domingo, outubro 01, 2017

MOURA TORTA

Tínhamos medo da “Moura Torta”. Seus cabelos desgrenhados, os olhos esbugalhados, apagados de sentido, a ausência de dentes no sorriso melancólico. Arrastava a perna esquerda, caminhava maltrapilha, catando bitucas de cigarro e mendigando. Era tia que nos colocava medo: “Arruma esse cabelo menino! Moura Torta vem te catar piolho”. E tia nos contava a história da Moura Torta. Celesthina Álvares, era seu nome de batismo. Filha do coronel Sebastião Salgado, cresceu formosa e gentil. Veio certa vez da cidade um reporte de jornal importante fazer matéria sobre uma certa galinha que andava de fasto e se achava galo. “Tanta coisa que se deve acontecer, lá na capital, e esse aqui, querendo saber de galinhas”, comentavam na venda de seu Quinzinho. Era moço educado, bom de prosa que, com paciência explicava: “Na capital não se pode publicar de tudo. Tem censura”. Dizia o moço, bebericando com os homens de Coronel, que na capital “homens e mulheres sumiam ou eram presos sem muitas explicações”. Contava de um que fora preso em uma mesa de bar por discordar de um certo tenente sobre criação de galos de rinha. “O tenente impôs sua razão, com voz de prisão”. Na capital, “tinha-se que tomar cuidado com que se dizia e, principalmente, se escrevia”, completava a conversa. Foram se ver, o moço e Celesthina, para despertar entre eles o mais fervoroso sentimento, para desconforto de coronel Sebastião Salgado e descontentamento de um certo Julio Batista, preterido por Celestina. Como o moço apareceu, desapareceu. Diziam uns que fora coronel, outros que fora o tal Batista, outros, a boca miúda, diziam que tinham sido homens da capital. Tínhamos medo da “Moura Torta”, de suas convulsões, seus arribar as vestes, mostrando-nos suas intimidades. Celesthina perdera a criança no trabalho de parto, entristeceu-se até a loucura, e quando a mãe morreu, abandonada à sorte e à caridade alheia. Tínhamos medo da “Moura Torta”, de Celesthina, com tia, aprendemos a ter piedade. Todos esconjuravam Celesthina, tia a acolhia, dava-lhe banho, trocava-lhe as roupas, penteava-lhe os cabelos. Celesthina sorria, sua falta de dentes, olhando-se no espelho. O sorriso de Celesthina eu jamais temera.          

SOBRE COISAS ÓBVIAS

“os homens em absoluto não são naturalmente inimigos. É a relação entre as coisas e não a relação entre os homens que gera a guerra...” J.J. Rousseau

Meus poucos leitores sabem de meu amigo Leopoldo, um fantasma de família, que diz ter sido mordomo na corte de D. Pedro II, e que tem o prazer de me sacanear, aparecendo-me nos momentos mais impróprios. Por estes dias tive o grato desprazer de sua visita. Leopoldo portava com sigo um exemplar Du Contrat social, de Rousseau, do ano de sua primeira publicação. Apresentou-me também um manuscrito que ele jura ser do genebrino, que, a época, não ousou colocar em circulação. Duvido que tal manuscrito seja de fato do mestre de Emílio. Não obstante, coloco tal manuscrito a disposição de meus poucos leitores, alertando-os que a tradução é de meu importuno, mas estimado, amigo Leopoldo, um sujeito nada confiável.
     
“[...] “A loucura não cria direito”. Isto é uma constatação óbvia, como é obvio que “a desigualdade social gera conflitos sociais”. Dizer obviedades é uma forma de filosofar sobre problemas graves. Diz-se o óbvio para que se trate de coisas que nos cercam e de nós mesmos. Por muito obvia que pareça uma assertiva, ela mascara a realidade. Dizer o óbvio atrai o olhar e desperta o pensamento, a capacidade de se compreender e compreender a realidade. Se vamos aceitar ou não nossa compreensão é uma outra história. O fato é que dizer o óbvio não é só uma estratégia filosófica, é um risco que se corre. Dizer o óbvio: “fazeis de minha casa em um covil de ladrões”, por exemplo, pode condenar-te à morte.
Então, é óbvio que a carência material incide consideravelmente sobre o desenvolvimento intelectual e moral dos indivíduos. É óbvio que onde falta o alimento, abunda a indolência, mãe de todo crime.
[...] É óbvio que é da desproporção da distribuição dos recursos, dos serviços e bens produzidos a causa dos conflitos sociais. Onde uns abundam no desfrute e no gozo dos desejos, e outros apenas nas satisfações das necessidades, não pode haver paz e tranqüilidade.
[...] é óbvio, mas há resistência em se aceitar, que a penalização cada vez mais severa dos carecidos dos bens produzidos para proteger o gozo escandaloso dos opulentos, não apagazigua a realidade social. Penalizar o expropriado é combater fogo com combustível... “
Todo acumulo, todo excesso é expropriação, é roubo. O mérito divino, de sangue, convencionado, todo mérito, em suma, favorece a desigualdade e a injustiça; é mola da corrupção...
[...] só há crime do bem estante, do opulento, do esbanjador. Só há crime do que expropria e goza sobre a carência, a indigência vil... A violência do homem sem recursos é resistência, luta de sobrevivência. Só há crime em quem expropria indiferente, sem indulgência. “Quem come dois pães, come o pão de alguém. Por isso dorme de olhos abertos”. Toda violência, todo conflito é fruto na desigualdade, na desproporção na distribuição dos bens produzidos. Não há pena que reduza a violência. Não é aprisionando o faminto que se produzirá a paz entre os homens. Apenas partilhando o pão se promove a paz.

