terça-feira, agosto 08, 2017

POR HOJE


“o suicida é como o prisioneiro que, vendo armar-se uma forca no pátio, imagina que é para ele – foge de sua cela, à noite, desce ao pátio e pendura-se ao baraço”.
 Franz Kafka.


Mastigo pão com manteiga e solvo café amargo. Sob minha pele, o descanso de sol tênue de inverno. “Viver não me é um imperativo categórico”. Respirar é fugaz. Não insisto por existir, existo sem propor-me motivo. Nossa época exige posicionamentos claros, eu não os tenho. Sei para que lado pendo por simples axioma: todo acumulo é furto; uma fugaz harmonia é fruto de sofrimentos perenes.  Mastigo pão com manteiga e solvo café amargo: quantas bocas insaciadas e sedentas propiciam-me o que me escapa sob um sol morno de inverno? O que me escapa, uma frugalidade banal, torna-me ainda existente. Ensaio, porém, uma saída a qualquer momento. É uma questão de time, um kairós, um momento propício, diria Paulo. A sentença esta posta me falta a corda, uma manhã fria, uma tarde de tédio, um fim de festa, a ausência de um sorriso, a pressão por um resultado que não se terá, o excesso de uma fantasia, um desencanto, uma desilusão, o ápice de uma euforia... Colho migalhas da mesa; jogo-as aos pássaros. O que me escapa, torna-me, por hoje, existente...   

quinta-feira, junho 22, 2017

ELUCUBRAÇÕES DE UM ESPECTADOR


Há coisas que são politicamente planejadas para não darem certo. A escola pública, a saúde pública, a segurança pública, a justiça pública, são dessas coisas. Se o público der certo, o privado perde a razão de ser, e políticos atrelados ao poder econômico deixam ter serventia aos interesses dos senhores do mercado. A mão do mercado que regula a produção, o consumo, os desejos e suas fruições é engendrada em uma razão empreendedoramente mesquinha. O público não é para dar certo, é econômica e politicamente programado para o fracasso. Os poucos “sucessos”, revestidos de ares de superação, esforço, prodigiosidade etc, estão na planilha: É preciso fazer crer que o problema é do indivíduo não da estrutura. Então há este desgaste dos trabalhadores da coisa pública, desgaste que os enlouquecem, porque querem que a coisa pública funcione como prega a propaganda oficial, ou seus devaneios de justiça, igualdade, felicidade. Se a atividade empresarial é alienante, pois aparta o sujeito de sua produção, o serviço publico é adoecedor, produz doentes mentais. Tenho pena de professores, policiais, agentes de saúde a serviço do poder público, em especial do desgoverno de São Paulo, principalmente daqueles que acham que estão fazendo o melhor, que o seu esforço está fazendo a diferença, que está produzindo uma andorinha que apagará o incêndio da floresta (vocês conhecem está parábolas): são os mais doentes. A política, a economia, nossa miserável vida é regida pela mão do mercado, sua razão é prosaica, é egoísta, é amesquinhada. É esta razão que pensa e administra a coisa pública, e a pensa e administra para não funcionar. Somos loucos, todos loucos, se acreditamos que pode dar certo o que esta planejado para dar errado...

domingo, junho 11, 2017

TATURADOR

Achou que praticava justiça, mas apenas passou de tatuador a torturador. Se tivesse compreendido as relações promiscuas  entre políticos, empresários e magistrados bem ilustradas no resultado do processo da chapa Dilma-Temer não teria se metido nesta situação. É também vitima, como a pessoa que tatuou. De cidadão de bem, achando estar fazendo algo bom, tornou-se autor de crime hediondo, porque vivemos dias   de impotência. Queremos fazer algo para "limpar" o Brasil, mas somos diminutos, os Perrellas, os Neves, Os Cunhas, os MENDES, os Temer, nos são inatingíveis, nos voltamos contra o empobrecido, o marginalizado, o viciado, tornamo-os viáticos de nosso ódio impotente. Um "homem de bem", por achar estar fazendo algo bom, tornou-se criminoso. É tão vítima quanto a vítima de seu ato.   É um caso de estudo, não de condenação...


sexta-feira, maio 19, 2017

DEZENOVE


“Eu sou de uma tradição que celebra o dia de morte do individuo, quando se pode narrar o que foi sua fugaz aventura na existência, se se tornou exemplar, merecedor de ser narrado ou esquecido por seus feitos. À vida, à existência, se sobrepõe a História. E a História é produto de nossas sandices. Só os loucos têm suas histórias contadas.” (Euripedes dos Santos)

 

Era um maio noturno, frio, chuvoso. Um maio de chumbo. O ano 1968. As entranhas da mãe, cumprindo o ciclo biológico, lutava para o expulsar do útero que até então o acolhia. A mãe, entre apreensões, incertezas, receios – o momento não era para ter mais um filho – sofrendo dores da luta, seguia os incentivos da parteira e das mulheres que a auxiliavam, e forçava o expelir do ansiado rebento. A luta era dele contra as forças que o expeliam. Ele queria não nascer, queria não entrar no mundo, não ter que assumir a existência. Sabia ser o útero o seu lugar. Venceu a natureza e viu-se jogado ao colo da mãe, adoentado de morte. Era frágil o fio que o ligava a vida. “Não vingaria!” ouviu com contentamento. Não teve tempo de alimentar-se da mãe apreensiva. Embrulharam-no em panos e correram com ele ao hospital. Incubaram-no por dias. A técnica venceu o seu não querer ser e, mirrado e incerto, vingou. Pegou gosto pela incerteza de uma existência longa, apegou-se ao que é mórbido, ao lúgubre. Em nada se mantém, deriva como barca sem leme.  Nutre o não ser: “o ser é ilusão e faina”. Tudo lhe é vão, sem sentido. Lamenta as pessoas apegadas a alcançarem um lugar fugaz num mundo. Quanta labuta por conquistas não fruídas, porque tênues e ilusórias. Não tem apego ao mundo sempre em desordem, sempre ruindo. São-lhe como resquícios de sol entre outono e inverno os avanços que a humanidade alcança. É tudo sempre destempero e tempestade. Os que riem, riem sobre cadáveres. Existir é-lhe um fardo. “Nunca esforçou-se pela vida, por esse mundo, por ser”, sua epigrafe. Em todas as suas lutas é vencido... Era um dezenove quando saltou cumprindo-se.