoberta aos “doutores”.  Os “doutores” eram o delegado e o escrivão. “As pessoas o dão por apalermado. Vivem bulindo com o coitado. E ele, nem sal, nem açúcar, caladão, cumprindo o que o chefe pede. ” “Ele vinha aqui todas as quintas e sábados”, explica o balconista. “Sentava ali no canto, naquela mesa. Se a mesa estava já ocupada, ficava encostado lá no canto, aguardando desocupar. Mas não era de se demorar muito. Acho que o negócio dele é com a Brighitte, depois da apresentação dela, ele pagava a conta, geralmente uma dose de vodka e uma latinha de Coca, uma porção de amendoim ou pururuca, a consumação de uma ou outra menina.” “A Brighitte”, explica o gerente, “apenas faz show, ela não faz programa. Ela se apresenta às quintas e sábados. Nestes dias, a casa ferve. “A vida é uma incógnita”, começou o Antunes, “há nela uma ordem oculta, conduzindo as pessoas, sem que se deem conta. Na vida, cada pessoa cumpre um papel determinado.  Venceslau cumpriu o seu.” “Não seu doutor”, explica Rigoberta, “o Venci, é assim que o chamamos por aqui, o Venci nunca faltou, chega sempre dez, quinze minuto antes, cumpre o horário de almoço rigorosamente, não é como uns e outros – olha para o Claudemiro – que começam quinze minutos antes e terminam meia hora depois. Não, o Venci, em tudo, é muito certo, muito correto. Em tudo, ele é muito organizado.” “Uma única vez, que me lembre”, relatou o garçom “ele foi pro quarto com uma garota, a Bia, se não me engano. Mas faz anos isto! A Bia, tadinha, já nem está mais entre nós. Ela morreu há uns dois anos, num acidente de carro. Era irmã da Brighitte, e uma das melhores garotas da casa, Deus a tenha”. “Ele era na dele”, conta o gerente, “sentava naquela mesa, ordenava uma vodka, uma Coca, uma porção qualquer, geralmente aceitava a companhia de uma das garotas, pagava o seu consumo, mas recusava qualquer proposta de programa, eu acho que ele era brocha. “No armário dele, ele guarda um foto dele ao lado de uma garota. Estão abraçados, ele parece feliz”, informa Rigoberta. “Eu sei porque foi algo excepcional. Ele, como disse, é muito organizado em suas coisas e cioso também, mas aquele dia, ele deixou a porta aberta, deixou a porta aberta. Então eu vi a foto dele com a garota Muito bonita, alias.” “Cada um de nós”, retoma o discurso Antunes, “está obrigado, sem se dar conta, a usar certo tipo de traje; a estar preso a certos rituais, a determinados comportamentos. Nosso modo de ser é regrado pelas circunstancias, as estruturas em que nascemos e vamos nos desenvolvendo nos enredam.” “Como de costume, ele chegou, tomou a mesa lá do canto, pediu uma vodka e uma Coca.” Explica o garçom. “A Brighitte teve um contratempo, não pode vir. Então, a substituímos. Quem se apresentou foi a Albertinna”, relata o gerente.  “Quando soube da mudança, ele simplesmente levantou-se e saiu”, informou o garçom. “Demonstrou contrariedade ao pagar a conta, mas não disse nada”, observou, ainda...  O sangue escorria pelo meio fio misturado à água que escorria vindo das casas mais acima. O corpo debruçado ao solo. Ao redor olhares curiosos, vozes desencontradas, narrações entrecortadas, especulando, indignando-se, justificando... “Somos indeterminações apenas por ignorância, tivéssemos conhecimento das leis que nos regem, nos saberíamos determinados. Cada gesto nosso, está já em nosso nascimento”, filosofa Antunes. Do outro lado da cidade Brighitte recebe a notícia: o irmão se suicidara.