[...] Todo acumulo é roubo. O roubo do expropriado leva-o a roubar, seu ato é resistência, sobrevivência, o crime esta antes, contra ele...

domingo, setembro 17, 2017

PRIMEIRA NAMORADA




Minha primeira namorada foi um misto de minha irmã, Claudia Ohana – a encontrei numa mala que tio mantinha sobre o guarda-roupa, e Anna Helisa, do 6 ano. Foi num fim de noite de verão, um sábado, que ela me surgiu. Eu assistia ao Viva a Noite com o Gugu Liberato.  Num correr da câmera pelo auditório, ela me sorriu, acenou-me, mandou-me um beijo.  Senti-me ereto, úmido, sem jeito – tia e prima dividiam o sofá comigo. Encolhi-me abraçado à almofada. Fomos dormir. No meio da noite acordei transpirando, ofegante, sedento. Ao meu canto ela ascendia um cigarro, tragou-o e soltou a fumaça em meu rosto. Beijou-me um beijo longo. Senti um suave hálito de menta, misturado a lavanda. Passamos a nos ver com freqüência nos fins de tarde depois da escola. Caminhávamos pela orla, assistíamos ao por do sol da Pedra do padre.  À noitinha, ela se deitava ao mesmo lado e me carinhava até o sono me alcançar.  As pessoas diziam-me eu ser uma pessoa estranha, taciturna, alienada. Num fim de tarde, um domingo, voltávamos da capital, ela me disse adeus. Acompanhei-a perder-se de vista à medida que o ônibus seguia seu destino. Esta semana, em um sebo, folheava a mesma Playboy que tio mantinha em sua mala sobre o guarda-roupa. Tive a impressão de estar sendo vigiado. Um misto de menta e lavanda preencheu o ar. Tomando o rumo do metrô a vi cruzando a faixa de pedestre, quis acompanhar seus passos. Ela se perdeu na multidão. Tirando as chaves do bolso para abrir a porta, veio junto um bilhete: “Rua dos Marines, 68, sábado 18h”. Tomo um conhaque, os comprimidos, procuro dormir. “Não pude esperar até sábado”, sorri-me...  

sábado, setembro 16, 2017

SOBRE A ARTE

A arte se passa despercebida é apenas mercadoria a ser consumida” (Rodner Lúcio)
“A arte incomoda, quando nos faz questões, cujas respostas sabemos e das quais temos medo” (Euripedes dos Santos)

A arte é representação do imaginário, do simbólico, do real. É algo do representado, mas não o representado. Envolve saberes, habilidades, técnicas, sentimentos, sensibilidade, sensações, emoções, paixões, desejos e razões. Envolve a memória, a imaginação, a intuição, a reflexão. É dramática, é cômica, irônica, sarcástica, cínica. É plástica, é performática, é sensual, é erótica, é obscena, pornográfica, amoral. É didática, reflexiva, provocativa, combativa, libertina, libertaria, religiosa, mundana e política. Exprime o sublime, o grotesco, o sagrado: divino-diabólico, e o humano, demasiado humano: suas errâncias, suas desmedidas, suas paixões e desabores, a aventura e as desventuras de seu desenvolvimento. A arte desestabiliza, incomoda, desconforta, confronta, desaponta, estarrece. Também diverte, alegra, emociona, conforta, informa, forma, liberta. Cabe muita coisa à arte, gostemos ou não gostemos, só não cabe o fomento ao ódio e à violência.

domingo, setembro 03, 2017

FOTOGRAFIA



A semana fora toda chuvosa e invernal. O fim de semana prometia ser de encolhimento debaixo das cobertas. Mas o sábado abriu-se outonal: um sol morno entre nuvens, que foi se tornando primaveril. Passamos a manhã lendo e largatinhando. Folheavas o Caderno de Cultura. “Tem uma mostra de cinema italiano rolando, podíamos ir!”, você propôs. A princípio não me entusiasmei com a idéia, preferia ficar em casa lendo, assistindo, dormindo. Você insistiu. “Podemos comer alguma coisa no Frigotto e descer caminhando pela Inconfidência, entre as galerias e antiquários e tomar o ônibus na Pedro Américo. Podemos parar no sebo da Major Diego Mendes”... Você era animada, cantarolava, e comentava sobre um ou outro objeto que íamos observando nos antiquários, um quadro qualquer te lembrou nossas tardes em São Paulo, o parque do Ibirapuera, as escadarias do Municipal, a vista do Terraço Itália... Preferimos Fellini a Pasolini... Encontramos casualmente os Conovanni. Gilberto fotografou-nos. Ao fundo podemos ver o cartaz ilustrativo da mostra, em primeiro plano eu ladeio-te com o braço. Ao centro, você sorri. Lisa esta apoiada a teu ombro esquerdo... Os Canovanni nos deixaram à porta de casa. Combinamos pro final se semana seguinte voltarmos á mostra, dando vez ao Pasolini. Encontrei a foto entre as páginas de um livro: A idade da Razão, de Sartre, que compramos em um outro momento, quando estamos para dar à luz nosso primeiro “gigante”.